O feminino de “poeta” costuma gerar dúvidas em conversas informais, na escola e até entre profissionais da linguagem. Em livros, jornais e redes sociais, aparecem ora “a poeta”, ora “a poetisa”, o que leva muitas pessoas a perguntar qual é a forma correta. A discussão ganhou força nos últimos anos, acompanhando debates sobre linguagem de gênero e mudanças de uso no português contemporâneo, além de reflexões sobre identidade e autodenominação de autoras.
Qual é o feminino de “poeta” segundo a gramática tradicional
Na gramática escolar mais antiga, o ensino foi cristalizado da seguinte forma: masculino “poeta”; feminino “poetisa”. A formação com o sufixo -isa acompanha outros pares tradicionais, como “profeta/profetisa” e “sacerdote/sacerdotisa”, e muitos dicionários anteriores aos anos 2000 priorizavam essa solução.
Do ponto de vista morfológico, esse modelo é coerente com padrões históricos do português, mas a própria tradição literária mostra que as duas formas sempre conviveram. Autoras de diferentes épocas foram chamadas tanto de “poetisas” quanto de “poetas”, e estudos linguísticos mais recentes passaram a registrar o uso real, contribuindo para a aceitação de “a poeta” em gramáticas e dicionários atuais.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo do perfil @taynarales:
@taynarales Você sabe qual é a diferença entre poetiZa e poetiSa? #AprendaNoTikTok #dicasdeportuguês #dicasdeestudos #agoravocêsabe ♬ SUN GOES DOWN – Andreas Roehrig
O que diz a ABL sobre “poeta” como feminino neutro moderno
Nos últimos anos, “poeta” passou a ser interpretado com frequência como substantivo comum de dois gêneros: um único vocábulo que serve para homens e mulheres, variando apenas o artigo (“o poeta”, “a poeta”). A Academia Brasileira de Letras (ABL) registra essa possibilidade, legitimando o uso de “a poeta” em textos literários, acadêmicos e jornalísticos.
Esse uso atende a diferentes objetivos, ligados tanto à padronização quanto às discussões atuais sobre visibilidade feminina na linguagem. Entre as motivações mais citadas, destacam-se:
- Evitar o sufixo -isa, que algumas pessoas consideram marcado por uma visão mais antiga de papéis de gênero;
- Manter a mesma forma para todos os gêneros, facilitando a padronização em textos institucionais e acadêmicos;
- Aproximar-se de outros substantivos comuns de dois gêneros, como “o artista / a artista”, “o jornalista / a jornalista”;
- Respeitar a preferência de autoras que optam explicitamente por ser chamadas de “poeta”, inclusive em apresentações biográficas.
“Poetisa” saiu de moda ou continua válida
A forma “poetisa” permanece dicionarizada, amplamente compreensível e ainda muito usada, sobretudo em referências a autoras de períodos anteriores. Em obras críticas sobre escritoras do século XIX e início do XX, o termo funciona como marca histórica, acompanhando o vocabulário da época retratada e o modo como essas mulheres eram nomeadas em vida.
Ao mesmo tempo, em textos mais recentes, observa-se uma preferência crescente por “a poeta”, associada a debates sobre linguagem inclusiva e revisão de marcas de gênero. Assim, manuais de redação costumam orientar o uso de “poeta” para homens e mulheres, respeitando sempre a autodenominação da pessoa e, em contextos históricos, o uso consagrado nas fontes originais.

Quais são as mudanças na linguagem de gênero em português
A discussão sobre “poeta” e “poetisa” integra um quadro mais amplo de mudanças na linguagem de gênero no português do Brasil. Termos como “presidenta/presidente”, “chefe/chefa” e “ministro/ministra” aparecem em debates semelhantes, nos quais se avalia o que é previsto pela gramática, o que está registrado e o que efetivamente circula no dia a dia.
Nesse cenário, a ABL funciona como referência, mas o uso social é o principal motor das mudanças. Quando um grande número de falantes passa a empregar uma forma de maneira consistente, dicionários e gramáticas tendem a incorporá-la. Em 2025, observa-se a convivência entre “a poeta”, cada vez mais frequente em ambientes formais, e “poetisa”, que permanece como opção legítima, especialmente em registros literários, históricos ou conforme a identidade escolhida por cada autora.








