Ficar muitas horas sem comer causa uma série de ajustes internos no organismo. O corpo não “desliga” por falta de alimento, mas reorganiza o uso das reservas de energia para manter funções vitais, como atividade do cérebro, batimentos cardíacos e respiração, envolvendo mudanças hormonais, uso de estoques de glicose e, em períodos mais longos, a produção de cetonas como combustível alternativo.
O que acontece no corpo nas primeiras horas sem comer
Nas primeiras 3 a 4 horas após a última refeição, o corpo ainda está em fase de digestão e absorção de nutrientes. A glicose consumida é usada como principal fonte de energia e o excesso é estocado na forma de glicogênio no fígado e nos músculos, com auxílio da insulina para entrada de glicose nas células, como explica a pesquisa “The circulating metabolome of human starvation”.
Depois de cerca de 4 a 6 horas, a glicemia começa a cair lentamente e o organismo passa a depender mais das reservas de glicogênio hepático para manter o açúcar sanguíneo estável. O hormônio glucagon estimula o fígado a quebrar esse glicogênio e liberar glicose, fase em que a maioria sente apenas o sinal natural de fome, mas ainda sem sintomas intensos.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo da nutricionista Adriana Oliveira:
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Como o metabolismo se adapta ao jejum e muda de combustível
Quando o intervalo sem comer ultrapassa 8 a 12 horas, o metabolismo entra em um modo mais econômico, priorizando a poupança de glicose para órgãos que dependem fortemente dela. O corpo começa a usar mais gorduras como fonte de energia e reduz levemente o gasto energético em repouso, algo que pode variar conforme idade, nível de atividade e composição corporal.
Nessa adaptação, hormônios como adrenalina, cortisol e hormônio do crescimento favorecem a mobilização de ácidos graxos do tecido adiposo. Em jejuns prolongados, após cerca de 24 horas, a gliconeogênese (produção de glicose a partir de aminoácidos e glicerol) ganha importância para manter níveis mínimos de açúcar no sangue, especialmente em pessoas com menor reserva de gordura.
- Primeiras horas: uso da glicose da refeição;
- Até cerca de 12 horas: uso predominante do glicogênio;
- Após 12–24 horas: maior mobilização de gordura e início de produção relevante de cetonas.
O que são cetonas e qual é o seu papel durante o jejum
Quando o corpo fica muito tempo sem comer e as reservas de glicogênio diminuem, o fígado transforma ácidos graxos da gordura corporal em corpos cetônicos. As principais cetonas — acetoacetato, beta-hidroxibutirato e acetona — funcionam como um “combustível alternativo” para o cérebro, músculos e outros tecidos em momentos de menor oferta de glicose.
Esse processo, chamado cetogênese, é uma resposta fisiológica normal ao jejum prolongado e ocorre também em dietas muito pobres em carboidratos. As cetonas atravessam a barreira hematoencefálica e são usadas pelo cérebro, reduzindo a necessidade de degradação de proteínas musculares para gerar glicose e ajudando a preservar massa magra em períodos de escassez alimentar.
- As cetonas derivam principalmente da quebra de gordura;
- Servem como fonte de energia para o cérebro na falta relativa de glicose;
- Auxiliam na proteção da musculatura contra perda excessiva.

Jejum prolongado faz mal ao corpo em todas as situações
O impacto de longos períodos sem alimentação depende do estado de saúde, do tempo de jejum e da hidratação. Em pessoas saudáveis e bem acompanhadas, jejuns planejados podem ser tolerados, pois o organismo usa a adaptação metabólica e a produção de cetonas para manter funções básicas, embora nem sempre seja uma estratégia adequada para todos.
Em contrapartida, indivíduos com diabetes, uso de certos medicamentos, gestantes, idosos ou pessoas com doenças crônicas podem ter maior risco com intervalos prolongados sem comida. Em jejuns excessivamente longos, o corpo passa a usar mais proteínas musculares, surgindo sintomas como tontura, fadiga intensa, queda de pressão e alterações de concentração, sinalizando desequilíbrio metabólico.
- Observar sinais como fraqueza acentuada, desmaios ou confusão mental;
- Manter hidratação adequada mesmo em períodos de jejum;
- Buscar orientação profissional antes de adotar jejuns prolongados, especialmente em caso de doença pré-existente.
Como o corpo se recupera ao voltar a comer após o jejum
Quando a alimentação é retomada depois de muito tempo sem comer, o organismo volta a receber glicose, proteínas e gorduras diretamente da refeição. A insulina aumenta, facilitando o uso desses nutrientes pelas células, a reposição parcial do glicogênio e a redução gradual da produção de cetonas, com retorno à glicose como principal fonte energética.
Essa transição costuma ser mais suave quando a primeira refeição após o jejum é equilibrada, com carboidratos, proteínas e gorduras em quantidades adequadas. Em situações de privação alimentar prolongada e grave, o retorno alimentar requer cuidado profissional para evitar o surgimento de desequilíbrios de eletrólitos e líquidos corporais, reforçando a importância de respeitar limites individuais ao planejar qualquer tipo de jejum.









