Querer apagar o passado costuma indicar um esforço interno para se afastar de lembranças, situações ou versões antigas de si que causam incômodo. Em vez de ser apenas um desejo de “esquecer”, esse movimento geralmente está ligado a tentativas de proteger a própria imagem, evitar sofrimento e manter a rotina funcionando sem grandes abalos emocionais, sobretudo após perdas, traumas, términos ou mudanças bruscas.
O que significa querer apagar o passado
Quando alguém quer apagar o passado, na prática, costuma estar tentando se livrar do desconforto que determinadas memórias provocam. Em geral, não se trata apenas de fatos isolados, mas do significado atribuído a eles: arrependimento, mágoas, vivências de violência, erros percebidos ou versões antigas de si que hoje causam constrangimento, como aborda a pesquisa “Suppressing Unwanted Memories by Executive Control”.
O passado passa a ser visto como algo que “atrapalha” a identidade atual e que ameaça uma imagem mais “controlada” de quem a pessoa é hoje. Isso pode interferir em relações afetivas, vida profissional e na autoestima, mantendo um conflito silencioso entre a história vivida e a história que se deseja contar sobre si.

Como o desejo de apagar o passado se manifesta na vida cotidiana
Esse desejo pode se manifestar de várias formas concretas no dia a dia, como evitar conversar sobre determinados temas ou apagar registros em redes sociais. Em muitos casos, a pessoa tenta se convencer de que “já passou” e que pensar nisso seria perda de tempo, mesmo quando o assunto ainda provoca reações intensas e desproporcionais.
Entre as atitudes mais comuns, aparecem mudanças bruscas na rotina e tentativas de reconstruir a própria narrativa, omitindo partes que geram sofrimento. Alguns exemplos ilustram esse movimento de afastamento do que dói:
- Evitar contatos: cortar laços com pessoas que lembram um período difícil da vida.
- Mudar de ambiente: trocar de cidade, trabalho ou grupo social sem falar muito sobre o passado.
- Reescrever a história: omitir, minimizar ou alterar relatos sobre eventos marcantes.
- Apagar registros: excluir fotos, mensagens ou objetos ligados a experiências dolorosas.
O que é repressão emocional e mecanismos de defesa
A repressão emocional é um processo em que sentimentos são empurrados para fora da consciência, como se fossem trancados em um cômodo interno para não atrapalhar a rotina. As emoções não deixam de existir; elas apenas deixam de ser nomeadas e reconhecidas de forma clara, retornando em forma de irritação, ansiedade ou sensação de vazio.
Esse funcionamento está ligado aos mecanismos de defesa, recursos psíquicos que ajudam a lidar com situações percebidas como ameaçadoras. Negação, racionalização, projeção, dissociação e idealização surgem como maneiras de afastar lembranças dolorosas, protegendo momentaneamente a integridade emocional, mas dificultando um contato mais honesto com a própria história.
Como a negação e a racionalização atuam no desejo de apagar o passado
Entre os mecanismos de defesa, a negação e a racionalização estão entre os mais associados ao desejo de apagar o passado. Na negação, a pessoa age como se o problema não tivesse acontecido ou não tivesse tido tanta importância; na racionalização, tenta explicar o que ocorreu de forma tão lógica e distante que o aspecto emocional fica esvaziado.
Essas estratégias podem ser úteis em um primeiro momento, quando a dor ainda é muito intensa, mas se tornam limitadoras quando viram padrão fixo. Com o tempo, a negação constante tende a manter a ferida aberta, enquanto a racionalização excessiva afasta o acesso às próprias necessidades emocionais, dificultando autoconhecimento e mudança real de comportamento.
Para entendermos esse tema, trouxemos o vídeo da psicóloga Carla Casagrande:
@psicarlacasagrande Quanto mais você tenta apagar o passado, mais você o conserva. Dizer que você vai apagar coisas e situações que te aconteceram é dizer que você não é você e isso não faz sentido algum! #psicologiaclinica #psicanálise #saudememtal #passado #dor #vazio #terapiaonline ♬ som original – Carla Casagrande
Qual é a diferença entre negação e ressignificação
Um ponto central nesse tema é distinguir a negação da ressignificação. Enquanto a negação tenta apagar ou minimizar o que foi vivido, a ressignificação busca dar um novo sentido à experiência, sem negar que ela existiu, permitindo integrar o passado à identidade atual de forma menos dolorosa.
Essa diferença influencia diretamente a forma como o passado continua atuando no presente, seja de maneira silenciosa e tensa, seja como parte integrada da própria história. Abaixo, alguns contrastes ajudam a visualizar o que muda quando se passa da negação para um processo mais consciente de ressignificação:
Quais são as principais diferenças entre negação e ressignificação
- Nega o fato: “Isso não foi tão grave”, “nem lembro direito disso”.
Ressignifica o fato: “Foi difícil, mas hoje entende-se melhor o que aconteceu”. - Evita memórias: foge de lugares, pessoas ou conversas que ativem lembranças.
Encara memórias com cuidado: fala do assunto em contextos seguros, com limites claros. - Congela a emoção: tenta não sentir, distrai-se o tempo todo, mantém-se sempre ocupado.
Acolhe a emoção: reconhece tristeza, raiva ou vergonha como reações compreensíveis. - Preserva a ferida: por trás da aparente indiferença, o tema continua sensível e reativo.
Integra a ferida à história: o passado deixa de comandar o presente, ainda que seja lembrado. - Foca em apagar: desejo de “começar do zero” como se nada tivesse ocorrido.
Foca em aprender: interesse em entender padrões, limites e necessidades a partir do que foi vivido.
Como desenvolver a aceitação do passado
A aceitação do passado não significa concordar com tudo o que aconteceu nem achar que certas situações foram adequadas. Trata-se de reconhecer que determinados fatos existiram, tiveram impacto e deixaram marcas, mesmo que não sejam agradáveis, permitindo que a dor seja reconhecida em vez de permanentemente evitada.
Quando essa aceitação começa a ser construída, o passado perde um pouco da função de ameaça constante e passa a ser visto como uma parte da trajetória, não como a totalidade dela. Esse processo envolve identificar o que ainda causa incômodo, perceber quais temas são evitados, nomear emoções abafadas e, quando possível, buscar apoio profissional para organizar essas experiências.
Quais exercícios práticos podem ajudar na aceitação
Alguns exercícios simples podem ajudar a iniciar um movimento de aceitação e ressignificação do passado, sem atropelar o próprio tempo emocional. Eles não são fórmulas rápidas, mas práticas que favorecem uma relação mais honesta com a própria história e apoiam o autoconhecimento.
- Nomear o que dói: reservar alguns minutos para escrever quais episódios do passado ainda causam desconforto e quais sentimentos aparecem (raiva, medo, culpa, vergonha, tristeza).
- Diferenciar fato e interpretação: em uma folha, separar o que de fato ocorreu das interpretações sobre si mesmo derivadas daquele evento (por exemplo: “errou em algo” x “é incapaz”).
- Observar gatilhos atuais: anotar situações do dia a dia que despertam reações intensas e investigar se há ligação com lembranças antigas.
- Praticar frases de reconhecimento: repetir mentalmente ou por escrito frases como: “isso aconteceu”, “isso me afetou”, “está tudo bem admitir que isso ainda me toca”.
- Criar um marco simbólico: escrever uma carta que nunca será enviada, desenhar uma linha do tempo ou guardar um objeto que represente o período vivido, reconhecendo o fim daquela fase.
- Procurar rede de apoio: identificar pessoas e espaços em que seja possível falar sobre o passado sem julgamentos, incluindo serviços de saúde mental quando necessário.
Querer apagar o passado, em muitos casos, é um sinal de que algo ainda precisa ser olhado com cuidado. Em vez de apenas afastar memórias incômodas, o caminho da ressignificação e da aceitação tende a permitir que a história pessoal seja encarada com mais clareza, sem que episódios difíceis definam, sozinhos, quem a pessoa é no presente.








