No extremo sul do litoral de São Paulo, onde a estrada acaba e a água toma conta, Cananéia guarda casarões coloniais, praias acessíveis só por barco e golfinhos que saltam em frente ao píer como se fizessem parte do comitê de boas-vindas.
A cidade que existia antes do Brasil ser oficialmente descoberto
Cartas náuticas europeias já registravam a região entre 1498 e 1502, antes mesmo de Pedro Álvares Cabral desembarcar na Bahia. Em 12 de agosto de 1531, a expedição de Martim Afonso de Souza aportou na Ilha do Bom Abrigo e encontrou um vilarejo estabelecido. Quem comandava o local era Cosme Fernandes, o Bacharel de Cananéia, um degredado português que vivia entre os indígenas desde o fim do século XV e tinha mais de 200 escravos sob seu domínio.
Cinco meses depois, Martim Afonso fundaria São Vicente, que ficou com o título oficial de primeira vila. A disputa entre as duas cidades nunca foi resolvida, mas o Governo do Estado de São Paulo reconhece Cananéia como o primeiro povoado do país. Por ali passava a linha imaginária do Tratado de Tordesilhas, dividindo o mundo entre Portugal e Espanha.

O que torna o Lagamar um patrimônio mundial?
Cananéia está no coração do Lagamar, um complexo estuarino-lagunar de 110 km entre Iguape (SP) e a baía de Paranaguá (PR). A região foi reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Natural da Humanidade em 1999 e integra a Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Manguezais, restingas, dunas e floresta convivem no mesmo trecho, formando um dos maiores berçários de vida marinha do Atlântico Sul.
Cerca de 400 botos-cinza vivem no estuário, segundo estimativas do Instituto de Pesquisas Cananéia (IPeC). O boto-cinza foi declarado patrimônio natural e símbolo do município. Famílias inteiras de golfinhos se alimentam nas águas calmas entre as ilhas, muitas vezes visíveis diretamente do píer central.
Cananéia, no litoral sul de São Paulo, reconhecida por muitos como a cidade mais antiga do Brasil. O vídeo é do canal ANTES DE PARTIR VIAGENS, focado em roteiros históricos e naturais, e detalha a arquitetura colonial preservada, a forte tradição da pesca e os passeios de barco pelo estuário:
Quais praias e ilhas valem o passeio de barco?
Todas as praias ficam em ilhas e são acessíveis apenas por embarcação. Os barcos saem do píer central e percorrem canais cercados de manguezais antes de alcançar a areia.
- Praia do Pereirinha: uma das mais procuradas, com água calma, areia clara e estrutura para caiaque e stand-up paddle. Fica na Ilha do Cardoso.
- Praia do Marujá: comunidade caiçara com a melhor infraestrutura da região. A Festa da Tainha, no meio do ano, reúne moradores e visitantes ao redor do peixe assado na brasa.
- Ilha do Bom Abrigo: abriga ruínas de antigos fornos de extração de óleo de baleia, farol histórico e piscinas naturais entre os costões.
- Baía dos Golfinhos: ponto de encontro dos botos-cinza, entre Ilha Comprida e Ilha do Cardoso. O avistamento é quase garantido.
- Praia do Cambriú: isolada e preservada, para quem busca silêncio absoluto e contato direto com a mata.

Ostras do mangue e caldeirada caiçara na beira do píer
Cananéia é reconhecida como capital gastronômica do Vale do Ribeira. Os frutos do mar chegam frescos todos os dias, direto dos barcos ancorados no centro.
- Ostra de Cananéia: cultivada nos manguezais desde a década de 1970, quando surgiu a primeira fazenda de ostras do Brasil. O sabor terroso do mangue diferencia a produção local.
- Caldeirada caiçara: peixe fresco cozido com legumes, tomate e coentro, servido nos restaurantes à beira-mar.
- Azul-marinho: prato tradicional feito com peixe e banana verde, herança direta da culinária dos povos caiçaras.
- Caranguejo do estuário: capturado nos manguezais e servido inteiro, com farinha e limão.
O que mais fazer em terra firme?
O centro histórico se percorre a pé em poucas horas, mas cada parada conta um pedaço da colonização.
A Igreja de São João Batista, erguida em 1577 com calcário de conchas e óleo de baleia, foi projetada como fortaleza, com muros largos, sem janelas e flecheiras nas paredes laterais. Na praça ao lado, dois canhões e argolões de bronze encravados na rocha ainda marcam o ponto onde as caravelas eram amarradas. O Museu Municipal guarda objetos arqueológicos, peças da cultura caiçara e um tubarão de 3,5 toneladas capturado por pescadores locais.
Para quem gosta de trilhas, as cachoeiras do Pitu, Mandira e Rio das Minas ficam na parte continental, acessíveis por estrada de terra. A Reserva Extrativista do Mandira, comunidade quilombola, oferece turismo de base comunitária com vivência no mangue e degustação de ostras colhidas na hora.
Quando ir e o que esperar do clima?
O clima é subtropical úmido. Cananéia é uma das regiões mais chuvosas de São Paulo, o que mantém a floresta sempre verde. O inverno tem dias mais secos e claros, ideais para observação de fauna.
Temperaturas aproximadas. Consulte a previsão atualizada no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar ao extremo sul do litoral paulista?
Cananéia fica a 270 km de São Paulo e a 250 km de Curitiba. O acesso é pela rodovia Régis Bittencourt (BR-116) até Pariquera-Açu, seguindo pela SP-226. A entrada na ilha se faz por ponte ao norte ou por balsa ao sul. Não há aeroporto comercial na cidade.
O primeiro capítulo da história brasileira ainda está vivo
Cananéia não tem a cenografia turística de outros destinos coloniais. O patrimônio aqui é habitado, as ruas de pedra levam a restaurantes de pescador e os golfinhos aparecem sem hora marcada. Entre uma ostra colhida no mangue e uma travessia de barco pela Baía dos Golfinhos, a cidade entrega um tipo de experiência que o litoral paulista tradicional não consegue oferecer.
Você precisa descer até o fim do litoral de São Paulo e conhecer Cananéia, o lugar onde a história do Brasil começou antes mesmo de alguém ter escrito a primeira linha sobre ela.









