O inventário fonético da língua portuguesa é rico em vogais nasais e sibilantes, mas carece de uma série de articulações que são comuns em outros troncos linguísticos. Para um falante nativo, a ausência desses sons no cotidiano torna a musculatura da face desacostumada a certas pressões e posicionamentos da língua, o que explica a dificuldade natural em atingir a pronúncia perfeita de idiomas como o inglês, o árabe ou o chinês.
Como o som do “th” inglês desafia a musculatura lingual?
As fricativas dentais, representadas pelo dígrafo “th” no inglês, são talvez os sons mais famosos por sua ausência no português. Elas exigem que a ponta da língua seja posicionada entre os dentes incisivos superiores e inferiores para permitir a passagem do ar. No português, os sons mais próximos são o “S” ou o “T”, mas nenhum deles utiliza essa barreira física dentária para criar a fricção necessária.
Existem duas variantes desse som: a surda, como em think, e a sonora, como em this. Como o nosso cérebro não possui uma “gaveta” fonética para esse posicionamento, tendemos a substituir o som por um “F” ou um “D”, o que altera a clareza da comunicação para um nativo. Dominar esse som é um exercício de reeducação muscular e percepção auditiva fina para o estudante brasileiro hoje.

Quais são as fricativas e guturais ausentes no nosso inventário?
Existem sons produzidos na parte de trás da garganta ou através de fricções intensas que o português simplesmente não utiliza em sua norma padrão. Esses sons são comuns em línguas germânicas, semíticas e eslavas, exigindo uma pressão de ar que muitas vezes soa como um “arranhado” para quem não está habituado. Confira a lista abaixo com os exemplos mais marcantes:
- O “ch” alemão (/x/): Som de um “R” muito forte e raspado no fundo da garganta, como na palavra Bach.
- O “Ayin” árabe (/ʕ/): Som produzido através da constrição da faringe, inexistente em qualquer língua latina atual.
- O “G” holandês (/ɣ/): Uma fricativa sonora que soa como um gurgarejo seco, muito distante do nosso “G” suave.
- O “H” inglês (/h/): Embora presente em dialetos como o mineiro ou fluminense (no “R” de rato), não é um fonema padrão em todas as posições.
Quais sons de outras famílias linguísticas são estranhos aos nossos ouvidos?
Além dos sons consonantais e vocálicos tradicionais, existem mecanismos de produção de som que o português ignora completamente. Essas técnicas envolvem desde cliques produzidos com a língua até variações de pressão interna que não dependem do ar dos pulmões para serem audíveis. Confira a lista abaixo com os fenômenos fonéticos mais exóticos para nós:
- Cliques (Línguas Khoisan): Sons produzidos através de estalos com a língua contra o palato ou dentes hoje.
- Ejetivas (Quechua/Amárico): Consoantes produzidas com um súbito aumento de pressão na glote, soando como pequenas explosões.
- Tons (Mandarim): Embora o som exista, a mudança de significado baseada apenas na altura da voz é estranha à nossa lógica.
- Consoantes Retroflexas (Hindi): Sons produzidos com a ponta da língua dobrada para trás, tocando o céu da boca atual.
De que maneira as vogais arredondadas francesas alteram a fala?
O francês e o alemão possuem vogais que combinam o posicionamento da língua de uma letra com o arredondamento dos lábios de outra. O som do “u” francês em tu ou do “ü” alemão exige que o falante posicione a língua para dizer “i”, mas faça um “biquinho” firme para dizer “u”. No português, as nossas vogais são puras: ou abertas, ou fechadas, ou nasais, mas nunca híbridas nesse nível de arredondamento.
Essa falta de “vowel rounding” frontal torna a fala do brasileiro no exterior muito característica, já que tendemos a simplificar esses sons para o “i” ou “u” comuns. A percepção desses sons exige que o estudante aprenda a dissociar o movimento labial do movimento da língua, uma tarefa de coordenação motora que não praticamos em nossa língua materna desde a infância.
Por que a distinção entre vogais curtas e longas é um obstáculo?
No português, a duração de uma vogal não muda o significado da palavra; nós apenas alongamos vogais para dar ênfase ou em contextos de exclamação. No entanto, em línguas como o inglês, o alemão e o latim clássico, a diferença entre uma vogal curta e uma longa é fonêmica. O par inglês ship (navio) e sheep (ovelha) ilustra perfeitamente como a duração e a tensão da vogal definem palavras completamente diferentes.
Como não temos essa regra gramatical, o ouvido brasileiro tende a ignorar a duração do som, focando apenas na qualidade da vogal. Isso gera confusões clássicas de pronúncia, onde o falante acredita estar dizendo uma coisa, mas o ouvinte nativo entende outra devido à falta de precisão no tempo de emissão do som. É uma barreira de percepção temporal rítmica muito sutil.
No vídeo abaixo do TikTok Lingux_tt, que conta com mais de 239 mil seguidores, ele cita os sons que não existem na língua portuguesa:
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Onde encontrar estudos técnicos sobre a fonética das línguas?
Para compreender a fundo como cada som é produzido e visualizá-los através de símbolos universais, é necessário consultar o Alfabeto Fonético Internacional. Essa ferramenta permite que linguistas e estudantes de idiomas identifiquem a posição exata da língua e o modo de articulação de qualquer som existente nas milhares de línguas faladas ao redor do globo terrestre hoje.
Para explorar o mapa completo dos sons humanos e ouvir exemplos de cada fonema, acesse o portal da International Phonetic Association para diretrizes técnicas e áudios explicativos. Ter acesso a esse conhecimento científico permite que você identifique exatamente o que está faltando na sua fala para atingir a fluência desejada em um novo idioma. O conhecimento da fonética é o alicerce para uma comunicação sem fronteiras.










