Chorar ao assistir comerciais é um comportamento que chama a atenção, mas que tem explicações ligadas ao funcionamento do cérebro e às relações sociais. Muitas campanhas publicitárias são produzidas para ativar memórias, sensações familiares e temas sensíveis, como afeto, despedidas, reencontros ou superação, e quando essas narrativas tocam experiências parecidas com as vividas por quem assiste, o choro pode surgir como resposta natural, acompanhado de uma sensação de alívio emocional e de reorganização interna.
O que é empatia e como ela influencia o choro em comerciais
A empatia é a capacidade de compreender e se conectar com o estado emocional de outra pessoa, “sentindo com ela”. Em comerciais, personagens que passam por situações de perda, conquista, acolhimento ou reconhecimento são construídos para que o público se identifique e projete suas próprias histórias nessas cenas, como traz a pesquisa “The Experience of Emotional Shifts in Narrative Persuasion“.
Esse processo é reforçado por escolhas visuais e sonoras planejadas: trilhas musicais suaves, closes no rosto dos personagens e diálogos simples alimentam o clima emocional. Pequenos detalhes, como um gesto de carinho ou a imagem de uma família reunida, funcionam como gatilhos de memórias, intensificando a empatia e o choro como expressão de conteúdos que já existiam na história de vida da pessoa.
- Personagens identificáveis: figuras que lembram familiares, amigos ou a própria pessoa aumentam a empatia.
- Situações universais: temas como saudade, amor, amizade e pertencimento costumam atingir um público amplo.
- Trilha sonora emocional: músicas lentas ou nostálgicas ajudam a intensificar o impacto da narrativa.
- Gestos simples: abraços, olhares ou pequenas atitudes solidárias podem ativar lembranças pessoais.

Como o espelhamento emocional faz o cérebro sentir junto
O chamado espelhamento emocional ocorre quando o cérebro reage às emoções vistas em outra pessoa como se estivesse vivendo aquela situação. Esse fenômeno, associado aos chamados “neurônios-espelho”, explica por que, ao ver um personagem chorar, sorrir ou se aliviar, o espectador pode experimentar sensações semelhantes, como um nó na garganta ou vontade de chorar.
Além da história, o modo como o rosto, a voz e o corpo do personagem são mostrados potencializa essa resposta interna. Expressões faciais intensas, pausas no diálogo e silêncios estratégicos elevam a percepção de emoção, fazendo com que o corpo reaja com mudanças na respiração, batimentos cardíacos e tensão muscular, culminando em lágrimas em um ambiente emocionalmente seguro.
- Identificação automática: o cérebro reconhece a emoção alheia e imita internamente essa experiência.
- Resposta corporal: alterações na respiração, nos batimentos cardíacos e na tensão muscular acompanham o espelhamento.
- Integração social: sentir junto com o outro reforça laços sociais, mesmo quando o “outro” é um personagem fictício.
- Segurança emocional: o comercial oferece um ambiente controlado para vivenciar essas emoções sem exposição direta.
Como a liberação de dopamina e outros neurotransmissores gera alívio ao chorar
O choro emocional está ligado a alterações químicas no organismo que ajudam a regular o estresse. Ao vivenciar uma cena com forte carga afetiva, o corpo ativa sistemas ligados à tensão e, em seguida, promove uma espécie de “reorganização” interna, envolvendo substâncias como dopamina, oxitocina e endorfinas, associadas a bem-estar, vínculo social e redução da dor.
Em um comercial comovente, esse ciclo ocorre em poucos segundos: a narrativa cria tensão, desperta ansiedade ou tristeza e logo oferece conforto, esperança ou reparação. Quando o choro aparece, ele marca o momento em que essa carga emocional começa a ser liberada, explicando a sensação de leveza, relaxamento e clareza mental depois das lágrimas.
- Ativação emocional: a história desperta sentimentos intensos, positivos ou negativos.
- Pico de tensão: o corpo entra em estado de alerta, com aumento da excitação fisiológica.
- Resposta em lágrimas: o choro funciona como saída física e emocional para essa tensão.
- Liberação de dopamina: a sensação de alívio e conforto está ligada a mudanças na atividade química do cérebro.
- Sensação de relaxamento: depois das lágrimas, muitas pessoas relatam sentir o corpo mais solto e a mente mais calma.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo do especialista Rafael Gratta:
@rafaelgrattap Quando choramos, outras pessoas falam, numa tentativa de ajudar: “calma, não chora!” Mas, na verdade, estudos mostram que chorar é algo natural e terapêutico, e que infelizmente é cada vez MENOS estimulado. Você também sente um alívio imenso, uma descarga de emoção guardada, ao chorar? Ou tem muito tempo que você não chora? Me conta aqui nos comentários! #terapia #saúdemental #ansiedade #estresse ♬ som original – Rafael Gratta
Por que o choro em comerciais pode ser visto como uma forma de regulação emocional
Para muitas pessoas, chorar em comerciais funciona como uma maneira indireta de lidar com conteúdos internos que são abafados ou ignorados no cotidiano. O contexto publicitário, curto e ficcional, oferece uma oportunidade discreta de entrar em contato com temas delicados, como perdas, medos e expectativas, sem precisar falar sobre eles de forma explícita com outras pessoas.
O alívio não vem apenas da história do anúncio, mas da possibilidade de liberar emoções próprias sob o pretexto de estar apenas reagindo a uma propaganda. Essa dinâmica ajuda a explicar por que alguns comerciais se tornam tão marcantes: eles se conectam a mecanismos de empatia, espelhamento emocional e regulação química do cérebro, transformando o choro em um recurso de descarga e de reorganização interna que auxilia a saúde emocional no dia a dia.








