A impaciência está cada vez mais presente no cotidiano, especialmente em ambientes marcados por prazos apertados, respostas instantâneas e excesso de estímulos. Na prática, algumas pessoas demonstram grande dificuldade em esperar, seja em filas, no trânsito, em relações afetivas ou na vida profissional, o que se relaciona a padrões do funcionamento do cérebro, processos de aprendizagem ao longo da vida e ao desenvolvimento (ou não) de habilidades de controle emocional e tolerância à frustração, como abordou a pesquisa “Delay of Gratification in Children”.
O que a psicologia aponta sobre a impaciência no dia a dia
Na psicologia, a impaciência é entendida como uma dificuldade em lidar com a espera, a incerteza e a frustração. Pessoas muito impacientes tendem a buscar respostas rápidas, evitar demoras e sentir irritação ou ansiedade quando algo não acontece na velocidade desejada, o que pode prejudicar decisões mais conscientes.
Alguns fatores comuns são estilos de criação em que tudo é resolvido rapidamente para a criança, experiências marcadas por instabilidade, ambientes competitivos e o consumo digital com gratificação quase instantânea. Em muitos casos, a impaciência acompanha traços como impulsividade, baixa tolerância à frustração e dificuldades em regular emoções intensas, como raiva e ansiedade.
Qual é o papel da dopamina na dificuldade de esperar
A dopamina é um neurotransmissor relacionado à recompensa, à motivação e à antecipação de prazer. Quando o cérebro “espera” por algo desejado, há uma liberação de dopamina que incentiva a busca por essa recompensa, e em ambientes cheios de estímulos rápidos o cérebro se acostuma a pequenas doses de gratificação frequente, tornando a espera mais desconfortável.
Esse funcionamento favorece a busca por gratificação imediata, dificultando dizer “não” a impulsos ou aceitar ganhos apenas no futuro. O equilíbrio entre sistemas de recompensa e áreas ligadas ao planejamento e ao autocontrole é fundamental; quando o sistema de recompensa fala mais alto, aumentam as decisões impulsivas, interrupções de tarefas e a dificuldade em suportar atrasos.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo do psicólogo Marcos Lacerda, do canal “Nós da Questão“:
Como o controle emocional ajuda a lidar com a impaciência
O controle emocional não significa “não sentir nada”, mas reconhecer as emoções, compreendê-las e escolher como agir diante delas. Pessoas que treinam essa habilidade identificam com mais clareza quando a irritação, a pressa ou a ansiedade começam a subir, abrindo espaço para respostas menos automáticas e mais alinhadas a objetivos de longo prazo.
Na prática, a impaciência costuma indicar desconforto emocional diante da espera: medo de perder oportunidades, sensação de falta de controle, preocupação com o julgamento alheio ou hábito de associar valor pessoal à rapidez com que tudo acontece. Quando há dificuldades importantes de autorregulação, o acompanhamento com um psicólogo pode auxiliar na identificação de gatilhos, reorganização da rotina e desenvolvimento de estratégias para suportar melhor o tempo das coisas.
Quais exercícios práticos ajudam a treinar a paciência no dia a dia
A paciência pode ser treinada como um músculo, com pequenos exercícios que reorganizam hábitos, reduzem a busca por recompensa imediata e fortalecem o autocontrole. Esses recursos são usados em contextos terapêuticos e de desenvolvimento pessoal, ajudando a construir uma relação mais saudável com o tempo e com a espera.
- 1. Treino da espera intencional: escolher situações simples, como não pegar o celular assim que uma notificação aparece, e atrasar a resposta por alguns minutos, observando as sensações físicas e emocionais.
- 2. Respiração focada: diante de filas, atrasos ou imprevistos, direcionar a atenção para a respiração por alguns ciclos, inspirando e expirando de forma mais lenta, para reduzir a ativação do corpo.
- 3. Planejamento de metas de longo prazo: dividir objetivos maiores em etapas e acompanhar o progresso, treinando a tolerância à demora entre esforço e resultado.
- 4. Atividades que exigem continuidade: incluir na rotina práticas como leitura prolongada, jardinagem, artesanato ou esportes que demandem repetição, favorecendo a convivência com processos mais lentos.
- 5. Observação sem agir de imediato: ao perceber vontade de interromper alguém, tomar decisões precipitadas ou abandonar uma tarefa, contar mentalmente até dez antes de agir, permitindo uma avaliação mais cuidadosa.

Como aplicar esse exercício no dia a dia?
Para quem deseja estruturar esse treino de forma ainda mais organizada, é possível montar uma pequena rotina semanal que favoreça a autobservação e a constância. Esses passos simples ajudam a acompanhar o progresso e a identificar os contextos em que a impaciência ainda é mais desafiadora.
- Definir um momento do dia para praticar respiração e atenção plena por 5 a 10 minutos.
- Escolher uma situação em que a espera será praticada de propósito, como não olhar o celular ao acordar por um período determinado.
- Registrar em um caderno ou aplicativo as situações em que a impaciência apareceu e quais estratégias foram usadas.
- Revisar, ao fim da semana, o que funcionou melhor e quais contextos ainda geram maior dificuldade.
A compreensão de como a impaciência se forma, do papel da dopamina na busca por gratificação imediata e da importância do controle emocional oferece caminhos concretos para mudanças. Ao incorporar exercícios simples na rotina e observar com atenção os próprios gatilhos, torna-se mais viável construir uma relação diferente com o tempo e com a espera, favorecendo decisões mais consistentes e relações menos marcadas pela pressa.









