Na tradição filosófica ocidental, o amor aparece como uma espécie de espelho que revela partes adormecidas de quem ama. Entre os pensadores que mais exploraram essa ideia está Platão, que associava o amor a uma procura constante por algo que falta, por uma parte de si que ainda não se conhece plenamente.
O que é o mito da outra metade de Platão
O mito da outra metade, muitas vezes chamado de mito dos andróginos, conta que, em tempos muito antigos, existiam seres humanos redondos, completos, com quatro braços, quatro pernas e duas faces. Esses seres eram tão poderosos que desafiaram os deuses, e, como resposta, Zeus os dividiu em duas partes, criando homens e mulheres separados.
A partir desse momento, cada metade passou a viver em busca de sua parte perdida, movida por uma saudade inexplicável. Essa narrativa pretende explicar por que as pessoas sentem um desejo intenso de união afetiva: a “alma gêmea platônica” simboliza a metade que traria sensação de plenitude, mas também aponta para a busca interior por completude e amadurecimento.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo da Professora Claudia Bernava:
@claudiabernava O mito da alma gêmea foi criado por Platão que em seu livro O Banquete. #abruxasincera #tiktokbrasil #platão #filosofia #mitodaalmagemea #almagemea ♬ som original – Professora Claudia Bernava
Por que Platão relaciona amor e falta
Para Platão, o amor, ou Eros, nasce da percepção de uma falta: ama-se aquilo que pareça completar, melhorar ou elevar quem ama. Não se deseja o que já se possui plenamente, por isso o amor funciona como espelho do que a pessoa ainda não é, mas sente que poderia ser, despertando um movimento contínuo de aperfeiçoamento.
Esse processo aparece com clareza quando alguém se sente atraído não só pela aparência, mas pelo caráter, pela forma de pensar ou pela sensibilidade do outro. Em termos platônicos, há um chamado para crescer; o amor é menos sobre posse e mais sobre transformação, indicando caminhos de mudança ética, afetiva e intelectual.
Como o mito da outra metade se conecta à autodescoberta
Quando se olha para o mito da outra metade a partir da autodescoberta, ele pode ser lido como metáfora para o processo de se tornar inteiro por dentro. Cada relação significativa funciona como um espelho psicológico que mostra medos, desejos, fragilidades e forças, incentivando uma revisão sincera da própria identidade.
Nessa perspectiva, o amor mostra aquilo que ainda não está desenvolvido e que pode florescer com o tempo. Para tornar essa dinâmica mais clara, é possível destacar alguns pontos centrais que ajudam a compreender como o relacionamento favorece o crescimento pessoal:
- A outra metade como metáfora da incompletude interior;
- O parceiro ou parceira como espelho de potencialidades ocultas;
- O relacionamento como espaço de amadurecimento e autoconhecimento;
- O amor como caminho para se tornar mais inteiro, e não apenas acompanhado.

O amor platônico é apenas idealização romântica
No uso cotidiano, “amor platônico” costuma significar um amor ideal, distante ou impossível. Na filosofia de Platão, porém, a ideia é mais ampla e ligada a um processo de elevação interior: o amor pode começar pela atração física, mas, orientado pela reflexão, é conduzido para qualidades mais profundas, como a busca pelo bem, pela verdade e pela beleza.
Nesse caminho, as relações não deixam de ser afetivas ou emocionais, mas ganham um papel formativo. Amar alguém pode incentivar estudos, mudanças de hábitos, escolhas profissionais e revisões éticas. Em linguagem platônica, o amor empurra a alma para além de si, em direção a uma versão mais lúcida e integrada da própria pessoa.
Quais são as etapas do amor como processo de autoconhecimento
O amor, entendido de forma platônica, pode ser visto como um processo em etapas, no qual cada fase revela algo novo sobre quem ama. Da primeira sensação de incompletude até a integração dessas descobertas na vida cotidiana, o sentimento amoroso vai se tornando uma espécie de caminho de autoconhecimento e de amadurecimento emocional.
- Primeiro, surge a sensação de falta ou incompletude.
- Depois, o encontro com alguém desperta admiração e desejo de proximidade.
- Em seguida, o relacionamento revela aspectos desconhecidos da própria personalidade.
- Por fim, a pessoa pode usar essa experiência para aprofundar o autoconhecimento e se tornar mais inteira.
O que o mito da outra metade ainda pode ensinar hoje
Mesmo em 2025, em um cenário de relações rápidas e muitas conexões digitais, a leitura platônica do amor continua presente em discursos sobre alma gêmea, parceiro ideal ou relação que “faz crescer”. A ideia central permanece: o amor é menos um ponto de chegada e mais um processo contínuo, que evidencia o que ainda não foi integrado na própria personalidade.
Desse modo, o mito da outra metade de Platão pode ser visto como um convite para observar as relações não apenas como fontes de companhia, mas como oportunidades de se conhecer melhor. Ao entender o amor como espelho do que ainda falta, cada encontro significativo passa a ter papel ativo na construção de uma vida mais consciente, ética e alinhada com a própria essência.








