Em momentos de tristeza intensa ou de preocupação constante, muitas pessoas sentem vontade de arrumar gavetas, organizar armários ou colocar papéis em ordem. Esse impulso costuma surgir de forma espontânea, quase automática, e chama atenção porque aparece justamente quando as emoções parecem mais confusas. A organização externa, nesse contexto, funciona como uma forma concreta de lidar com aquilo que não é tão fácil de nomear ou controlar internamente, atuando como um recurso simples de autocuidado emocional.
Por que arrumar gavetas pode aliviar a tristeza
A psicologia aponta que situações de perda, frustração ou incerteza costumam vir acompanhadas de uma sensação de falta de controle. Arrumar gavetas, prateleiras ou caixas permite resgatar uma parcela desse controle, ainda que em um espaço limitado. Organizar o ambiente vira uma espécie de resposta prática a um cenário interno que parece sem solução rápida ou clara, segundo pesquisas como “Physical order produces healthy choices, generosity, and conventionality, whereas disorder produces creativity”.
Além disso, a atenção concentrada em tarefas simples favorece uma espécie de pausa mental. Ao decidir o que fica e o que vai, qual objeto combina com qual espaço ou que tipo de categoria será criada, o cérebro se ocupa com decisões objetivas. Isso reduz a frequência com que pensamentos negativos circulam, funcionando como uma forma leve de regulação emocional e até de prática de atenção plena.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo da psicóloga Carolina Mercado (@carolinamercadopsi):
@carolinamercadopsi Uma gaveta bagunçada não é só sobre objetos fora do lugar. É o reflexo da mente ansiosa, cheia de pensamentos soltos, pesando em silêncio. Quando o ambiente fora está confuso, a cabeça também fica mais pesada. Mas, quando você organiza, algo muda dentro: abre espaço pra calma, pra clareza e pra ação. Às vezes, arrumar uma gaveta é muito mais do que arrumar coisas. É criar um respiro pra recomeçar mais leve. Se você quer meu acompanhamento para dar pequenos passos que podem mudar sua vida, inscreva-se no Desafio Adeus, Procrastinação! O link está na Bio.
♬ som original – Carolina Mercado
Como a organização se conecta às emoções
O ato de arrumar não se limita à estética ou à funcionalidade do espaço. Há um componente simbólico que se relaciona diretamente com o estado emocional. Ao colocar objetos em ordem, a pessoa transmite para si mesma a ideia de que ainda é capaz de estruturar algo, mesmo quando sentimentos parecem desorganizados, o que fortalece a sensação de autoeficácia.
Essa ligação entre organização física e emoção pode ser observada em diferentes situações do dia a dia, ajudando a traduzir em gestos concretos aquilo que, muitas vezes, é difícil transformar em palavras. Abaixo, alguns exemplos frequentes desse simbolismo que surge durante o processo de arrumação:
- Separar o que fica e o que sai: simboliza o esforço de distinguir o que ainda faz sentido na própria vida daquilo que já não contribui mais.
- Limpar o espaço: representa o desejo de “limpar” também pensamentos pesados ou lembranças incômodas.
- Colocar cada coisa em seu lugar: reflete a busca por encaixar experiências passadas em narrativas mais compreensíveis.
- Dobrar e alinhar: traduz a tentativa de dar forma e contorno ao que está difuso na mente.
- Abrir e fechar gavetas: pode simbolizar o movimento interno de acessar memórias e, depois, guardá-las de maneira mais organizada.
Qual é o simbolismo de colocar ordem fora para aliviar o caos interno
Quando alguém escolhe arrumar uma gaveta em um dia triste, esse gesto pode ser entendido como uma metáfora em ação. O espaço físico funciona como uma tela onde se projeta o que está acontecendo dentro. Jogar fora papéis velhos, por exemplo, costuma estar ligado à vontade de se desapegar de fases já encerradas e a abrir mão de expectativas que já não fazem sentido.
Ao mesmo tempo, guardar com cuidado itens afetivos indica a necessidade de preservar partes importantes da própria história. Em termos emocionais, isso sugere um movimento de aproximar o que é útil para o presente e afastar o que mantém a mente presa apenas ao passado. Assim, o gesto de organizar se torna uma linguagem silenciosa, que comunica necessidades emocionais sem recorrer a palavras.
Como se relacionam organização e emoção no dia a dia
A relação entre o que é feito no espaço físico e o que se passa internamente pode ser resumida em associações simbólicas simples. Ao abrir uma gaveta desorganizada, por exemplo, muitas pessoas relatam sensação de incômodo ou ansiedade, semelhante ao contato com emoções confusas, lembranças misturadas e sentimentos ainda não elaborados.
Da mesma forma, processos como classificar, descartar ou guardar memórias em locais específicos traduzem um esforço interno de reestruturação emocional. O quadro a seguir ilustra alguns desses paralelos entre organização e emoção, ajudando a tornar mais consciente aquilo que costuma acontecer de forma intuitiva:
- Abrir gavetas desorganizadas – contato com emoções confusas, lembranças misturadas e sentimentos ainda não elaborados.
- Classificar objetos por categoria – tentativa de nomear emoções, separar tipos de experiências e entender melhor o que se sente.
- Descartar o que não serve mais – simboliza deixar para trás vínculos, expectativas ou hábitos que perderam sentido.
- Guardar memórias em caixas específicas – representa o esforço de manter lembranças importantes em um lugar interno mais estável.
- Criar um espaço vazio na gaveta – traduz o desejo de abrir espaço para novas fases, relações e escolhas.
- Reorganizar a cada fase da vida – indica um processo contínuo de revisão emocional e de adaptação às mudanças.

Como usar esse hábito de forma consciente no autocuidado
Quando feito com atenção, arrumar gavetas pode servir como uma prática de cuidado emocional complementar a outras formas de apoio, como terapia, grupos de suporte ou técnicas de relaxamento. Uma estratégia é encarar o momento de organização como um ritual simples: escolher um pequeno espaço, definir um tempo limitado e focar apenas na tarefa presente.
Essa postura evita sobrecarga e reforça a sensação de avanço concreto, transformando a arrumação em um exercício de presença e gentileza consigo mesmo. A seguir, um passo a passo que ajuda a tornar esse hábito mais consciente e alinhado ao processo de autoconhecimento:
- Escolher um local específico: em vez de tentar organizar tudo, selecionar apenas uma gaveta ou prateleira.
- Observar o que o espaço representa: notar se ali se acumulam papéis antigos, objetos afetivos ou itens esquecidos.
- Separar em grupos: manter, doar, descartar e revisar depois, permitindo decisões graduais.
- Perceber emoções que surgem: identificar lembranças ou sensações associadas a cada objeto, sem julgamento.
- Finalizar com um gesto simples: fechar a gaveta organizada, reconhecendo o esforço feito naquele momento.
Esse tipo de atitude não substitui apoio profissional em situações mais intensas, mas pode funcionar como uma ferramenta adicional de autocuidado. Ao alinhar o gesto de organizar com a percepção das próprias emoções, a pessoa cria um caminho prático para lidar com o que sente. Dessa forma, cada gaveta arrumada deixa de ser apenas um espaço físico em ordem e passa a refletir, de maneira simbólica, uma etapa do processo de colocar também a vida interna em maior equilíbrio.








