Em muitas situações do dia a dia, sons repetitivos como mastigação, caneta clicando ou alguém batucando na mesa despertam um incômodo desproporcional em algumas pessoas. Em vez de simples irritação, surge uma sensação intensa de raiva, ansiedade ou necessidade urgente de sair daquele ambiente. Esse fenômeno tem nome: misofonia, um quadro ainda em estudo, mas cada vez mais reconhecido pela ciência como um problema real, ligado ao funcionamento do cérebro e não a “frescura” ou falta de tolerância.
O que é misofonia e por que a reação aos sons parece exagerada
A palavra misofonia significa, literalmente, “ódio ao som” e descreve uma reação emocional intensa desencadeada por gatilhos sonoros específicos, geralmente repetitivos e associados a outras pessoas. Não é qualquer ruído que provoca esse mal-estar; muitas vezes, sons ambientais fortes, como trânsito ou obras, não causam a mesma resposta que um simples mastigar ou fungar constante, como explica a pesquisa “Misophonia is associated with altered brain activity in the auditory cortex and salience network”.
Pesquisas em neurociência sugerem que, em quem tem misofonia, o cérebro faz uma ligação exagerada entre a área responsável pela audição e regiões ligadas à emoção e à ameaça, como a amígdala e o córtex insular. Isso faz com que barulhos banais sejam interpretados como algo potencialmente perigoso ou intolerável, disparando reações como taquicardia, tensão e forte necessidade de fuga.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo do Dr. Daniel Martins de Barros, que já conta com mais de 24 mil visualizações nas redes:
O que acontece no cérebro quando sentimos raiva de barulhos repetitivos
A raiva diante de sons repetitivos parece estar ligada a um tipo de “curto-circuito” entre a percepção auditiva e os sistemas de atenção e defesa do organismo. Estudos de imagem cerebral apontam que, em pessoas com misofonia, há ativação aumentada em áreas envolvidas com a detecção de relevância e com o processamento de nojo, irritação e ameaça social.
De forma simples, o cérebro passa a tratar aquele som como um sinal de invasão de espaço ou de falta de respeito, mesmo quando não há essa intenção. Isso explica por que muitos gatilhos sonoros estão ligados a pessoas próximas, como familiares ou colegas de trabalho, e por que quanto mais a pessoa foca no som, mais o ciclo se retroalimenta, tornando o incômodo ainda maior.
Quais são os gatilhos sonoros mais comuns na misofonia
Embora cada pessoa possa ter gatilhos específicos, alguns sons aparecem com frequência em relatos de misofonia, especialmente ruídos de boca, respiração e pequenos movimentos repetidos. O incômodo pode surgir tanto ao vivo quanto por gravações, a depender da sensibilidade individual e do contexto em que o som ocorre.
Entre os gatilhos sonoros mais comuns, destacam-se:
- Mastigação com a boca aberta ou barulho de língua e saliva;
- Chupar líquidos com canudo ou sorver bebidas quentes;
- Estalos de caneta, clicar de mouse ou batidas com o pé;
- Respiração pesada, fungadas constantes e pigarros repetidos;
- Estalos de dedos, roer unhas ou mexer em embalagens ruidosas;
- Relógios fazendo “tic-tac” ou pingos de torneira;
- Digitação intensa ou toques repetidos em superfícies.
Como lidar com a misofonia no dia a dia de forma prática
Apesar de não haver uma cura definitiva, existem estratégias que podem reduzir o impacto da misofonia na rotina. O objetivo é suavizar o incômodo, ampliar a sensação de controle e preservar relações, especialmente em situações comuns como refeições em família, estudos e ambientes de trabalho.
Algumas medidas práticas incluem o uso de som de fundo (música suave, ruído branco), fones com cancelamento de ruído em escritórios e transportes, e técnicas de respiração e relaxamento para reduzir a resposta de estresse. Também ajuda organizar os espaços, afastando-se de fontes previsíveis de ruído, e buscar psicoterapia, como terapia cognitivo-comportamental, para aprender a gerenciar pensamentos e reações fisiológicas.

Quando é importante buscar ajuda profissional para misofonia
Em alguns casos, a misofonia passa de um simples incômodo para uma condição que altera significativamente a rotina, afetando a convivência social, o desempenho no trabalho ou o rendimento escolar. Quando a raiva de barulhos repetitivos leva a isolamento, discussões frequentes ou sofrimento constante, a avaliação por profissionais de saúde mental é recomendada.
Psicólogos, psiquiatras e, em alguns casos, otorrinolaringologistas podem ajudar a descartar outras condições associadas, como transtornos de ansiedade, hiperacusia ou transtorno obsessivo-compulsivo. Reconhecer a misofonia como um fenômeno neurológico específico reduz a culpa e a ideia de que a reação é “sem sentido”, favorecendo uma relação mais equilibrada e saudável com os sons do cotidiano.









