Em situações simples do dia a dia, como enviar uma mensagem para a pessoa errada ou esquecer uma tarefa básica, muitas pessoas relatam sentir raiva imediata de si mesmas. Esse tipo de reação costuma ser rápido, intenso e muitas vezes desproporcional ao tamanho do erro, pois a mente transforma o episódio em sinal de incompetência, descuido ou até de falta de valor pessoal, em vez de tratá-lo como algo corriqueiro e humano.
Por que sentimos raiva quando erramos algo bobo
A raiva após um erro simples costuma funcionar como um alerta interno: o cérebro entende que algo saiu fora do esperado e reage com tensão. Em cenários de perfeccionismo, esse alarme é amplificado e a pessoa passa a questionar sua capacidade, gerando pensamentos rígidos como “não posso errar isso” ou “qualquer um faria melhor”, como traz a pesquisa “ERP components on reaction errors and their functional significance: a tutorial”.
Outro fator importante é a forma como se aprendeu a lidar com falhas ao longo da vida. Ambientes em que o erro é tratado com vergonha, bronca ou punição reforçam a ideia de que deslizes não são toleráveis, fazendo com que um equívoco pequeno desperte uma reação emocional intensa, como se estivesse em jogo algo muito maior do que o acontecimento em si.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo da psicóloga Tranquillini (@psi.tranquillini):
@psi.tranquillini Ao errar (inclusive pequenas coisas) você fica irritado? ➡️Você se xinga de nomes feios? ➡️Você sente vergonha de si mesmo? ➡️Você perde o interesse na atividade? ➡️Você sente altos níveis de ansiedade? Se esse for seu caso talvez seja um chamado para você tornar consciente o fato de você não ter tolerância para erros, provavelmente porque na sua infância seus cuidadores também não tiveram. 😰 Possivelmente, a consequência deles era bastante dura, como gritos, consequências desproporcionais, reprimenda física, zombaria e/ou xingamentos. A mensagem que ficou então é que ⚠️erros são inaceitáveis e altamente puníveis. ⚠️ e de brinde uma boa dose de ansiedade cavalar. Essa crença é muito tóxica para seu desenvolvimento e florescimento pessoal. ✨Ter medo de errar pode estar te impedindo de conquistar objetivos e se arriscar em novos desafios.✨ 🔑Se você se identificou com o post e foi vítima de um alto nível de cobrança na infância entenda que será uma jornada para curar essas crenças e gatilhos aprendidos. Será um dia após o outro onde você precisará treinar a autocompaixao, paciência e coragem mas é super possível, acredite 🥰 O primeiro passo é tomar consciência, e isso você já fez ❤️ #medodeerrar #ansiedade #desenvolvimentopessoal #mindsetfixo #psicologia ♬ som original – Psicóloga Tranquillini
Perfeccionismo e autocrítica exagerada influenciam esses sentimentos
O perfeccionismo costuma estar ligado à busca por um desempenho sem falhas e por padrões muito acima do razoável. Não se trata apenas de querer fazer o melhor possível, mas de enxergar o erro como algo quase inadmissível, o que faz com que qualquer tropeço, por menor que seja, seja visto como sinal de fracasso pessoal ou prova de incapacidade.
A autocrítica exagerada acompanha esse processo e transforma deslizes em ataques à própria identidade. Em vez de analisar o erro como parte natural do aprendizado, a pessoa passa a se avaliar com dureza, usando rótulos como “desatento”, “incapaz” ou “burro”, e isso pode gerar efeitos emocionais e físicos, como ansiedade, tensão muscular e cansaço constante. A tabela abaixo ilustra alguns exemplos de como erros leves podem se relacionar com as reações internas:
| Erro leve | Possíveis reações emocionais |
|---|---|
| Esquecer um compromisso simples | Raiva de si, vergonha, pensamentos de incapacidade |
| Enviar e-mail com pequeno erro de digitação | Constrangimento, preocupação excessiva com a imagem |
| Queimar uma receita fácil | Irritação, sensação de incompetência em tarefas domésticas |
| Errar um cálculo básico | Autocrítica intensa, medo de ser visto como pouco inteligente |
| Chegar alguns minutos atrasado | Culpa desproporcional, ruminação sobre o que os outros pensam |
Como lidar com a raiva de si mesmo por erros pequenos
Mesmo em contextos de alto perfeccionismo, é possível aprender maneiras diferentes de responder aos próprios deslizes. Um ponto central é diferenciar responsabilidade de autodesvalorização: assumir que houve um erro não exige que a pessoa se ataque internamente ou se trate com desprezo, mas sim que reconheça o fato e busque ajustes realistas.
Algumas estratégias simples podem ajudar nesse processo de mudança de olhar para si mesmo e na construção de uma relação mais saudável com os próprios erros, reduzindo a culpa exagerada e a autocobrança:
- Reconhecer que errar faz parte de qualquer processo de aprendizagem, inclusive em tarefas consideradas fáceis.
- Observar o tipo de linguagem interna usada após um erro e perceber quando surgem insultos ou generalizações sobre a própria capacidade.
- Substituir pensamentos extremos (“nada que faço dá certo”) por descrições mais objetivas do fato (“hoje esqueci esse detalhe importante”).
- Ajustar expectativas, avaliando se o padrão exigido realmente é realista para o contexto e para o momento de vida.
- Buscar apoio profissional quando a autocrítica intensa passa a afetar sono, trabalho, estudos ou relações pessoais.

Autocompaixão ajuda a reduzir a raiva nesses momentos
A prática da autocompaixão tem sido estudada como alternativa à autocrítica constante. Em vez de ignorar erros ou fingir que não aconteceram, essa abordagem sugere reconhecê-los com honestidade, mas sem hostilidade, tratando a própria experiência com o mesmo nível de respeito e acolhimento que seria oferecido a outra pessoa em situação semelhante.
Na prática, a autocompaixão envolve desenvolver uma postura mais gentil e realista diante de si mesmo, o que favorece o aprendizado em vez do castigo. Algumas atitudes possíveis incluem:
- Falar consigo mesmo em tom mais gentil, evitando xingamentos e rótulos.
- Lembrar que outras pessoas também cometem erros simples, reduzindo a sensação de isolamento.
- Reconhecer a emoção presente (raiva, vergonha, frustração) sem se julgar por senti-la.
- Questionar se a reação está proporcional ao tamanho do erro cometido.
- Propor uma pequena ação de reparo ou aprendizado, em vez de permanecer apenas na culpa e na ruminação.
Quando o perfeccionismo e a autocrítica exagerada começam a ser substituídos por uma postura mais compreensiva, a raiva diante de erros bobos tende a perder intensidade. O erro continua existindo e a responsabilidade por corrigi-lo permanece, mas o processo se torna menos marcado por ataques pessoais e mais voltado para o ajuste, o crescimento e o fortalecimento da autoestima ao longo do tempo.










