Os navegadores portugueses que chegaram em 1420 encontraram a ilha tão coberta de árvores que a batizaram de Madeira. Seis séculos depois, boa parte dessa floresta ainda está de pé, protegida pela UNESCO, e a ilha continua surpreendendo quem desembarca no Funchal à procura de natureza, gastronomia e paisagens que não cabem em cartão-postal, é diferenciado e lembra um paraíso do éden.
A floresta que sobreviveu às glaciações
A Laurissilva da Madeira é o maior remanescente de floresta de loureiros do planeta. Com cerca de 15.000 hectares, ela ocupa 20% da ilha e é considerada 90% floresta primária. Suas origens remontam ao período Terciário, quando esse tipo de vegetação cobria o sul da Europa. As glaciações eliminaram a floresta do continente, mas ela resistiu nos arquipélagos atlânticos.
Reconhecida como Património Natural da Humanidade desde 1999, a Laurissilva abriga espécies endêmicas como o pombo-trocaz, a dedaleira-da-madeira e líquenes que indicam ausência total de poluição. Caminhar por dentro dessa mata é voltar milhões de anos no tempo, com o bônus de trilhas bem sinalizadas.

O que são as levadas e por que todo viajante faz pelo menos uma?
As levadas são canais de irrigação escavados nas montanhas há mais de 400 anos para transportar água do norte chuvoso ao sul mais seco. Ao lado desses canais, passarelas estreitas se transformaram em trilhas que somam mais de 2.000 km pela ilha. São percursos com desnível suave, acessíveis a diferentes níveis de preparo físico.
- Levada do Caldeirão Verde: 13 km (ida e volta), passa por túneis escavados na rocha e termina numa lagoa verde aos pés de uma cascata.
- Levada das 25 Fontes: percurso moderado até uma lagoa alimentada por 25 nascentes naturais entre musgos e fetos gigantes.
- Levada dos Balcões: apenas 1,5 km para cada lado, ideal para iniciantes, com mirante sobre o vale da Ribeira do Faial.
- Vereda do Fanal: atravessa uma das partes mais antigas da Laurissilva, com loureiros centenários envolvidos em névoa.
A Ilha da Madeira é um território ultramarino de Portugal que oferece um cenário diversificado entre montanhas imponentes e praias vulcânicas. O vídeo do canal Douglas Andreolla apresenta um roteiro de 4 dias, ideal para quem quer otimizar o tempo e conhecer os principais pontos turísticos:
Picos, penhascos e mirantes que tiram o fôlego
A Madeira não é só floresta. A cordilheira central ultrapassa os 1.800 m de altitude, e a costa recortada oferece mirantes de vertigo.
- Pico Ruivo: ponto mais alto da ilha (1.862 m), acessível apenas por trilha. A vereda que o liga ao Pico do Areeiro tem 7 km de paisagens acima das nuvens.
- Pico do Areeiro: terceiro mais alto (1.818 m), com acesso de carro até o mirante no topo.
- Cabo Girão: o penhasco marítimo mais alto da Europa, com 580 m. Uma plataforma de vidro suspensa (skywalk) permite ver o oceano diretamente sob os pés.
- Ponta de São Lourenço: extremo leste da ilha, paisagem árida e rochosa que contrasta com o verde do restante, com trilhas e mirantes sobre o Atlântico.
Espetada no pau de louro e poncha ao pôr do sol
A gastronomia madeirense tem personalidade própria. Os ingredientes vêm do mar profundo, da terra vulcânica e de tradições que cruzam séculos.
- Espetada madeirense: pedaços generosos de carne bovina grelhados em espeto de pau de louro, temperados só com sal e alho. O loureiro da Laurissilva empresta aroma defumado à carne.
- Bolo do caco: pão achatado feito com farinha e batata-doce, servido quente com manteiga de alho. Funciona como acompanhamento ou como base do prego (sanduíche de bife).
- Peixe-espada preto: pescado nas águas profundas ao redor da ilha, servido com banana e molho de maracujá numa combinação doce-salgada típica.
- Poncha: bebida tradicional dos pescadores de Câmara de Lobos, feita com aguardente de cana, mel e limão. Versões com maracujá e tangerina são igualmente populares.
- Vinho Madeira: fortificado e envelhecido em sótãos quentes, ao contrário de outros vinhos. As castas nobres incluem Sercial, Boal, Verdelho e Malvasia.

Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
A Madeira tem um dos climas mais amenos da Europa. As temperaturas variam pouco ao longo do ano no litoral, mas nas montanhas o cenário muda: nevoeiro, vento e até neve nos picos mais altos durante o inverno.
Temperaturas aproximadas para o Funchal com base no IPMA. Nas montanhas, as temperaturas podem ser 10 °C mais baixas.

Como chegar à ilha e se deslocar por ela?
O Aeroporto Internacional da Madeira Cristiano Ronaldo, em Santa Cruz, recebe voos diretos de Lisboa, Porto e de várias capitais europeias. Saindo de Lisboa, o voo dura cerca de 1h40. Alugar carro é a forma mais prática de explorar a ilha, já que muitas atrações ficam em estradas secundárias e a malha rodoviária é bem pavimentada.
A Madeira tem apenas 57 km de comprimento e 22 km de largura, mas a topografia montanhosa faz com que os deslocamentos levem mais tempo do que a distância sugere. Um mínimo de cinco dias permite conhecer os principais pontos sem correria.
Atravesse o Atlântico e perca-se na ilha verde
Poucas ilhas reúnem uma floresta pré-histórica protegida pela UNESCO, o penhasco mais alto da Europa e uma gastronomia que tempera carne com loureiro milenar, tudo num território menor que muitos municípios brasileiros. A Madeira condensa natureza, história e sabor numa escala que surpreende a cada curva da estrada.
Você precisa cruzar o Atlântico e sentir por que os portugueses, ao avistar tanta mata verde em 1420, só conseguiram chamá-la de Madeira.










