O dialeto vêneto ainda ecoa nas calçadas de Monte Belo do Sul, uma vila de colonização 100% italiana encravada a 618 metros de altitude no Rio Grande do Sul. A “pequena Itália” produz 16 toneladas de uva por habitante ao ano e guarda vinícolas familiares onde o visitante prova rótulos que não chegam às prateleiras de capitais.
Uma colônia italiana que o tempo preservou na serra
Em 1877, 416 famílias vindas de nove províncias italianas subiram a serra e fundaram a comunidade que daria origem a Monte Belo do Sul. Passaram por ali imigrantes de Udine, Veneza, Vicenza, Treviso e Bérgamo, entre outras cidades. A herança permanece viva nos capitéis floridos à beira das estradas rurais, nas capelas com santos esculpidos em madeira e no sotaque carregado dos moradores mais velhos.
O município mantém um pacto de irmandade, o Gemellaggio, com a cidade de Schiavon, na província de Vicenza. A troca vai além do simbólico: delegações se visitam, famílias hospedam italianos em suas casas e Schiavon batizou uma de suas ruas com o nome do município gaúcho.

O que visitar em Monte Belo do Sul além das vinícolas?
A cidade surpreende quem espera apenas degustação. Algumas atrações ficam a minutos do centro, e o ritmo tranquilo permite explorar tudo a pé ou de bicicleta.
- Igreja Matriz São Francisco de Assis: suas torres dominam a paisagem e são avistadas de vários pontos da região. Fica em frente à Praça Padre José Ferlin, ponto de encontro da comunidade.
- Tanoaria Mesacaza: três gerações de tanoeiros fabricam e restauram barris de madeira nativa. A arte da tanoaria está em extinção no Brasil, e Monte Belo preserva duas oficinas ativas. Visitas por agendamento.
- Mirante Dal Castel: vista panorâmica dos parreirais e do Vale do Rio das Antas, ideal para o fim de tarde.
- Cave Brandalise: castelo construído em pedra que funciona como cartão postal na entrada da cidade e serve refeições nos fins de semana.
- Senzafine Lavandas: campo de lavandas no centro, aberto de quinta a domingo.
A alma italiana da Serra Gaúcha revela-se em costumes preservados e vistas deslumbrantes do topo dos morros. O vídeo é do canal Diogo Elzinga, referência com mais de 1 milhão de inscritos, e apresenta o Talian, o Polentaço e as tradições de Monte Belo do Sul:
Vinícolas familiares com selo de origem controlada
Monte Belo do Sul recebeu em 2013 a Indicação de Procedência (IP) Monte Belo, registrada pelo INPI com apoio da Embrapa Uva e Vinho. O diferencial: todas as vinícolas certificadas são familiares e de pequeno porte. A região usa até uma levedura autóctone, selecionada das próprias uvas locais, para dar identidade sensorial aos rótulos.
Entre as vinícolas abertas à visitação estão Calza, Faé, Famiglia Tasca, Angheben e Faccin. A maioria pede agendamento prévio, e o atendimento costuma ser feito pelos próprios donos. Prove o espumante pelo método tradicional, com corte exclusivo de Riesling Itálico, Pinot Noir e Chardonnay.
Onde comer na capital per capita da uva?
A gastronomia local é farta, colonial e ligada à terra. Os restaurantes de Monte Belo ganharam destaque no Prêmio Revista Sabores do Sul 2022 em duas categorias.
- Francesco Trattoria: cozinha italiana sofisticada em casarão de 1938. O tortino di polenta é criação da casa.
- Nonna Metilde: comida colonial servida em ambiente familiar, com massas cortadas à faca e galeto.
- Beco Café: cafés especiais nos fundos de uma galeria no centro, inaugurado em 2024.
- Menarosto: prato típico de carnes em espeto giratório, servido em eventos comunitários com polenta brustolada e radicci.

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Quando o clima favorece o enoturismo na serra?
O clima temperado de altitude marca bem as estações. O inverno seco é a época preferida para degustações, enquanto o verão aquece os parreirais e traz chuvas de fim de tarde.
Temperaturas aproximadas. Consulte a previsão atualizada no Climatempo.

Como chegar a Monte Belo do Sul saindo de Porto Alegre?
Monte Belo do Sul fica a 121 km de Porto Alegre. O acesso mais comum é via Bento Gonçalves, pela RS-444, que corta o Vale dos Vinhedos. O aeroporto mais próximo é o Hugo Cantergiani, em Caxias do Sul, a cerca de 50 km. Estradas principais são pavimentadas, mas alguns caminhos rurais até vinícolas podem ser de terra.
A vila onde cada família cultiva sua videira
Monte Belo do Sul condensa em 70 km² o que a Serra Gaúcha tem de mais autêntico: vinícolas onde o dono serve a taça, tanoeiros que moldam barris à mão e uma comunidade que ainda fala o dialeto dos avós. Tudo isso a pouco mais de uma hora de Porto Alegre.
Você precisa subir essa serra e brindar com um espumante que só existe ali, na cidade onde a uva é mais do que fruto, é sobrenome de família.










