A sociedade contemporânea convive diariamente com a ideia de que o bem-estar está diretamente ligado ao consumo. Promoções, lançamentos e tendências criam a sensação de que sempre falta algo para completar a vida, e, nesse cenário, ganha destaque o pensamento de Zygmunt Bauman, para quem a relação entre consumo e felicidade se tornou um dos traços centrais do mundo atual, especialmente a partir da expansão do mercado global, da cultura de massa e, mais recentemente, das redes sociais digitais, que intensificam a comparação e a busca por visibilidade.
O que é a sociedade de consumo segundo Zygmunt Bauman
A expressão sociedade de consumo, para Bauman, não se limita ao ato de comprar produtos. Trata-se de um modelo de organização social em que quase tudo se transforma em mercadoria: tempo, atenção, relacionamentos e até a própria imagem pessoal online, convertida em capital simbólico e econômico.
Nesse modelo, o consumo deixa de ser um meio para suprir necessidades e passa a ser um fim em si mesmo, associado à promessa de satisfação e reconhecimento. O prazer é real, mas brevíssimo, perpetuando um ciclo de desejo e frustração que alimenta o capitalismo de plataforma e reforça identidades baseadas em marcas, objetos e experiências pagas.
Para aprofundarmos no tema, trouxemos o vídeo de Mateus Salvadori, doutor em filosofia:
@mateus.salvadori Bauman, a sociedade atual e as relações superficiais #bauman #zygmuntbauman #filosofia #relacoes #relacionamentos #fypシ ♬ Stories 2 – Danilo Stankovic
Como a modernidade líquida influencia consumo e felicidade
A modernidade líquida, conceito central da obra de Bauman, descreve um mundo em que instituições, relações e projetos se tornaram instáveis. Em vez de vínculos firmes, predominam conexões frágeis e temporárias, intensificadas por interações rápidas em aplicativos, trabalhos flexíveis e identidades em constante edição.
Nesse ambiente de fluidez e incerteza, a busca por conforto imediato muitas vezes é direcionada ao consumo de produtos, serviços e experiências. Eles são apresentados como soluções rápidas para angústias e inseguranças, prometendo pertencimento, alívio emocional e visibilidade social, mas sem modificar as bases estruturais da instabilidade e da solidão.
A busca de felicidade está presa às compras ou há alternativas
O pensamento de Bauman sugere que a chamada felicidade no consumo é, em grande parte, uma promessa frágil e continuamente adiada. A expectativa intensa antes da compra contrasta com o desgaste emocional posterior, quando o objeto se torna comum, gerando sensação de insuficiência permanente e incentivo ao descarte rápido.
Para ilustrar essa dinâmica, é possível observar alguns padrões frequentes na vida diária, especialmente em ambientes marcados por publicidade intensa, influenciadores digitais e consumo ostentatório. Esses exemplos ajudam a entender como o desejo é constantemente reacendido e como a comparação social aumenta o sentimento de fracasso.
- A espera por um lançamento gera forte expectativa, maior do que o prazer duradouro após a compra.
- Objetos substituídos rapidamente são descartados mesmo em bom estado, sinalizando que o valor principal está na novidade.
- A comparação constante com o consumo de outras pessoas amplia a sensação de insuficiência e fracasso pessoal.
Diante disso, a obra de Bauman destaca caminhos alternativos para a construção de um bem-estar mais estável. Tais caminhos passam por práticas menos dependentes do mercado, como o fortalecimento de vínculos pessoais, o engajamento comunitário e o investimento em autoconhecimento, que tendem a gerar um sentido de continuidade, propósito e responsabilidade compartilhada.
- Fortalecimento de vínculos pessoais: amizades, relações familiares e redes de apoio.
- Atividades colaborativas: trabalho em grupo, participação em projetos sociais e comunitários.
- Desenvolvimento interno: estudo, reflexão, meditação e outras formas de autoconhecimento.

Quem foi Zygmunt Bauman e qual é seu legado intelectual
Zygmunt Bauman nasceu em 1925, na cidade de Poznań, na Polônia, e viveu acontecimentos marcantes do século XX, como o avanço do nazismo e o deslocamento forçado de populações europeias. Após períodos de perseguição e exílio, estabeleceu-se no Reino Unido, onde se tornou professor da Universidade de Leeds e desenvolveu uma reflexão crítica sobre modernidade, poder, consumo e desigualdade.
Ao longo de décadas, publicou dezenas de livros, entre eles obras amplamente conhecidas, como Modernidade líquida, Amor líquido e Vida líquida. Bauman morreu em 2017, em Leeds, deixando análises que seguem atuais em debates sobre redes sociais, cultura digital, novas formas de trabalho, subjetividade e saúde mental, sobretudo ao criticar a transformação de pessoas em meros consumidores em um mundo de ofertas abundantes e vínculos frágeis.









