{"id":242444,"date":"2026-05-15T06:22:51","date_gmt":"2026-05-15T09:22:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/?p=242444"},"modified":"2026-05-15T06:22:53","modified_gmt":"2026-05-15T09:22:53","slug":"a-psicologia-explica-por-que-criancas-dos-anos-60-e-70-se-tornaram-emocionalmente-mais-fortes-nao-por-melhor-criacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/a-psicologia-explica-por-que-criancas-dos-anos-60-e-70-se-tornaram-emocionalmente-mais-fortes-nao-por-melhor-criacao\/","title":{"rendered":"A psicologia explica por que crian\u00e7as dos anos 60 e 70 se tornaram emocionalmente mais fortes, e n\u00e3o foi por melhor cria\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Quem cresceu nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970 lembra de uma rotina que parece imposs\u00edvel hoje. Crian\u00e7as saiam para a rua de manh\u00e3 e s\u00f3 voltavam quando a m\u00e3e gritava da janela que o jantar estava pronto. Resolviam brigas entre si sem interven\u00e7\u00e3o adulta, ca\u00edam do p\u00e9 da goiabeira e voltavam para casa sozinhas, andavam quil\u00f4metros at\u00e9 a escola e passavam tardes inteiras sem nenhum adulto saber exatamente onde estavam. Por d\u00e9cadas, isso foi descrito como neglig\u00eancia. Mas a psicologia atual chegou a uma conclus\u00e3o bem diferente: aquelas crian\u00e7as podem ter aprendido, sem ningu\u00e9m saber, a habilidade emocional mais valiosa do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que diz o estudo que mudou a discuss\u00e3o<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.frontiersin.org\/journals\/psychology\/articles\/10.3389\/fpsyg.2022.872981\/full\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Uma meta-an\u00e1lise publicada na revista cient\u00edfica Development and Psychopathology, da Cambridge University Press, juntou 84 pesquisas separadas envolvendo dezenas de milhares de adultos<\/a>. Liderada pelo pesquisador Qi Zhang, da Universidade de Wisconsin-Madison, em parceria com Wenyuan Ji, da Universidade Normal de Handong, o estudo investigou uma quest\u00e3o espec\u00edfica: qual a rela\u00e7\u00e3o entre o n\u00edvel de superprote\u00e7\u00e3o parental e os sintomas de ansiedade e depress\u00e3o na vida adulta?<\/p>\n\n\n\n<p>A descoberta foi consistente e estatisticamente robusta: quanto maior a interfer\u00eancia dos pais na vida cotidiana da crian\u00e7a, maior a probabilidade de aparecerem transtornos de ansiedade, depress\u00e3o e dificuldades de regula\u00e7\u00e3o emocional na idade adulta. O padr\u00e3o se repetiu em diferentes culturas, em diferentes faixas econ\u00f4micas e em pa\u00edses t\u00e3o variados quanto Estados Unidos, Europa, \u00c1sia e Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\ud83d\udccc Leia tamb\u00e9m: <\/strong><em><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/estudos-mostram-que-criancas-que-brincavam-na-rua-sem-regras-estruturadas-com-frequencia-estavam-construindo-o-que-hoje-e-conhecido-como-resiliencia-emocional\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Estudos mostram que crian\u00e7as que brincavam na rua sem regras estruturadas estavam construindo o que hoje \u00e9 conhecido como resili\u00eancia emocional<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A habilidade que aquelas crian\u00e7as desenvolveram sem perceber<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"628\" src=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Gemini_Generated_Image_4q1bb94q1bb94q1b-1.jpg\" alt=\"Duas crian\u00e7as sentadas no meio-fio de uma rua, conversando e rindo sozinhas em uma tarde ensolarada\" class=\"wp-image-242446\" srcset=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Gemini_Generated_Image_4q1bb94q1bb94q1b-1.jpg 1200w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Gemini_Generated_Image_4q1bb94q1bb94q1b-1-300x157.jpg 300w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Gemini_Generated_Image_4q1bb94q1bb94q1b-1-768x402.jpg 768w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Gemini_Generated_Image_4q1bb94q1bb94q1b-1-750x393.jpg 750w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Gemini_Generated_Image_4q1bb94q1bb94q1b-1-1140x597.jpg 1140w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Resolver pequenos conflitos sozinho \u00e9 o exerc\u00edcio que constr\u00f3i a capacidade emocional de toda uma vida. (Foto: Freepik)\n<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Quando uma crian\u00e7a precisa decidir sozinha o que fazer com o pr\u00f3prio t\u00e9dio, resolver um conflito com o colega sem chamar a m\u00e3e, escolher entre dois caminhos para voltar de bicicleta para casa ou negociar regras de um jogo de rua, ela est\u00e1 exercitando algo que a psicologia hoje chama de autorregula\u00e7\u00e3o. \u00c9 a capacidade de identificar uma emo\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel, suportar a frustra\u00e7\u00e3o e construir uma resposta sem depender de outro para resolver.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa habilidade n\u00e3o se ensina na teoria. S\u00f3 aparece quando a crian\u00e7a tem espa\u00e7o para errar pequeno enquanto ainda h\u00e1 tempo de se recompor sozinha. As gera\u00e7\u00f5es que viveram com mais aut\u00f4nomia infantil construiram esse m\u00fasculo cedo \u2014 e ele os acompanhou pela vida toda.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que a ci\u00eancia chama de hiperprote\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Hiperprote\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 amor demais. \u00c9 interfer\u00eancia ad acima do necess\u00e1rio. \u00c9 o pai que liga para o professor para questionar uma nota baixa, a m\u00e3e que resolve discuss\u00f5es entre o filho e os colegas da escola, ou o adulto que age como treinador de cada movimento da crian\u00e7a no parquinho. O recado que a crian\u00e7a recebe, em todos esses casos, \u00e9 sutil mas constante: as dificuldades comuns da vida est\u00e3o acima da minha capacidade de lidar sozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica publicada em 2022 na revista Frontiers in Psychology analisou 38 estudos diferentes sobre paternidade superprotetora e chegou \u00e0 mesma conclus\u00e3o em escala internacional. O autor principal, Sima L. Vajdal, da Western Norway University of Applied Sciences, concluiu que mesmo a interven\u00e7\u00e3o parental ocasional, quando excessiva, pode aprofundar a ansiedade infantil em vez de proteg\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O paradoxo das gera\u00e7\u00f5es<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Aqui aparece o paradoxo central. Os pais dos anos 60 e 70 n\u00e3o eram propositalmente &#8220;educadores emocionais&#8221;. Muitos eram distantes, alguns descuidados, outros simplesmente ocupados demais com a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia para acompanhar cada passo das crian\u00e7as. O que pode parecer uma falha de cria\u00e7\u00e3o foi, sem querer, exatamente o espa\u00e7o necess\u00e1rio para que a crian\u00e7a desenvolvesse autonomia emocional.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 os pais de hoje, muito mais informados e atentos, frequentemente fazem o oposto: monitoram demais, intervem demais, protegem demais. E o resultado, em escala epidemiol\u00f3gica, \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o com \u00edndices recordes de ansiedade, depress\u00e3o e dificuldade de tolerar pequenas frustra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\ud83d\udccc Leia tamb\u00e9m: <\/strong><em><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/a-psicologia-diz-que-quem-cresceu-sendo-o-forte-da-familia-tambem-e-quem-menos-sabe-lidar-com-as-proprias-emocoes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A psicologia diz que quem cresceu sendo o forte da fam\u00edlia tamb\u00e9m \u00e9 quem menos sabe lidar com as pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>N\u00e3o \u00e9 elogio \u00e0 neglig\u00eancia, \u00e9 outra coisa<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Os pesquisadores fazem questao de marcar essa diferen\u00e7a com cuidado. O estudo n\u00e3o defende neglig\u00eancia, ausencia afetiva ou descaso \u2014 isso machuca crian\u00e7as em qualquer \u00e9poca, e tem efeitos devastadores comprovados. O que est\u00e1 sendo discutido \u00e9 outra coisa: a diferen\u00e7a entre estar presente como suporte e estar presente como gerente.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai que est\u00e1 dispon\u00edvel se a crian\u00e7a precisar mas n\u00e3o controla cada passo \u00e9 muito diferente do pai que est\u00e1 ausente. E a mae que assiste de longe enquanto o filho resolve uma desaven\u00e7a com o amiguinho \u00e9 muito diferente da que ignora completamente o conflito. A nuance \u00e9 sutil mas determinante.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que isso muda para os pais de hoje<\/strong><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"628\" src=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Gemini_Generated_Image_lfkixulfkixulfki-1.jpg\" alt=\"M\u00e3e observando o filho brincar sozinho no quintal atrav\u00e9s da janela da cozinha\" class=\"wp-image-242447\" srcset=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Gemini_Generated_Image_lfkixulfkixulfki-1.jpg 1200w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Gemini_Generated_Image_lfkixulfkixulfki-1-300x157.jpg 300w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Gemini_Generated_Image_lfkixulfkixulfki-1-768x402.jpg 768w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Gemini_Generated_Image_lfkixulfkixulfki-1-750x393.jpg 750w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Gemini_Generated_Image_lfkixulfkixulfki-1-1140x597.jpg 1140w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Estar dispon\u00edvel sem ser onipresente. A diferen\u00e7a entre cuidar e controlar pode ser o que define o adulto que essa crian\u00e7a vai se tornar. (Foto: Freepik)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Para quem est\u00e1 criando filhos agora, o estudo n\u00e3o sugere abandonar as crian\u00e7as \u00e0 pr\u00f3pria sorte \u2014 sugere recuar estrategicamente. Deixar que tropecem em problemas pequenos, que sintam t\u00e9dio sem solu\u00e7\u00e3o imediata, que negociem regras com colegas sem media\u00e7\u00e3o adulta, que vivam pequenas frustra\u00e7\u00f5es sem que algu\u00e9m corra para resolver.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas atitudes pr\u00e1ticas que os pesquisadores destacam:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>N\u00e3o resolver imediatamente cada conflito infantil <\/strong>\u2014 deixar a crian\u00e7a tentar primeiro.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Permitir t\u00e9dio sem oferecer entretenimento estruturado <\/strong>\u2014 o t\u00e9dio \u00e9 motor de criatividade.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Reduzir interven\u00e7\u00e3o em pequenos fracassos escolares <\/strong>\u2014 nota baixa \u00e9 oportunidade de aprendizado, n\u00e3o emerg\u00eancia.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Aumentar gradualmente a aut\u00f4nomia f\u00edsica <\/strong>\u2014 deixar a crian\u00e7a ir comprar p\u00e3o sozinha, andar de bicicleta na quadra, atravessar a rua acompanhada apenas dos olhos.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Estar dispon\u00edvel sem ser onipresente <\/strong>\u2014 a diferen\u00e7a est\u00e1 em como, n\u00e3o em quanto.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que a gera\u00e7\u00e3o de antes ensina sem perceber<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Quando algu\u00e9m que cresceu nos anos 60 ou 70 lembra com nostalgia daquelas tardes andando de bicicleta sem rumo, brigando com o irm\u00e3o por causa de uma figurinha ou voltando para casa com o joelho ralado, n\u00e3o est\u00e1 apenas reclamando que &#8220;antigamente era melhor&#8221;. Est\u00e1 descrevendo, sem saber, exatamente o tipo de experi\u00eancia que a ci\u00eancia hoje aponta como base de uma sa\u00fade emocional duradoura.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 sobre voltar a uma \u00e9poca de menos cuidado. \u00c9 sobre entender que cuidado n\u00e3o significa interfer\u00eancia, e que prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa controle. As crian\u00e7as dos anos 60 e 70 receberam um presente que n\u00e3o vinha embrulhado: a chance de descobrir, sozinhas, que eram capazes de se virar.<\/p>\n\n\n\n<p><em>As crian\u00e7as daquela \u00e9poca n\u00e3o foram melhores criadas. Foram melhor permitidas. E esse pode ter sido o maior favor que receberam dos pais sem que ningu\u00e9m soubesse.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem cresceu nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970 lembra de uma rotina que parece imposs\u00edvel hoje. Crian\u00e7as saiam para a rua de manh\u00e3 e s\u00f3 voltavam quando a m\u00e3e gritava da janela que o jantar estava pronto. 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