{"id":254385,"date":"2026-06-06T06:22:13","date_gmt":"2026-06-06T09:22:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/?p=254385"},"modified":"2026-06-06T06:22:36","modified_gmt":"2026-06-06T09:22:36","slug":"simone-de-beauvoir-frase-amor-liberdade-finitude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/simone-de-beauvoir-frase-amor-liberdade-finitude\/","title":{"rendered":"Frase do dia de Simone de Beauvoir: &#8220;Renunciar ao amor parecia-me t\u00e3o insensato como desinteressar-se da sa\u00fade porque acreditamos na eternidade&#8221;; a reflex\u00e3o da fil\u00f3sofa existencialista sobre amar mesmo sabendo que nada \u00e9 eterno"},"content":{"rendered":"\n<p>Poucos nomes uniram pensamento e vida de forma t\u00e3o intensa quanto <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Simone_de_Beauvoir\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Simone de Beauvoir<\/strong> <\/a>(1908-1986), a fil\u00f3sofa existencialista francesa que se tornou uma das vozes mais influentes do s\u00e9culo XX. Autora de obras como <em>O Segundo Sexo<\/em>, Beauvoir refletiu profundamente sobre liberdade, escolha e a forma como vivemos \u2014 e o amor ocupou um lugar central nessas reflex\u00f5es. Uma de suas frases sintetiza, com lucidez, a coragem de amar diante da finitude:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><strong>&#8220;Renunciar ao amor parecia-me t\u00e3o insensato como desinteressar-se da sa\u00fade porque acreditamos na eternidade.&#8221;<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A frase \u00e9 uma pequena obra de l\u00f3gica existencial. Beauvoir compara duas atitudes igualmente sem sentido: deixar de amar para n\u00e3o sofrer seria t\u00e3o absurdo quanto <strong>abandonar os cuidados com a pr\u00f3pria sa\u00fade s\u00f3 porque um dia vamos morrer de qualquer forma<\/strong>. Em ambos os casos, o medo do fim nos faria desistir, no presente, de algo que d\u00e1 valor \u00e0 vida.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que significa a reflex\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>A frase ataca diretamente um dos mecanismos de defesa mais comuns dos seres humanos: <strong>evitar o amor para evitar a dor<\/strong>. Quem j\u00e1 se machucou em uma rela\u00e7\u00e3o conhece a tenta\u00e7\u00e3o de fechar as portas, de se proteger, de concluir que &#8220;amar n\u00e3o compensa&#8221;. Beauvoir, com a precis\u00e3o de uma fil\u00f3sofa, mostra o absurdo dessa l\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, fiel ao pensamento existencialista, <strong>a vida ganha sentido pelo que escolhemos viver, n\u00e3o pela garantia de perman\u00eancia<\/strong>. Nada \u00e9 eterno \u2014 nem o amor, nem a sa\u00fade, nem a pr\u00f3pria vida. Mas usar essa transitoriedade como motivo para n\u00e3o viver \u00e9, segundo ela, um erro de racioc\u00ednio. A finitude n\u00e3o \u00e9 argumento contra o amor; \u00e9 justamente o que torna cada experi\u00eancia valiosa.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"714\" src=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Parisian_cafe_interior_1950s_202606061120-1280x714.jpeg\" alt=\"Frequentadora dos caf\u00e9s intelectuais de Paris, Beauvoir uniu vida, amor e filosofia em sua obra\" class=\"wp-image-254389\" srcset=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Parisian_cafe_interior_1950s_202606061120-1280x714.jpeg 1280w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Parisian_cafe_interior_1950s_202606061120-300x167.jpeg 300w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Parisian_cafe_interior_1950s_202606061120-768x429.jpeg 768w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Parisian_cafe_interior_1950s_202606061120-750x419.jpeg 750w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Parisian_cafe_interior_1950s_202606061120-1140x636.jpeg 1140w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Parisian_cafe_interior_1950s_202606061120.jpeg 1376w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Frequentadora dos caf\u00e9s intelectuais de Paris, Beauvoir uniu vida, amor e filosofia em sua obra<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O contexto por tr\u00e1s do pensamento<\/h2>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que Beauvoir pensava assim. Sua pr\u00f3pria vida foi marcada por uma rela\u00e7\u00e3o singular e duradoura com o fil\u00f3sofo Jean-Paul Sartre \u2014 uma parceria intelectual e amorosa que desafiava as conven\u00e7\u00f5es da \u00e9poca e que se baseava, justamente, na ideia de <strong>liberdade m\u00fatua<\/strong>. Para os dois, amar n\u00e3o significava aprisionar o outro nem renunciar a si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 um ponto central na filosofia de Beauvoir: o amor aut\u00eantico n\u00e3o \u00e9 fus\u00e3o nem depend\u00eancia, mas o <strong>encontro entre duas pessoas livres<\/strong>, cada uma mantendo sua individualidade. Amar, nessa vis\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 se anular pelo outro \u2014 \u00e9 escolher, livremente e a cada dia, estar com ele. E essa escolha s\u00f3 tem valor porque poderia ser diferente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que essa reflex\u00e3o continua t\u00e3o atual<\/h2>\n\n\n\n<p>Em uma \u00e9poca que muitas vezes trata os relacionamentos como descart\u00e1veis e em que o medo de se entregar parece cada vez mais comum, a frase de Beauvoir soa quase como um chamado \u00e0 coragem. Ela n\u00e3o promete que o amor n\u00e3o vai doer \u2014 ela reconhece que pode doer, que pode acabar, que nada \u00e9 garantido. <strong>E mesmo assim defende que vale a pena.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A reflex\u00e3o dialoga com qualquer pessoa que j\u00e1 hesitou diante de uma nova rela\u00e7\u00e3o por medo de sofrer, que j\u00e1 preferiu a seguran\u00e7a da solid\u00e3o ao risco da entrega. Beauvoir n\u00e3o nega o risco \u2014 ela apenas lembra que recusar a vida por medo de perd\u00ea-la \u00e9 a forma mais certa de n\u00e3o viv\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim, a li\u00e7\u00e3o que essa pensadora existencialista deixa \u00e9 t\u00e3o filos\u00f3fica quanto pr\u00e1tica: <strong>a transitoriedade das coisas n\u00e3o \u00e9 motivo para evit\u00e1-las, mas raz\u00e3o para viv\u00ea-las com mais intensidade<\/strong>. Amar sabendo que nada \u00e9 eterno n\u00e3o \u00e9 ingenuidade \u2014 \u00e9, talvez, a mais l\u00facida das escolhas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poucos nomes uniram pensamento e vida de forma t\u00e3o intensa quanto Simone de Beauvoir (1908-1986), a fil\u00f3sofa existencialista francesa que se tornou uma das vozes mais influentes do s\u00e9culo XX. 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