{"id":255501,"date":"2026-06-08T15:55:07","date_gmt":"2026-06-08T18:55:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/?p=255501"},"modified":"2026-06-08T15:57:42","modified_gmt":"2026-06-08T18:57:42","slug":"ceramica-pre-colonial-maranhao-mais-antiga-americas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/ceramica-pre-colonial-maranhao-mais-antiga-americas\/","title":{"rendered":"Cer\u00e2mica de 6.600 anos no Maranh\u00e3o est\u00e1 entre as mais antigas das Am\u00e9ricas, aponta estudo"},"content":{"rendered":"\n<p>No litoral do Maranh\u00e3o, entre as ba\u00edas de S\u00e3o Marcos e S\u00e3o Jos\u00e9, est\u00e1 guardado um dos cap\u00edtulos mais antigos da hist\u00f3ria das Am\u00e9ricas. <a href=\"https:\/\/www.mdpi.com\/2075-163X\/12\/10\/1302\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Um estudo publicado na revista cient\u00edfica <em>Minerals<\/em><\/a> analisou fragmentos de cer\u00e2mica de tr\u00eas s\u00edtios arqueol\u00f3gicos do Golf\u00e3o Maranhense e confirmou: ali se produziu cer\u00e2mica de forma cont\u00ednua por <strong>quase 7 mil anos<\/strong>, em uma das tradi\u00e7\u00f5es mais antigas do continente.<\/p>\n\n\n\n<p>Os artefatos v\u00eam de tr\u00eas sambaquis \u2014 s\u00edtios formados por ac\u00famulo de conchas e restos da vida cotidiana de povos antigos: <strong>Sambaqui do Bacanga<\/strong>, <strong>Sambaqui da Panaquatira<\/strong> (ambos na ilha de S\u00e3o Lu\u00eds) e <strong>Rabo de Porco<\/strong> (na regi\u00e3o do Itapecuru).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quase 7 mil anos de hist\u00f3ria<\/h2>\n\n\n\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o humana na regi\u00e3o come\u00e7ou h\u00e1 cerca de 9.500 anos, com povos ca\u00e7adores-coletores. A produ\u00e7\u00e3o de cer\u00e2mica veio depois, e em datas que impressionam (medidas em &#8220;anos AP&#8221;, ou antes do presente):<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table class=\"has-fixed-layout\"><thead><tr><th>S\u00edtio<\/th><th>Produ\u00e7\u00e3o de cer\u00e2mica come\u00e7ou<\/th><th>Fragmentos analisados<\/th><th>Temperante (m\u00e9dia)<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Sambaqui do Bacanga<\/td><td>h\u00e1 ~6.600 anos<\/td><td>17<\/td><td>4,23%<\/td><\/tr><tr><td>Sambaqui da Panaquatira<\/td><td>h\u00e1 ~5.700 anos<\/td><td>26<\/td><td>0,96%<\/td><\/tr><tr><td>Rabo de Porco<\/td><td>h\u00e1 ~4.870\u20134.410 anos<\/td><td>20<\/td><td>0,34%<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o do Bacanga se estendeu at\u00e9 por volta do s\u00e9culo XIV; a da Panaquatira, at\u00e9 a chegada dos europeus; e a do Rabo de Porco, at\u00e9 o s\u00e9culo XVII.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Cinco t\u00e9cnicas para &#8220;ler&#8221; um caco<\/h3>\n\n\n\n<p>Para investigar 63 fragmentos sem danific\u00e1-los, os pesquisadores combinaram cinco m\u00e9todos cient\u00edficos, v\u00e1rios deles nucleares: fluoresc\u00eancia de raios X (EDXRF), emiss\u00e3o de raios X induzida por part\u00edculas (PIXE), espectroscopia M\u00f6ssbauer, difra\u00e7\u00e3o de raios X (DRX) e radiografia computadorizada. Juntas, essas t\u00e9cnicas revelam a composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica da argila, a temperatura de queima e at\u00e9 a estrutura interna das pe\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"714\" src=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Infografico_ceramica_ancestral_M\u2026_202606082051-1280x714.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-255505\" srcset=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Infografico_ceramica_ancestral_M\u2026_202606082051-1280x714.jpeg 1280w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Infografico_ceramica_ancestral_M\u2026_202606082051-300x167.jpeg 300w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Infografico_ceramica_ancestral_M\u2026_202606082051-768x429.jpeg 768w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Infografico_ceramica_ancestral_M\u2026_202606082051-750x419.jpeg 750w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Infografico_ceramica_ancestral_M\u2026_202606082051-1140x636.jpeg 1140w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Infografico_ceramica_ancestral_M\u2026_202606082051.jpeg 1376w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Fogo entre 750 \u00b0C e 900 \u00b0C<\/h2>\n\n\n\n<p>Uma das descobertas centrais \u00e9 a temperatura de queima: entre <strong>750 \u00b0C e 900 \u00b0C<\/strong>, sempre em ambiente oxidante (com oxig\u00eanio). Como os cientistas chegaram a isso? Por dois marcadores:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Hematita:<\/strong> acima de 600 \u00b0C, esse \u00f3xido de ferro se forma e d\u00e1 \u00e0 cer\u00e2mica o tom avermelhado caracter\u00edstico.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Mica (muscovita):<\/strong> esse mineral &#8220;desaparece&#8221; acima de cerca de 900 \u00b0C. Sua presen\u00e7a ou aus\u00eancia funcionou como um term\u00f4metro do passado.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>As pe\u00e7as do Rabo de Porco, queimadas a cerca de 750 \u00b0C, mostraram um dom\u00ednio t\u00e9cnico diferente das demais \u2014 sinal de tradi\u00e7\u00f5es distintas convivendo na mesma regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O segredo estava nas conchas<\/h2>\n\n\n\n<p>Talvez o achado mais revelador esteja na &#8220;receita&#8221; da massa. As cer\u00e2micas continham gr\u00e3os de quartzo, fragmentos de outras cer\u00e2micas e, sobretudo, <strong>fragmentos de conchas<\/strong> misturados ao barro. Essa adi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma marca da chamada <strong>tradi\u00e7\u00e3o Mina<\/strong>, e tinha fun\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica: aumentar a resist\u00eancia da pe\u00e7a e evitar que ela trincasse ou rachasse ao secar e queimar.<\/p>\n\n\n\n<p>O Sambaqui do Bacanga teve a maior propor\u00e7\u00e3o de temperante (4,23%), indicando escolhas t\u00e9cnicas pr\u00f3prias de cada grupo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"570\" height=\"165\" src=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-4.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-255513\" srcset=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-4.png 570w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-4-300x87.png 300w\" sizes=\"(max-width: 570px) 100vw, 570px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Radiografia de padr\u00e3o de alum\u00ednio e fragmentos de cer\u00e2mica do SP, RP e SB, respectivamente. Figura 9. Radiografia de padr\u00e3o de alum\u00ednio e fragmentos de cer\u00e2mica do SP, RP e SB, respectivamente. As regi\u00f5es mais brancas das amostras representam as partes mais densas do material.<br><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Duas &#8220;escolas&#8221; e a argila secreta<\/h2>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise qu\u00edmica permitiu agrupar os s\u00edtios. Bacanga e Panaquatira usaram argilas semelhantes; j\u00e1 o Rabo de Porco usou um barro diferente, identificado como vindo da <strong>margem do rio Bacanga<\/strong>. As diferen\u00e7as apareceram em elementos como estr\u00f4ncio, c\u00e1lcio e zinco \u2014 e no rub\u00eddio, presente s\u00f3 nas pe\u00e7as do Rabo de Porco.<\/p>\n\n\n\n<p>Curiosamente, os autores lembram que, historicamente, os oleiros costumavam escolher suas fontes de argila <strong>em segredo e em locais de dif\u00edcil acesso<\/strong> \u2014 o que ainda hoje dificulta rastrear a origem exata das mat\u00e9rias-primas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que isso importa<\/h2>\n\n\n\n<p>O estudo refor\u00e7a que o Brasil abriga um patrim\u00f4nio pr\u00e9-colonial de valor mundial \u2014 e que a ci\u00eancia consegue, hoje, reconstruir gestos t\u00e9cnicos de povos que viveram h\u00e1 mil\u00eanios. \u00c9 um lembrete de que a riqueza hist\u00f3rica do pa\u00eds vai muito al\u00e9m do per\u00edodo colonial e de seus casar\u00f5es preservados: come\u00e7a milhares de anos antes, no barro moldado \u00e0s margens da Amaz\u00f4nia maranhense. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Estudo de refer\u00eancia:<\/strong> <a href=\"https:\/\/www.mdpi.com\/2075-163X\/12\/10\/1302\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ikeoka, R. A.; Appoloni, C. R.; Scorzelli, R. B.; dos Santos, E<\/a>.; Rizzutto, M. de A.; Bandeira, A. M. <em>Study of Ancient Pottery from the Brazilian Amazon Coast by EDXRF, PIXE, XRD, M\u00f6ssbauer Spectroscopy and Computed Radiography<\/em>. <strong>Minerals<\/strong>, v. 12, art. 1302, 2022. MDPI. Licen\u00e7a Creative Commons Attribution (CC BY 4.0). DOI: 10.3390\/min12101302.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No litoral do Maranh\u00e3o, entre as ba\u00edas de S\u00e3o Marcos e S\u00e3o Jos\u00e9, est\u00e1 guardado um dos cap\u00edtulos mais antigos da hist\u00f3ria das Am\u00e9ricas. 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