{"id":257117,"date":"2026-06-13T18:25:00","date_gmt":"2026-06-13T21:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/?p=257117"},"modified":"2026-06-13T12:13:11","modified_gmt":"2026-06-13T15:13:11","slug":"em-1518-dezenas-de-pessoas-dancaram-sem-parar-por-dias-nas-ruas-de-estrasburgo-e-algumas-morreram-de-exaustao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/em-1518-dezenas-de-pessoas-dancaram-sem-parar-por-dias-nas-ruas-de-estrasburgo-e-algumas-morreram-de-exaustao\/","title":{"rendered":"Em 1518, dezenas de pessoas dan\u00e7aram sem parar por dias nas ruas de Estrasburgo e algumas morreram de exaust\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>No ver\u00e3o de 1518, as ruas de Estrasburgo viraram palco de um dos epis\u00f3dios mais estranhos j\u00e1 registrados em cr\u00f4nicas medievais. Sem m\u00fasica e sem motivo aparente, dezenas de pessoas come\u00e7aram a dan\u00e7ar e n\u00e3o conseguiam parar, algumas at\u00e9 morrer de exaust\u00e3o. O fen\u00f4meno entrou para os registros como a <strong>peste da dan\u00e7a<\/strong>, e at\u00e9 hoje divide pesquisadores sobre o que de fato aconteceu naquele ver\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como tudo come\u00e7ou nas ruas de Estrasburgo?<\/h2>\n\n\n\n<p>Em julho de 1518, uma mulher conhecida como <strong>Frau Troffea<\/strong> saiu de casa e come\u00e7ou a dan\u00e7ar no meio da rua, sem que tocasse qualquer m\u00fasica. A princ\u00edpio, os vizinhos acharam gra\u00e7a e trataram aquilo como uma celebra\u00e7\u00e3o qualquer. O problema \u00e9 que ela n\u00e3o parou. Dan\u00e7ou por cerca de seis dias seguidos, sem dormir e quase sem comer.<\/p>\n\n\n\n<p>Estrasburgo fazia parte do Sacro Imp\u00e9rio Romano-Germ\u00e2nico, no territ\u00f3rio da atual Fran\u00e7a. O que parecia um caso isolado logo se mostrou contagioso. Em poucos dias, outras pessoas se juntaram a Frau Troffea naquela dan\u00e7a fren\u00e9tica, e a cidade percebeu que estava diante de algo muito al\u00e9m de uma excentricidade individual.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quantas pessoas foram tomadas pela mania de dan\u00e7ar?<\/h2>\n\n\n\n<p>O n\u00famero de dan\u00e7arinos cresceu r\u00e1pido, e as consequ\u00eancias se tornaram graves na mesma velocidade. Os relatos da \u00e9poca, embora divergentes, ajudam a dimensionar a escala do surto:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Nos primeiros dias, cerca de 34 pessoas j\u00e1 dan\u00e7avam ao lado de Frau Troffea.<\/li>\n\n\n\n<li>Em cerca de um m\u00eas, o total chegou a aproximadamente 400 indiv\u00edduos, entre homens, mulheres e crian\u00e7as.<\/li>\n\n\n\n<li>No auge da crise, h\u00e1 cr\u00f4nicas que mencionam at\u00e9 15 mortes por dia, por exaust\u00e3o, ataques card\u00edacos e derrames.<\/li>\n\n\n\n<li>O epis\u00f3dio durou cerca de dois meses, estendendo-se de julho a setembro daquele ano.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"720\" src=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-16_55_58.jpg\" alt=\"As autoridades acreditaram que a dan\u00e7a era a cura e chegaram a contratar m\u00fasicos, medida que acabou ampliando o surto.\" class=\"wp-image-257131\" srcset=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-16_55_58.jpg 1280w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-16_55_58-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-16_55_58-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-16_55_58-750x422.jpg 750w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-16_55_58-1140x641.jpg 1140w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">As autoridades acreditaram que a dan\u00e7a era a cura e chegaram a contratar m\u00fasicos, medida que acabou ampliando o surto.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que as autoridades pioraram a situa\u00e7\u00e3o?<\/h2>\n\n\n\n<p>O conselho da cidade interpretou o surto como uma doen\u00e7a f\u00edsica, e concluiu que o melhor rem\u00e9dio seria deixar as pessoas dan\u00e7arem at\u00e9 se livrarem do mal. Com base nisso, liberou sal\u00f5es, montou um palco e chegou a contratar m\u00fasicos e dan\u00e7arinos profissionais para manter todos em movimento. A l\u00f3gica era que o corpo expulsaria sozinho aquilo que o atormentava.<\/p>\n\n\n\n<p>O efeito foi o oposto do esperado. Mais m\u00fasica e mais espa\u00e7o atra\u00edram ainda mais gente, e os colapsos se multiplicaram. S\u00f3 mais tarde as autoridades mudaram de estrat\u00e9gia e apostaram em medidas religiosas, com prociss\u00f5es e uma peregrina\u00e7\u00e3o ao santu\u00e1rio de S\u00e3o Vito, o santo padroeiro dos dan\u00e7arinos. Foi por volta dessa virada que o fen\u00f4meno enfim come\u00e7ou a perder for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que dizem as cr\u00f4nicas e os registros da \u00e9poca?<\/h2>\n\n\n\n<p>Por mais inacredit\u00e1vel que pare\u00e7a, a peste da dan\u00e7a \u00e9 um evento bem documentado para os padr\u00f5es do in\u00edcio do s\u00e9culo XVI. Ela aparece em cr\u00f4nicas da cidade, em serm\u00f5es da catedral e em atas do conselho municipal, o que d\u00e1 ao caso uma base hist\u00f3rica s\u00f3lida. O detalhe \u00e9 que cada fonte conta a hist\u00f3ria \u00e0 sua maneira, com diferen\u00e7as nas datas, no n\u00famero de v\u00edtimas e nas provid\u00eancias tomadas, o que transforma o relato final em um mosaico de fragmentos que ainda alimenta o mist\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Foi ergotismo, histeria coletiva ou outra coisa?<\/h2>\n\n\n\n<p>N\u00e3o existe consenso sobre a causa, e parte da resposta talvez esteja no contexto. Estrasburgo vinha sofrendo com fomes, colheitas ruins, surtos de peste, s\u00edfilis e instabilidade pol\u00edtica. Sobre esse pano de fundo de mis\u00e9ria, algumas explica\u00e7\u00f5es ganharam mais peso entre os estudiosos:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Ergotismo, intoxica\u00e7\u00e3o pelo fungo Claviceps purpurea presente no centeio, capaz de provocar convuls\u00f5es e alucina\u00e7\u00f5es.<\/li>\n\n\n\n<li>Histeria coletiva, ou doen\u00e7a psicog\u00eanica em massa, desencadeada pelo estresse extremo daquela popula\u00e7\u00e3o.<\/li>\n\n\n\n<li>Cren\u00e7a religiosa no castigo de S\u00e3o Vito, que teria induzido as v\u00edtimas a um estado de transe.<\/li>\n\n\n\n<li>Uma combina\u00e7\u00e3o desses fatores, hip\u00f3tese defendida por historiadores como John Waller.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um mist\u00e9rio que ainda atravessa os s\u00e9culos<\/h2>\n\n\n\n<p>O surto de 1518 n\u00e3o foi um caso totalmente \u00fanico. A Europa medieval j\u00e1 havia registrado manias de dan\u00e7a parecidas, como a que teria ocorrido \u00e0s margens do Rio Reno em 1374. Ainda assim, o epis\u00f3dio de Estrasburgo \u00e9 o mais bem documentado de todos, e deu origem ao termo moderno coreomania, usado para descrever esse impulso involunt\u00e1rio e compulsivo de dan\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>O que mant\u00e9m a peste da dan\u00e7a viva no imagin\u00e1rio \u00e9 a combina\u00e7\u00e3o rara entre registros confi\u00e1veis e uma causa nunca esclarecida. \u00c9 um acontecimento real que se l\u00ea como fic\u00e7\u00e3o, e que continua intrigando m\u00e9dicos, psic\u00f3logos e estudiosos do passado. Cinco s\u00e9culos depois, aquela multid\u00e3o que dan\u00e7ou at\u00e9 o limite do corpo segue lembrando o quanto crises coletivas podem mover, ao mesmo tempo, a mente e os p\u00e9s de uma cidade inteira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No ver\u00e3o de 1518, as ruas de Estrasburgo viraram palco de um dos epis\u00f3dios mais estranhos j\u00e1 registrados em cr\u00f4nicas medievais. Sem m\u00fasica e sem motivo aparente, dezenas de pessoas come\u00e7aram a dan\u00e7ar e n\u00e3o conseguiam parar, algumas at\u00e9 morrer de exaust\u00e3o. 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