{"id":257139,"date":"2026-06-11T12:21:05","date_gmt":"2026-06-11T15:21:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/?p=257139"},"modified":"2026-06-11T12:21:07","modified_gmt":"2026-06-11T15:21:07","slug":"um-classico-desconhecido-da-sobrevivencia-como-oito-homens-sobreviveram-a-um-inverno-no-artico-em-1630","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/um-classico-desconhecido-da-sobrevivencia-como-oito-homens-sobreviveram-a-um-inverno-no-artico-em-1630\/","title":{"rendered":"Um cl\u00e1ssico desconhecido da sobreviv\u00eancia: como oito homens sobreviveram a um inverno no \u00c1rtico em 1630"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 1630, oito marinheiros ingleses pouco conhecidos foram separados de sua expedi\u00e7\u00e3o e ficaram presos em <strong>Spitsbergen<\/strong>, no extremo norte do \u00c1rtico europeu, acima da Escandin\u00e1via. Eles precisaram passar o inverno sem navio, sem equipamento de navega\u00e7\u00e3o e com pouqu\u00edssimos suprimentos. Mesmo assim, e de forma totalmente acidental, conquistaram o primeiro inverno bem-sucedido j\u00e1 registrado em Spitsbergen.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos homens, <strong>Edward Pellham<\/strong>, escreveu mais tarde que o sofrimento do famoso explorador Willem Barentsz e seus companheiros em Nova Zembla, onde Barentsz perdeu a vida, era pouca coisa diante da prova\u00e7\u00e3o que eles pr\u00f3prios enfrentaram. Segundo Pellham, se a salva\u00e7\u00e3o dos holandeses foi considerada uma maravilha, a deles chegava perto de um verdadeiro milagre.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Separados da frota<\/h2>\n\n\n\n<p>No dia 1 de maio de 1630, o navio <strong>Salutation<\/strong> partiu da Inglaterra como um dos tr\u00eas mercantes da Companhia de Com\u00e9rcio da Mosc\u00f3via rumo ao \u00c1rtico. No ver\u00e3o, a companhia enviava embarca\u00e7\u00f5es para o norte com o objetivo de ca\u00e7ar baleias, comerciar com a R\u00fassia e tentar, sem sucesso, atravessar a Passagem Noroeste.<\/p>\n\n\n\n<p>O trio de navios, comandado pelo capit\u00e3o William Goodlad, chegou ao \u00c1rtico em junho. Goodlad era um ca\u00e7ador de baleias experiente e firme, que servia como almirante da frota baleeira da companhia desde 1620. Sua carreira tinha hist\u00f3rias marcantes, incluindo a morte do pr\u00f3prio irm\u00e3o durante uma expedi\u00e7\u00e3o, arrastado para fora do barco por uma baleia depois de se enroscar em uma linha. Em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, ele liderou confrontos violentos contra baleeiros rivais para defender o monop\u00f3lio real de sua companhia na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Goodlad separou seus navios ao chegar em Prince Charles Foreland, em Spitsbergen, deixando o Salutation ali. No dia 8 de agosto, ele decidiu seguir para o acampamento baleeiro de Green Harbor, mas ventos contr\u00e1rios impediram o avan\u00e7o para o sul. Diante disso, ele resolveu aproveitar a situa\u00e7\u00e3o. Havia uma colina mais para o interior, a cerca de 20 quil\u00f4metros dali, conhecida por abrigar muitas renas.<\/p>\n\n\n\n<p>O capit\u00e3o escolheu oito homens para a tarefa e os enviou numa <strong>chalupa<\/strong>, um pequeno barco de fundo raso com cerca de nove metros, para o trajeto curto. Ele n\u00e3o fazia ideia de que retornaria \u00e0 Inglaterra sem aquela tripula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Separados de seu navio<\/h2>\n\n\n\n<p>Entre os homens estava Edward Pellham, ajudante de artilheiro. Seus companheiros eram o artilheiro William Fakely, que era seu superior direto, Henry Bett, o tanoeiro, Thomas Ayers, respons\u00e1vel por cortar baleias, os marinheiros John Wise e Robert Goodfellow, e dois trabalhadores de terra chamados Richard Kellet e John Dawes.<\/p>\n\n\n\n<p>Como esperavam ficar fora apenas alguns dias, levaram pouqu\u00edssimo em termos de mantimentos e equipamento. A chalupa carregava duas lan\u00e7as de ca\u00e7a a baleias, uma caixa de fogo, uma arma antiga aparentada do fuzil de pederneira e um par de c\u00e3es de ca\u00e7a. O grupo chegou \u00e0 costa sem problemas e passou o dia ca\u00e7ando, com planos de descansar \u00e0 noite e voltar ao navio na manh\u00e3 seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>O tempo, como era de se prever, virou. Ao acordarem, perceberam que o vento havia empurrado o navio para longe, mar adentro, para evitar que fosse jogado contra as rochas. Sem qualquer forma de navegar ou se comunicar, decidiram que o mais seguro era seguir para Green Harbor, onde o capit\u00e3o Goodlad talvez estivesse \u00e0 espera. Mas, ao chegarem, descobriram que o navio j\u00e1 havia partido.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"720\" src=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-17_17_10.jpg\" alt=\"Para enfrentar meses de frio extremo, os marinheiros transformaram restos de uma esta\u00e7\u00e3o baleeira em um abrigo com isolamento improvisado.\" class=\"wp-image-257158\" srcset=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-17_17_10.jpg 1280w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-17_17_10-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-17_17_10-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-17_17_10-750x422.jpg 750w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-17_17_10-1140x641.jpg 1140w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Para enfrentar meses de frio extremo, os marinheiros transformaram restos de uma esta\u00e7\u00e3o baleeira em um abrigo com isolamento improvisado.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Abandonados no \u00c1rtico<\/h2>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o ficava cada vez mais grave. A frota inteira planejava voltar para a Inglaterra no dia 20 de agosto, o que deixava aos homens apenas tr\u00eas dias para encontrar algum navio. O ponto de encontro final seria em Bell Harbor, e esse era o \u00faltimo e melhor recurso do grupo. Era preciso agir r\u00e1pido. Numa aposta desesperada, eles jogaram ao mar toda a carne de rena que tinham armazenado para aliviar o peso da chalupa.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele dia, chegaram ao ponto intermedi\u00e1rio do trajeto, chamado Low-Nesse, onde a neblina os obrigou a parar. Na manh\u00e3 seguinte, retomaram o caminho e avan\u00e7aram depressa at\u00e9 Bell Point, mas passaram direto por ele por causa do nevoeiro, seguindo muito al\u00e9m do ponto certo. Pellham e alguns dos outros come\u00e7aram a se preocupar, pois j\u00e1 remavam e velejavam havia tempo demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas um deles j\u00e1 havia estado em Spitsbergen antes, e era justamente William Fakely, o superior de Pellham. Fakely insistia que Bell Sound ainda ficava mais ao sul e, convencidos por sua experi\u00eancia, todos seguiram cada vez mais longe do destino. Por um momento, os que duvidavam prevaleceram e o grupo voltou para o norte, chegando a poucos quil\u00f4metros de Bell Sound. Mas Fakely insistiu de novo que estavam indo na dire\u00e7\u00e3o errada, e a chalupa mudou de rumo outra vez.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim, <strong>Pellham precisou arrancar o remo das m\u00e3os de Fakely \u00e0 for\u00e7a<\/strong> para conseguir levar o grupo na dire\u00e7\u00e3o certa. Eles chegaram a Bell Sound, mas tarde demais. Era 21 de agosto, e a frota j\u00e1 havia partido.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Preparativos desesperados<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade que a frota baleeira visitava a regi\u00e3o com frequ\u00eancia, mas isso acontecia apenas no ver\u00e3o. Ningu\u00e9m, pensavam eles, seria louco o bastante para passar o inverno no \u00c1rtico. Exploradores que ficaram presos por ali, como Hugh Willoughby e o j\u00e1 citado Barentsz, sofreram muito e em geral morreram. Aquela, ali\u00e1s, n\u00e3o era a primeira vez que a frota sob o comando de Goodlad deixava pessoas para tr\u00e1s. Pellham lembrava que, em um ano anterior, nove homens tentaram passar o inverno em Spitsbergen e todos morreram.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem alternativa, eles se prepararam da melhor maneira poss\u00edvel. Decidiram seguir para Green Harbor, onde havia mais renas. Provavelmente arrependidos de terem jogado toda a comida ao mar, organizaram grupos de ca\u00e7a para abater e armazenar o m\u00e1ximo de carne que conseguissem.<\/p>\n\n\n\n<p>O inverno, por\u00e9m, chegava com for\u00e7a. Uma tempestade virou o barco e novamente mandou os mantimentos para o fundo do mar, e logo o gelo ficou espesso demais para arriscar a travessia entre Green Harbor e Bell Sound. Trabalhando r\u00e1pido, eles usaram o barco e o que havia dispon\u00edvel na esta\u00e7\u00e3o baleeira abandonada para construir um abrigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Fakely e Pellham, esquecendo a rivalidade, desmontaram tijolo por tijolo os fornos usados para derreter o \u00f3leo de baleia e ergueram paredes com eles. Para evitar que a argamassa congelasse, precisavam manter v\u00e1rias fogueiras acesas o tempo todo. Constru\u00edram o abrigo de tijolos dentro de uma estrutura maior j\u00e1 existente, num <strong>engenhoso projeto de dupla camada de isolamento<\/strong>, e estocaram toda a madeira que conseguiram tirar de barris velhos e barcos destru\u00eddos. N\u00e3o havia mais nada a fazer al\u00e9m de economizar os suprimentos e esperar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Frio, escurid\u00e3o e fome<\/h2>\n\n\n\n<p>Enquanto estavam ocupados, conseguiam evitar o desespero. Mas, por volta de 10 de outubro, o mar havia congelado, o sol quase desaparecera por completo e restava pouco a fazer al\u00e9m de reclamar. Pellham escreveu que as mentes deles passaram a ser tomadas por mil tipos de pensamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto ficavam encolhidos, ora amaldi\u00e7oando o capit\u00e3o Goodlad, ora rezando por sua salva\u00e7\u00e3o, viviam de ra\u00e7\u00f5es m\u00ednimas. Combinaram fazer apenas uma refei\u00e7\u00e3o por dia e jejuar \u00e0s quartas e sextas-feiras. Nesses dias, comiam apenas pequenos bolinhos feitos de restos de gordura de baleia descartados depois que o \u00f3leo era extra\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme o inverno avan\u00e7ava e os suprimentos diminu\u00edam, eles acrescentaram mais dois dias de jejum \u00e0 rotina. A escurid\u00e3o extrema era muito dif\u00edcil do ponto de vista mental, e eles tentavam alivi\u00e1-la construindo pequenas lamparinas com fragmentos reflexivos. Aos poucos, a luz come\u00e7ou a voltar, mas o frio piorou. Depois de passar apenas alguns minutos do lado de fora para recolher neve e derret\u00ea-la para beber, Pellham se sentia dolorido como se tivesse apanhado. Os dedos deles ganhavam bolhas por causa do congelamento. Mesmo tentando melhorar a situa\u00e7\u00e3o e rezando v\u00e1rias vezes ao dia, Pellham admite que <strong>nenhum deles acreditava de verdade que sobreviveria<\/strong>.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"720\" src=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-17_16_52.jpg\" alt=\"8 ingleses abandonados no \u00c1rtico em 1630\" class=\"wp-image-257160\" srcset=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-17_16_52.jpg 1280w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-17_16_52-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-17_16_52-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-17_16_52-750x422.jpg 750w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-17_16_52-1140x641.jpg 1140w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">8 ingleses abandonados no \u00c1rtico em 1630<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A chegada dos ursos<\/h2>\n\n\n\n<p>No fim de janeiro, o sol estava de volta, mas isso era pouco consolo. Ao calcularem os estoques de comida, descobriram que, mesmo nas ra\u00e7\u00f5es j\u00e1 reduzidas, tinham no m\u00e1ximo seis semanas de alimento pela frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a luz vieram os ursos polares, ao mesmo tempo uma b\u00ean\u00e7\u00e3o e uma maldi\u00e7\u00e3o para a tripula\u00e7\u00e3o presa. Os animais eram uma poss\u00edvel fonte de comida, mas, como Pellham escreveu, era um jogo de azar saber quem comeria quem primeiro. Os ursos tinham tanta esperan\u00e7a de devor\u00e1-los quanto eles de matar os ursos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os homens aprenderam a li\u00e7\u00e3o dif\u00edcil que muitos ca\u00e7adores do \u00c1rtico conheceram depois de abater seu primeiro invasor peludo. O <strong>f\u00edgado de urso polar \u00e9 perigosamente rico em vitamina A<\/strong>, e comer at\u00e9 uma pequena por\u00e7\u00e3o pode ser fatal. Por sorte, nenhum deles morreu, mas todos ficaram bastante doentes, com a pele descascando. A li\u00e7\u00e3o vale para sempre: n\u00e3o coma f\u00edgado de urso polar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos meses seguintes, quase 40 ursos passaram por ali, tentando descobrir se aqueles ingleses estranhos tinham gosto parecido com o de focas. Os homens mataram outros sete, o que resolveu o problema da comida, e conseguiram afugentar os demais. Os ursos, por\u00e9m, provavelmente cobraram seu pre\u00e7o. No dia 16 de mar\u00e7o, segundo o registro de Pellham, um dos dois c\u00e3es desapareceu.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Primavera e resgate<\/h2>\n\n\n\n<p>Para a surpresa de todos, os oito homens come\u00e7aram a perceber que a primavera se aproximava, conforme os dias ficavam mais longos e p\u00e1ssaros, raposas e renas voltavam \u00e0 regi\u00e3o. O imposs\u00edvel havia acontecido: eles tinham sobrevivido ao inverno quase dois graus mais ao norte do que Barentsz, e com muito menos suprimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em maio, passaram a observar o mar em busca da \u00e1gua livre de gelo que permitiria a entrada de navios no estreito. No dia 25 de maio, por\u00e9m, ficaram dentro do abrigo por causa de ventos fortes vindos da costa. Foram exatamente esses ventos que empurraram todo o gelo para longe, e naquele mesmo dia dois navios do porto de Hull entraram no estreito. A frota de Hull nem deveria estar em Spitsbergen, j\u00e1 que, poucos anos antes, o capit\u00e3o Goodlad a havia expulsado a tiros de canh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, os homens de Hull tinham ouvido falar que algumas pessoas haviam sido abandonadas no ano anterior e n\u00e3o resistiram \u00e0 curiosidade de verificar se elas estavam vivas. Enquanto isso, o grupo estava reunido no quarto interno mais quente. Apenas Thomas Ayers, que estava na parte externa, ouviu um leve chamado.<\/p>\n\n\n\n<p>Espantado, ele respondeu. Logo, os oito sa\u00edram em disparada do abrigo. As roupas estavam em farrapos e os corpos enegrecidos pela fuma\u00e7a oleosa. Os homens de Hull os receberam a bordo e prometeram abrig\u00e1-los e aliment\u00e1-los enquanto esperavam pela frota da Mosc\u00f3via.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Reencontro e imortaliza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>O capit\u00e3o Goodlad chegou poucos dias depois, aliviado por encontrar seus homens vivos. Pellham elogia Goodlad, que tratou os resgatados como her\u00f3is. O capit\u00e3o pagou roupas novas do pr\u00f3prio bolso, deu um aumento aos trabalhadores de terra e abriu as despensas para que todos recuperassem o peso perdido.<\/p>\n\n\n\n<p>Fakely, John Wise, Thomas Ayers e Robert Goodfellow foram transferidos para outro navio, comandado pelo capit\u00e3o Mason. Ao contr\u00e1rio de Goodlad, Mason os acusou de serem desertores e maltratou os sobreviventes exaustos. Goodlad tentou traz\u00ea-los de volta para seu navio, mas o tempo ruim impediu.<\/p>\n\n\n\n<p>Pellham, grato, passou o resto da temporada ca\u00e7ando baleias no navio de Goodlad, como de costume. No fim de agosto, a frota finalmente voltou para casa. Mais tarde, Pellham escreveu seu relato e o dedicou ao governador da Companhia da Mosc\u00f3via, o que sugere que pretendia continuar trabalhando com eles, embora n\u00e3o haja detalhes claros sobre o que aconteceu com ele depois.<\/p>\n\n\n\n<p>O relato de Pellham ganhou um <strong>t\u00edtulo extraordinariamente longo<\/strong>, em que ele descrevia a preserva\u00e7\u00e3o milagrosa de oito ingleses deixados por engano na Groenl\u00e2ndia em 1630, durante nove meses e doze dias, com uma narra\u00e7\u00e3o de todas as mis\u00e9rias, dificuldades e priva\u00e7\u00f5es que enfrentaram, al\u00e9m de uma descri\u00e7\u00e3o dos principais lugares daquele pa\u00eds frio e \u00e1rido. Foi assim que uma hist\u00f3ria quase esquecida de sobreviv\u00eancia no \u00c1rtico chegou at\u00e9 n\u00f3s, quase quatrocentos anos depois.Em 1630, oito marinheiros ingleses pouco conhecidos foram separados de sua expedi\u00e7\u00e3o e ficaram presos em Spitsbergen, no extremo norte do \u00c1rtico europeu, acima da Escandin\u00e1via. Eles precisaram passar o inverno sem navio, sem equipamento de navega\u00e7\u00e3o e com pouqu\u00edssimos suprimentos. Mesmo assim, e de forma totalmente acidental, conquistaram o primeiro inverno bem-sucedido j\u00e1 registrado em Spitsbergen.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos homens, <strong>Edward Pellham<\/strong>, escreveu mais tarde que o sofrimento do famoso explorador Willem Barentsz e seus companheiros em Nova Zembla, onde Barentsz perdeu a vida, era pouca coisa diante da prova\u00e7\u00e3o que eles pr\u00f3prios enfrentaram. Segundo Pellham, se a salva\u00e7\u00e3o dos holandeses foi considerada uma maravilha, a deles chegava perto de um verdadeiro milagre.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Separados da frota<\/h2>\n\n\n\n<p>No dia 1 de maio de 1630, o navio <strong>Salutation<\/strong> partiu da Inglaterra como um dos tr\u00eas mercantes da Companhia de Com\u00e9rcio da Mosc\u00f3via rumo ao \u00c1rtico. No ver\u00e3o, a companhia enviava embarca\u00e7\u00f5es para o norte com o objetivo de ca\u00e7ar baleias, comerciar com a R\u00fassia e tentar, sem sucesso, atravessar a Passagem Noroeste.<\/p>\n\n\n\n<p>O trio de navios, comandado pelo capit\u00e3o William Goodlad, chegou ao \u00c1rtico em junho. Goodlad era um ca\u00e7ador de baleias experiente e firme, que servia como almirante da frota baleeira da companhia desde 1620. Sua carreira tinha hist\u00f3rias marcantes, incluindo a morte do pr\u00f3prio irm\u00e3o durante uma expedi\u00e7\u00e3o, arrastado para fora do barco por uma baleia depois de se enroscar em uma linha. Em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, ele liderou confrontos violentos contra baleeiros rivais para defender o monop\u00f3lio real de sua companhia na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Goodlad separou seus navios ao chegar em Prince Charles Foreland, em Spitsbergen, deixando o Salutation ali. No dia 8 de agosto, ele decidiu seguir para o acampamento baleeiro de Green Harbor, mas ventos contr\u00e1rios impediram o avan\u00e7o para o sul. Diante disso, ele resolveu aproveitar a situa\u00e7\u00e3o. Havia uma colina mais para o interior, a cerca de 20 quil\u00f4metros dali, conhecida por abrigar muitas renas.<\/p>\n\n\n\n<p>O capit\u00e3o escolheu oito homens para a tarefa e os enviou numa <strong>chalupa<\/strong>, um pequeno barco de fundo raso com cerca de nove metros, para o trajeto curto. Ele n\u00e3o fazia ideia de que retornaria \u00e0 Inglaterra sem aquela tripula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"720\" src=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-17_17_14.jpg\" alt=\"Os ursos polares se tornaram amea\u00e7a e fonte de alimento para os homens que lutavam para sobreviver ao inverno.\" class=\"wp-image-257157\" srcset=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-17_17_14.jpg 1280w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-17_17_14-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-17_17_14-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-17_17_14-750x422.jpg 750w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-11-de-jun.-de-2026-17_17_14-1140x641.jpg 1140w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Os ursos polares se tornaram amea\u00e7a e fonte de alimento para os homens que lutavam para sobreviver ao inverno.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Separados de seu navio<\/h2>\n\n\n\n<p>Entre os homens estava Edward Pellham, ajudante de artilheiro. Seus companheiros eram o artilheiro William Fakely, que era seu superior direto, Henry Bett, o tanoeiro, Thomas Ayers, respons\u00e1vel por cortar baleias, os marinheiros John Wise e Robert Goodfellow, e dois trabalhadores de terra chamados Richard Kellet e John Dawes.<\/p>\n\n\n\n<p>Como esperavam ficar fora apenas alguns dias, levaram pouqu\u00edssimo em termos de mantimentos e equipamento. A chalupa carregava duas lan\u00e7as de ca\u00e7a a baleias, uma caixa de fogo, uma arma antiga aparentada do fuzil de pederneira e um par de c\u00e3es de ca\u00e7a. O grupo chegou \u00e0 costa sem problemas e passou o dia ca\u00e7ando, com planos de descansar \u00e0 noite e voltar ao navio na manh\u00e3 seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>O tempo, como era de se prever, virou. Ao acordarem, perceberam que o vento havia empurrado o navio para longe, mar adentro, para evitar que fosse jogado contra as rochas. Sem qualquer forma de navegar ou se comunicar, decidiram que o mais seguro era seguir para Green Harbor, onde o capit\u00e3o Goodlad talvez estivesse \u00e0 espera. Mas, ao chegarem, descobriram que o navio j\u00e1 havia partido.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Abandonados no \u00c1rtico<\/h2>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o ficava cada vez mais grave. A frota inteira planejava voltar para a Inglaterra no dia 20 de agosto, o que deixava aos homens apenas tr\u00eas dias para encontrar algum navio. O ponto de encontro final seria em Bell Harbor, e esse era o \u00faltimo e melhor recurso do grupo. Era preciso agir r\u00e1pido. Numa aposta desesperada, eles jogaram ao mar toda a carne de rena que tinham armazenado para aliviar o peso da chalupa.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele dia, chegaram ao ponto intermedi\u00e1rio do trajeto, chamado Low-Nesse, onde a neblina os obrigou a parar. Na manh\u00e3 seguinte, retomaram o caminho e avan\u00e7aram depressa at\u00e9 Bell Point, mas passaram direto por ele por causa do nevoeiro, seguindo muito al\u00e9m do ponto certo. Pellham e alguns dos outros come\u00e7aram a se preocupar, pois j\u00e1 remavam e velejavam havia tempo demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas um deles j\u00e1 havia estado em Spitsbergen antes, e era justamente William Fakely, o superior de Pellham. Fakely insistia que Bell Sound ainda ficava mais ao sul e, convencidos por sua experi\u00eancia, todos seguiram cada vez mais longe do destino. Por um momento, os que duvidavam prevaleceram e o grupo voltou para o norte, chegando a poucos quil\u00f4metros de Bell Sound. Mas Fakely insistiu de novo que estavam indo na dire\u00e7\u00e3o errada, e a chalupa mudou de rumo outra vez.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim, <strong>Pellham precisou arrancar o remo das m\u00e3os de Fakely \u00e0 for\u00e7a<\/strong> para conseguir levar o grupo na dire\u00e7\u00e3o certa. Eles chegaram a Bell Sound, mas tarde demais. Era 21 de agosto, e a frota j\u00e1 havia partido.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Preparativos desesperados<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade que a frota baleeira visitava a regi\u00e3o com frequ\u00eancia, mas isso acontecia apenas no ver\u00e3o. Ningu\u00e9m, pensavam eles, seria louco o bastante para passar o inverno no \u00c1rtico. Exploradores que ficaram presos por ali, como Hugh Willoughby e o j\u00e1 citado Barentsz, sofreram muito e em geral morreram. Aquela, ali\u00e1s, n\u00e3o era a primeira vez que a frota sob o comando de Goodlad deixava pessoas para tr\u00e1s. Pellham lembrava que, em um ano anterior, nove homens tentaram passar o inverno em Spitsbergen e todos morreram.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem alternativa, eles se prepararam da melhor maneira poss\u00edvel. Decidiram seguir para Green Harbor, onde havia mais renas. Provavelmente arrependidos de terem jogado toda a comida ao mar, organizaram grupos de ca\u00e7a para abater e armazenar o m\u00e1ximo de carne que conseguissem.<\/p>\n\n\n\n<p>O inverno, por\u00e9m, chegava com for\u00e7a. Uma tempestade virou o barco e novamente mandou os mantimentos para o fundo do mar, e logo o gelo ficou espesso demais para arriscar a travessia entre Green Harbor e Bell Sound. Trabalhando r\u00e1pido, eles usaram o barco e o que havia dispon\u00edvel na esta\u00e7\u00e3o baleeira abandonada para construir um abrigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Fakely e Pellham, esquecendo a rivalidade, desmontaram tijolo por tijolo os fornos usados para derreter o \u00f3leo de baleia e ergueram paredes com eles. Para evitar que a argamassa congelasse, precisavam manter v\u00e1rias fogueiras acesas o tempo todo. Constru\u00edram o abrigo de tijolos dentro de uma estrutura maior j\u00e1 existente, num <strong>engenhoso projeto de dupla camada de isolamento<\/strong>, e estocaram toda a madeira que conseguiram tirar de barris velhos e barcos destru\u00eddos. N\u00e3o havia mais nada a fazer al\u00e9m de economizar os suprimentos e esperar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Frio, escurid\u00e3o e fome<\/h2>\n\n\n\n<p>Enquanto estavam ocupados, conseguiam evitar o desespero. Mas, por volta de 10 de outubro, o mar havia congelado, o sol quase desaparecera por completo e restava pouco a fazer al\u00e9m de reclamar. Pellham escreveu que as mentes deles passaram a ser tomadas por mil tipos de pensamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto ficavam encolhidos, ora amaldi\u00e7oando o capit\u00e3o Goodlad, ora rezando por sua salva\u00e7\u00e3o, viviam de ra\u00e7\u00f5es m\u00ednimas. Combinaram fazer apenas uma refei\u00e7\u00e3o por dia e jejuar \u00e0s quartas e sextas-feiras. Nesses dias, comiam apenas pequenos bolinhos feitos de restos de gordura de baleia descartados depois que o \u00f3leo era extra\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme o inverno avan\u00e7ava e os suprimentos diminu\u00edam, eles acrescentaram mais dois dias de jejum \u00e0 rotina. A escurid\u00e3o extrema era muito dif\u00edcil do ponto de vista mental, e eles tentavam alivi\u00e1-la construindo pequenas lamparinas com fragmentos reflexivos. Aos poucos, a luz come\u00e7ou a voltar, mas o frio piorou. Depois de passar apenas alguns minutos do lado de fora para recolher neve e derret\u00ea-la para beber, Pellham se sentia dolorido como se tivesse apanhado. Os dedos deles ganhavam bolhas por causa do congelamento. Mesmo tentando melhorar a situa\u00e7\u00e3o e rezando v\u00e1rias vezes ao dia, Pellham admite que <strong>nenhum deles acreditava de verdade que sobreviveria<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A chegada dos ursos<\/h2>\n\n\n\n<p>No fim de janeiro, o sol estava de volta, mas isso era pouco consolo. Ao calcularem os estoques de comida, descobriram que, mesmo nas ra\u00e7\u00f5es j\u00e1 reduzidas, tinham no m\u00e1ximo seis semanas de alimento pela frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a luz vieram os ursos polares, ao mesmo tempo uma b\u00ean\u00e7\u00e3o e uma maldi\u00e7\u00e3o para a tripula\u00e7\u00e3o presa. Os animais eram uma poss\u00edvel fonte de comida, mas, como Pellham escreveu, era um jogo de azar saber quem comeria quem primeiro. Os ursos tinham tanta esperan\u00e7a de devor\u00e1-los quanto eles de matar os ursos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os homens aprenderam a li\u00e7\u00e3o dif\u00edcil que muitos ca\u00e7adores do \u00c1rtico conheceram depois de abater seu primeiro invasor peludo. O <strong>f\u00edgado de urso polar \u00e9 perigosamente rico em vitamina A<\/strong>, e comer at\u00e9 uma pequena por\u00e7\u00e3o pode ser fatal. Por sorte, nenhum deles morreu, mas todos ficaram bastante doentes, com a pele descascando. A li\u00e7\u00e3o vale para sempre: n\u00e3o coma f\u00edgado de urso polar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos meses seguintes, quase 40 ursos passaram por ali, tentando descobrir se aqueles ingleses estranhos tinham gosto parecido com o de focas. Os homens mataram outros sete, o que resolveu o problema da comida, e conseguiram afugentar os demais. Os ursos, por\u00e9m, provavelmente cobraram seu pre\u00e7o. No dia 16 de mar\u00e7o, segundo o registro de Pellham, um dos dois c\u00e3es desapareceu.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Primavera e resgate<\/h2>\n\n\n\n<p>Para a surpresa de todos, os oito homens come\u00e7aram a perceber que a primavera se aproximava, conforme os dias ficavam mais longos e p\u00e1ssaros, raposas e renas voltavam \u00e0 regi\u00e3o. O imposs\u00edvel havia acontecido: eles tinham sobrevivido ao inverno quase dois graus mais ao norte do que Barentsz, e com muito menos suprimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em maio, passaram a observar o mar em busca da \u00e1gua livre de gelo que permitiria a entrada de navios no estreito. No dia 25 de maio, por\u00e9m, ficaram dentro do abrigo por causa de ventos fortes vindos da costa. Foram exatamente esses ventos que empurraram todo o gelo para longe, e naquele mesmo dia dois navios do porto de Hull entraram no estreito. A frota de Hull nem deveria estar em Spitsbergen, j\u00e1 que, poucos anos antes, o capit\u00e3o Goodlad a havia expulsado a tiros de canh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, os homens de Hull tinham ouvido falar que algumas pessoas haviam sido abandonadas no ano anterior e n\u00e3o resistiram \u00e0 curiosidade de verificar se elas estavam vivas. Enquanto isso, o grupo estava reunido no quarto interno mais quente. Apenas Thomas Ayers, que estava na parte externa, ouviu um leve chamado.<\/p>\n\n\n\n<p>Espantado, ele respondeu. Logo, os oito sa\u00edram em disparada do abrigo. As roupas estavam em farrapos e os corpos enegrecidos pela fuma\u00e7a oleosa. Os homens de Hull os receberam a bordo e prometeram abrig\u00e1-los e aliment\u00e1-los enquanto esperavam pela frota da Mosc\u00f3via.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Reencontro e imortaliza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>O capit\u00e3o Goodlad chegou poucos dias depois, aliviado por encontrar seus homens vivos. Pellham elogia Goodlad, que tratou os resgatados como her\u00f3is. O capit\u00e3o pagou roupas novas do pr\u00f3prio bolso, deu um aumento aos trabalhadores de terra e abriu as despensas para que todos recuperassem o peso perdido.<\/p>\n\n\n\n<p>Fakely, John Wise, Thomas Ayers e Robert Goodfellow foram transferidos para outro navio, comandado pelo capit\u00e3o Mason. Ao contr\u00e1rio de Goodlad, Mason os acusou de serem desertores e maltratou os sobreviventes exaustos. Goodlad tentou traz\u00ea-los de volta para seu navio, mas o tempo ruim impediu.<\/p>\n\n\n\n<p>Pellham, grato, passou o resto da temporada ca\u00e7ando baleias no navio de Goodlad, como de costume. No fim de agosto, a frota finalmente voltou para casa. Mais tarde, Pellham escreveu seu relato e o dedicou ao governador da Companhia da Mosc\u00f3via, o que sugere que pretendia continuar trabalhando com eles, embora n\u00e3o haja detalhes claros sobre o que aconteceu com ele depois.<\/p>\n\n\n\n<p>O relato de Pellham ganhou um <strong>t\u00edtulo extraordinariamente longo<\/strong>, em que ele descrevia a preserva\u00e7\u00e3o milagrosa de oito ingleses deixados por engano na Groenl\u00e2ndia em 1630, durante nove meses e doze dias, com uma narra\u00e7\u00e3o de todas as mis\u00e9rias, dificuldades e priva\u00e7\u00f5es que enfrentaram, al\u00e9m de uma descri\u00e7\u00e3o dos principais lugares daquele pa\u00eds frio e \u00e1rido. Foi assim que uma hist\u00f3ria quase esquecida de sobreviv\u00eancia no \u00c1rtico chegou at\u00e9 n\u00f3s, quase quatrocentos anos depois.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1630, oito marinheiros ingleses pouco conhecidos foram separados de sua expedi\u00e7\u00e3o e ficaram presos em Spitsbergen, no extremo norte do \u00c1rtico europeu, acima da Escandin\u00e1via. Eles precisaram passar o inverno sem navio, sem equipamento de navega\u00e7\u00e3o e com pouqu\u00edssimos suprimentos. 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