{"id":278282,"date":"2026-07-21T20:10:00","date_gmt":"2026-07-21T23:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/?p=278282"},"modified":"2026-07-20T10:50:43","modified_gmt":"2026-07-20T13:50:43","slug":"ana-maria-matute-escritora-as-vezes-a-infancia-e-mais-longa-que-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/ana-maria-matute-escritora-as-vezes-a-infancia-e-mais-longa-que-a-vida\/","title":{"rendered":"Ana Mar\u00eda Matute, escritora: &#8220;\u00c0s vezes a inf\u00e2ncia \u00e9 mais longa que a vida&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Imagine observar um adulto na casa dos quarenta ou cinquenta anos, profissionalmente bem-sucedido, vestindo trajes elegantes e tomando decis\u00f5es corporativas de alta complexidade. No entanto, diante de uma cr\u00edtica sutil de seu superior ou de um sinal involunt\u00e1rio de desaprova\u00e7\u00e3o de um colega, toda essa blindagem de maturidade desmorona em segundos. O olhar vacila, a postura encolhe e, por alguns instantes, quem est\u00e1 ali reagindo n\u00e3o \u00e9 o executivo experiente, mas a crian\u00e7a assustada de sete anos que se sentiu rejeitada no passado. O rel\u00f3gio biol\u00f3gico avan\u00e7ou d\u00e9cadas, mas a engrenagem emocional permaneceu congelada no ponto de partida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa assustadora elasticidade temporal da nossa psique foi traduzida com uma sensibilidade cir\u00fargica pela escritora espanhola <strong>Ana Mar\u00eda Matute<\/strong>: <strong>\u201c\u00c0s vezes a inf\u00e2ncia \u00e9 mais longa que a vida.\u201d<\/strong> A provoca\u00e7\u00e3o nos for\u00e7a a encarar o peso desproporcional que os primeiros anos exercem sobre a totalidade da nossa exist\u00eancia, revelando que a inf\u00e2ncia n\u00e3o constitui apenas uma fase cronol\u00f3gica que deixamos para tr\u00e1s, mas sim o alicerce psicol\u00f3gico que nos acompanha at\u00e9 o \u00faltimo suspiro.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ana Mar\u00eda Matute e a inf\u00e2ncia como territ\u00f3rio sitiado<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para compreender a profundidade desse diagn\u00f3stico, precisamos mergulhar no contexto da autora. <strong>Ana Mar\u00eda Matute<\/strong> viveu os horrores da Guerra Civil Espanhola durante sua pr\u00f3pria inf\u00e2ncia. A viol\u00eancia, o sil\u00eancio imposto e a perda abrupta da inoc\u00eancia moldaram profundamente a sua vis\u00e3o de mundo. Em suas obras, a inf\u00e2ncia nunca \u00e9 retratada como um conto de fadas id\u00edlico ou um mar de rosas inofensivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a escritora, os primeiros anos funcionam como um campo de batalha existencial de intensidade brutal. \u00c9 nesse per\u00edodo que o indiv\u00edduo experimenta, pela primeira vez e sem defesas biol\u00f3gicas ou intelectuais prontas, o impacto do medo, da injusti\u00e7a e do abandono. As marcas deixadas nessa fase s\u00e3o t\u00e3o profundas que continuam ecoando na consci\u00eancia do adulto, expandindo-se ao longo do tempo como ondas conc\u00eantricas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"720\" src=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Gemini_Generated_Image_8uhfrq8uhfrq8uhf-1-1.png\" alt=\"Ana Mar\u00eda Matute, escritora: &quot;\u00c0s vezes a inf\u00e2ncia \u00e9 mais longa que a vida&quot;\" class=\"wp-image-278589\" srcset=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Gemini_Generated_Image_8uhfrq8uhfrq8uhf-1-1.png 1280w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Gemini_Generated_Image_8uhfrq8uhfrq8uhf-1-1-300x169.png 300w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Gemini_Generated_Image_8uhfrq8uhfrq8uhf-1-1-768x432.png 768w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Gemini_Generated_Image_8uhfrq8uhfrq8uhf-1-1-750x422.png 750w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Gemini_Generated_Image_8uhfrq8uhfrq8uhf-1-1-1140x641.png 1140w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ana Mar\u00eda Matute, escritora: &#8220;\u00c0s vezes a inf\u00e2ncia \u00e9 mais longa que a vida&#8221;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O tempo psicol\u00f3gico contra a linearidade cronol\u00f3gica<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob a \u00f3tica da psicologia moderna e da neurobiologia do desenvolvimento, a tese de <strong>Matute<\/strong> encontra uma valida\u00e7\u00e3o cient\u00edfica contundente. Para o nosso inconsciente, o tempo linear e o calend\u00e1rio de parede s\u00e3o meras conven\u00e7\u00f5es artificiais. Uma experi\u00eancia traum\u00e1tica ou uma priva\u00e7\u00e3o afetiva severa ocorrida na tenra idade possui o poder de reconfigurar a nossa arquitetura cerebral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando um padr\u00e3o emocional \u00e9 estabelecido na inf\u00e2ncia, ele passa a atuar como a lente padr\u00e3o por meio da qual interpretamos toda a realidade subsequente. Passamos o resto dos nossos dias repetindo rea\u00e7\u00f5es, buscando defesas e tentando solucionar equa\u00e7\u00f5es afetivas que foram propostas no in\u00edcio da nossa hist\u00f3ria. A inf\u00e2ncia estica-se pelos anos, durando muito mais do que a pr\u00f3pria expectativa de vida cronol\u00f3gica da pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leia tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/citacao-do-dia-de-pierre-trudeau-ex-primeiro-ministro-do-canada-o-estado-nao-tem-nada-a-ver-com-a-vida-privada-dos-cidadaos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Cita\u00e7\u00e3o do dia de Pierre Trudeau, ex-primeiro-ministro do Canad\u00e1: \u201cO Estado n\u00e3o tem nada a ver com a vida privada dos cidad\u00e3os.\u201d<\/a><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Tr\u00eas formas pelas quais a inf\u00e2ncia ultrapassa a maturidade<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O prolongamento dos nossos primeiros anos na vida adulta n\u00e3o ocorre de forma abstrata, mas manifesta-se em comportamentos defensivos e escolhas neur\u00f3ticas previs\u00edveis. Muitas vezes, operamos sob o comando de dores antigas sem nos darmos conta de que o passado continua ditando o roteiro do presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para compreendermos o impacto dessa perman\u00eancia temporal em nossa estabilidade emocional cotidiana, podemos destacar tr\u00eas grandes din\u00e2micas da inf\u00e2ncia estendida:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Os roteiros afetivos repetitivos:<\/strong> A tend\u00eancia inconsciente de buscar parceiros ou ambientes profissionais que recriem as din\u00e2micas familiares dif\u00edceis da inf\u00e2ncia, em uma tentativa desesperada de obter um final diferente.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>A vulnerabilidade primitiva:<\/strong> Reagir aos conflitos e frustra\u00e7\u00f5es da maturidade com o mesmo desespero, urg\u00eancia e sensa\u00e7\u00e3o de desamparo absoluto que experiment\u00e1vamos quando \u00e9ramos totalmente dependentes dos nossos cuidadores.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>O esgotamento por valida\u00e7\u00e3o tardia:<\/strong> Gastar energia vital acumulando t\u00edtulos, bens ou status em uma busca exaustiva para obter o aplauso ou o reconhecimento que nos faltou na rela\u00e7\u00e3o com os pais na inf\u00e2ncia.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O choque com a obsess\u00e3o contempor\u00e2nea pela supera\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A perspectiva de <strong>Ana Mar\u00eda Matute<\/strong> colide diretamente com os imperativos da sociedade contempor\u00e2nea. Fomos condicionados a adotar uma cultura de resili\u00eancia corporativa e supera\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, em que o sofrimento deve ser arquivado imediatamente e a inf\u00e2ncia \u00e9 tratada como uma p\u00e1gina virada que n\u00e3o deve atrapalhar a nossa produtividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa pressa em ignorar as nossas funda\u00e7\u00f5es afetivas gera um adoecimento invis\u00edvel e cr\u00f4nico. O modelo da escritora lembra que <strong>tentar apagar o passado sem integr\u00e1-lo \u00e9 o caminho mais curto para continuar sendo controlado por ele<\/strong>, transformando o adulto em uma marionete articulada por fios invis\u00edveis tecidos na inf\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"720\" src=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Gemini_Generated_Image_mzlw2pmzlw2pmzlw-1-1.png\" alt=\"Ana Mar\u00eda Matute, escritora: &quot;\u00c0s vezes a inf\u00e2ncia \u00e9 mais longa que a vida&quot;\" class=\"wp-image-278590\" srcset=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Gemini_Generated_Image_mzlw2pmzlw2pmzlw-1-1.png 1280w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Gemini_Generated_Image_mzlw2pmzlw2pmzlw-1-1-300x169.png 300w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Gemini_Generated_Image_mzlw2pmzlw2pmzlw-1-1-768x432.png 768w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Gemini_Generated_Image_mzlw2pmzlw2pmzlw-1-1-750x422.png 750w, https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cbradar\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Gemini_Generated_Image_mzlw2pmzlw2pmzlw-1-1-1140x641.png 1140w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ana Mar\u00eda Matute, escritora: &#8220;\u00c0s vezes a inf\u00e2ncia \u00e9 mais longa que a vida&#8221;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como a consci\u00eancia nos liberta do tempo congelado<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Romper o dom\u00ednio desproporcional dos primeiros anos n\u00e3o exige negar o que foi vivido, mas sim assumir a responsabilidade de acolher a nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria com lucidez. O amadurecimento real acontece no momento em que o adulto assume a soberania de sua vida, tornando-se o protetor da crian\u00e7a que um dia foi ferida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fim das contas, a li\u00e7\u00e3o de <strong>Ana Mar\u00eda Matute<\/strong> \u00e9 um chamado urgente \u00e0 honestidade psicol\u00f3gica profunda. Se a nossa inf\u00e2ncia insiste em durar mais do que a nossa vida, precisamos parar de fugir do espelho e encarar o que ficou pendente. A grande provoca\u00e7\u00e3o que a autora deixa para a sua jornada \u00e9 direta: <strong>a crian\u00e7a que voc\u00ea foi est\u00e1 ajudando a construir o seu futuro ou ainda est\u00e1 trancada no quarto ditando os seus medos?<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine observar um adulto na casa dos quarenta ou cinquenta anos, profissionalmente bem-sucedido, vestindo trajes elegantes e tomando decis\u00f5es corporativas de alta complexidade. 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