Fraudadores podem ter cancelado mais de R$ 1,3 milhão em multas no DF

De acordo com os investigadores, os acusados teriam acesso, via internet, ao Sistema de Gestão de Trânsito (Getran), portal de servidores do Detran, que apresentava vulnerabilidade

Samara Schwingel
postado em 30/07/2020 10:37
 (foto: PCDF/Divulgação)
(foto: PCDF/Divulgação)

Um servidor público cedido ao Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) foi preso, ontem, por participar de um esquema que teria cancelado mais de R$1,3 milhão em multas de trânsito. Ele é funcionário da antiga Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag). Segundo as investigações da Polícia Civil do DF (PCDF), o servidor repassava informações internas do Detran para ex-despachantes do órgão venderem as ações fraudulentas.

Batizada de Operação Backdoor — termo em inglês que define a vulnerabilidade utilizada por hackers para cometer fraudes —, a ação foi encabeçada pela Divisão Especial de Repressão à Corrupção (Cecor) e contou com apoio da Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público e Social (Prodep), do Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT). No total, foram cumpridos cinco mandados de prisão temporária e oito de busca e apreensão em endereços residenciais e locais de trabalho relacionados aos suspeitos.

De acordo com os investigadores, os acusados teriam acesso, via internet, ao Sistema de Gestão de Trânsito (Getran) — portal de servidores do Detran — que apresentava vulnerabilidade. Dessa forma, hackers invadiam a rede e conseguiam cancelar multas, retirar restrições judiciais e administrativas, além de permitir o licenciamento e a transferência de propriedade de veículos que estavam com pendências. Os clientes entravam em contato com despachantes — pessoas responsáveis por requerimentos, encaminhamentos e trâmites burocráticos junto aos órgãos públicos — e solicitavam a alteração no sistema do Detran.

Os despachantes costumavam cobrar metade do valor da multa. Com o negócio fechado, eles contratavam hackers, que, de acordo com a Cecor, residem fora do DF. Os hackers invadiam a base de dados do órgão e desvinculavam ou cancelavam as multas. O veículo do cliente (dono e motorista do automóvel) passava, então, a aparecer no sistema sem nenhuma irregularidade. Dessa forma, as transferências e os licenciamentos eram realizados sem maiores impedimentos legais.

Números

A ação custou caro aos cofres do Detran. Um laudo pericial produzido pelo Instituto de Criminalística, por meio da Seção de Perícias de Informática, mostrou que as multas canceladas atingem o valor de R$1,371 milhão, apenas entre maio de 2019 e janeiro de 2020, e são relativas a 612 veículos. As restrições judiciais e administrativas desbloqueadas pertenciam a 80 outros automóveis.

O Detran informou, em nota, que continuará colaborando com as informações solicitadas pela PCDF. Além disso, o órgão esclareceu que o servidor detido na operação “não é do quadro da Autarquia, mas, sim, cedido da antiga Seplag, e que será devolvido ao seu órgão de origem imediatamente.” Sobre possíveis medidas a serem tomadas em relação aos proprietários dos veículos identificados no esquema e às multas canceladas, o Detran informou que “todas as autuações relativas à operação serão retornadas para o sistema do Detran/DF.”

A PCDF e o MPDFT informaram que não vão comentar o caso até o final das investigações.

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