Crônica da Cidade

"Obrigado pelo sorriso"

Mariana Niederauer
postado em 17/08/2020 00:14

As cenas da pandemia se tornaram o roteiro das nossas vidas. Em frames acelerados ou como câmera lenta, os rostos cobertos por panos ou protegidos por placas de acrílico se multiplicam nos ambientes onde ousamos transitar. A cada tomada de fôlego, um aperto no peito representa a insegurança, a saudade, a dor, o amor.

Os enquadramentos também mudaram. As janelas de casa ou do carro são as molduras mais frequentes desse nosso filme que superou qualquer trilogia, em uma sequência que todos queremos deixar para trás e esquecer o mais depressa possível. Mas, apesar de você, de mim, dos outros, a humanidade resta dentro de nós — da maioria, é certo. E retratos diários dessa chama de existência generosa e cidadã nos presenteiam mesmo nesses tempos difíceis.

Quem depende do trabalho nas ruas para tirar o sustento, vê outras cores e formas na pandemia. Por ironia, ali, livre da clausura das quatro paredes, o quadro é de solidão. A desafiadora tarefa de vender olho no olho perdeu o brilho e ganhou novos obstáculos com as barreiras que cada face abriga em busca de proteção. As respostas, os gestos e as expressões ficaram comprometidas.

Parada diante do sinal vermelho, avistei a poucos metros de distância um desses trabalhadores. Debaixo do sol, protegido com a máscara que estampava o escudo do time do coração, ele, flamenguista como eu, se aproximou. Pela janela do passageiro, ofereceu os produtos erguendo os braços. Eram panos de chão e sacos de lixo pretos, itens que geralmente só compro mesmo na rua. Mas há poucos dias os havia adquirido com outro rapaz, não muito distante dali. Recusei a oferta, portanto, e agradeci.

O vendedor respeitou a decisão e aproveitou o momento para prosear um pouco. O meu era um dos únicos carros no semáforo e nenhum cliente em potencial se aproximava. Nos poucos segundos disponíveis para o papo, ele falava ligeiro. A rapidez me deixou até meio confusa, não consegui responder a nenhuma das charadas que soltou, nem me lembro mais das respostas, sempre inéditas para mim e que, por isso, me fizeram gargalhar.

Para finalizar, ele contou uma das clássicas piadas de Joãozinho. Não sei se foi caso pensado, mas até se adequa ao contexto atual. “Mãe, meus amigos da escola dizem que sou mentiroso”, diz o menino. Ao que mulher responde: “Joãozinho, você ainda não vai para a escola”. Dei a última risada, mais impressionada com a disposição desse trabalhador do que com seu talento para o humor e ouvi o agradecimento: “Obrigado pelo sorriso”.

O capítulo desse filme em forma de diário ganhou um quadro mais alegre. Quem agradece sou eu.

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