Curta-metragem motivado por morte de ciclista busca conscientizar motoristas

A morte do ciclista Pedro Davison, em 2006, inspirou um curta-metragem filmado pelas ruas de Brasília, que traz mensagem de paz e harmonia no trânsito. A obra foi liberada hoje na plataforma digital Vimeo

Caroline Cintra
postado em 18/08/2020 06:00 / atualizado em 18/08/2020 11:58
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Nesta quarta-feira (19/8), completam 14 anos de uma das maiores tragédias de trânsito ocorridas no Distrito Federal. Em 19 de agosto de 2006, o ciclista Pedro Davison, 25 anos, morreu atropelado por um motorista que dirigia embriagado pelo Eixão Sul. O estudante de biologia havia acabado de sair da festa de aniversário da filha, Luiza Davison, 22, que à época completava 8 anos, para pedalar, quando foi atingido por um Marea prata. 

O dia que seria de muita alegria ficou marcado por um crime bárbaro. Familiares e amigos da vítima, no entanto, decidiram fazer da data um marco e um motivo de conscientização para levantar a bandeira de paz no trânsito. Em 2017, foi sancionado o projeto de lei que instituiu o Dia Nacional do Ciclista, comemorado em 19 de agosto.

O caso ganhou repercussão e mobilizou pessoas e movimentos de todo o Brasil. Tanto que a história foi tema de um curta-metragem filmado em 2018. Intitulado Lulu Vai de Bike, o filme é protagonizado por Luiza Davison, que percorre as quadras de Brasília falando sobre os cuidados que uns devem ter com os outros no trânsito. A obra, até então, era apresentada apenas em festivais. Hoje, ela já pode ser assistida pela plataforma de vídeo Vimeo. (Veja Onde assistir).

Diretor do curta-metragem, Edson Fogaça contou que sempre teve vontade de fazer um documentário sobre a mobilidade urbana de Brasília. A ideia inicial era retratar as ciclovias da área central da capital. Durante uma conversa com Luiza, eles decidiram que o tema seria paz no trânsito. “Eu conhecia a história do Pedro, mas não fiz a conexão imediata de que ela era a filha dele. Quando descobri, o filme já veio inteiro na minha cabeça”, disse Fogaça.

O intuito do diretor era inscrever a obra em festivais nacionais e, em seguida, reproduzir em plataforma digitais. “É uma peça de educação, uma discussão sobre mobilidade urbana em Brasília. A cidade vive um entupimento de automóveis e nossa ideia é estimular as pessoas que moram e trabalham no Plano Piloto a usarem bicicletas. Assim, favorecer quem mora no entorno e precisa, realmente, do carro”, ressaltou Fogaça. Para ele, um dos grandes desafios foi fazer um filme sem atores profissionais. Apenas Luiza é atriz. Os demais participantes são amigos, familiares e integrantes de movimentos ciclísticos, que participaram de forma voluntária.


Exemplo

Para Luiza, o ocorrido com o pai serviu de exemplo para muitas pessoas. O desejo dela é que outras famílias não passem pelo mesmo. “É muito legal quando surgem iniciativas positivas dentro de uma tragédia. Ideias criativas e educacionais. Minha família sempre fez isso por meio de manifestações. O curta traz uma história que comove, engaja”, disse. A ideia é que o filme seja apresentado em escolas, quando as aulas voltarem. “É uma forma de conscientizar por meio das crianças”, reforçou a atriz.

Junto ao Dia Nacional do Ciclista, Luiza comemora mais um ano de vida. Na data, ela costuma reunir amigos e familiares para homenagear o pai. “Eu tento planejar o máximo para não pensar em coisas ruins. Seria mentira se eu dissesse que não sinto tristeza pela morte do meu pai, mas tento trazer alegria à comemoração”, contou. Para ela, a data não representa apenas perda e luto, mas uma mensagem de paz no trânsito. “Conseguimos ressignificar, e isso é o mais bonito. Não é só sobre o meu pai, mas sobre a amplitude disso tudo e o propósito de levar essa mensagem para todos”, declarou.

Os pais de Pedro, Pérsio Davison, 72, e Beth Davison, 70, também participam do curta-metragem. Pérsio destaca que a mensagem do filme é ter uma visão carinhosa com o próximo no trânsito. O ensinamento, segundo ele, é fundamental para que haja harmonia entre pedestres, ciclistas e motoristas de todos os tipos de veículos. Ele lembra que a morte do filho, a princípio, era tratada como acidente. No decorrer da investigação, tornou-se crime. “Foi o primeiro julgamento em Brasília como crime doloso de trânsito. O caso criou impacto forte na cidade, como a revelação de uma violência que não podia mais acontecer. Aquilo foi consequência do comportamento de uma pessoa”, disse o aposentado.

Legislação

Para o conselheiro da ONG Rodas da Paz, Jonas Bertucci, as cenas do filme valorizam o uso da bicicleta, não apenas como lazer, mas no dia a dia. “Isso traz qualidade de vida. A homenagem ao Pedro mostra um trabalho de conscientização e de controle das políticas públicas, para que outras famílias não vivam o mesmo que a dele viveu”, destacou o ciclista.

Jonas contou que não conheceu Pedro, mas que se identifica com a história dele pelos interesses em comum. “Criar o Dia do Ciclista é algo simbólico, para não deixar passar em branco uma data não só para homenagear e lembrar, mas para cobrar os governos para que mude a legislação e que tenha políticas mais sustentáveis”, disse.

“Apesar das conquistas, temos trabalho pela frente para enfrentar. Temos muito trabalho para mudar a mentalidade do judiciário, de que motorista embriagado comete crime precisa ser penalizado”, completou o conselheiro da ONG Rodas da Paz

 

Depoimento

“Numa manhã de maio deste ano, saí de casa para praticar uma atividade física que eu amava e me propiciava uma condição física excepcional. É um esporte cultuado em várias partes do mundo, especialmente na Europa, com o Tour de France, Giro D’Italia e a Vuelta a España. Foi com o ciclismo que eu trouxe quatro medalhas de ouro para a minha instituição, uma outra paixão, a Polícia Civil, no World Police and Fire Games de 2017, em Los Angeles. Mas, por amor a minhas filhas, Marina e Stella, não pretendo mais pedalar em alta velocidade, como antes. Naquela manhã de maio, sofri um acidente que, por pouco, não tirou a alegria de vê-las se formarem e construírem a vida. Fiquei um mês em coma depois de ser atropelado ao lado de um parceiro de esporte que ainda se recupera no hospital. O motorista nem chegou a frear. Mas eu tive todas as condições para me reabilitar: médicos dedicados do Hospital de Base, onde recebi os primeiros atendimentos, e do Santa Lúcia. Faço tratamento de alta qualidade num hospital de excelência, o Sarah Kubitschek. Estou inteiro e quase pronto para voltar ao trabalho como delegado de polícia. Muitos outros não tiveram essa oportunidade. Minha sorte foi estar treinando a 30 km/h, o que diminuiu o impacto do veículo que nos atingiu. Meu capacete ficou destruído, mas poupou a minha vida. Enquanto me recupero, vejo histórias tristes, como um recente acidente que matou dois ciclistas na volta do trabalho. Eles estavam no acostamento e, segundo o noticiário, não tiveram chance de sobrevivência, apesar de terem sido socorridos pela Polícia Militar. Só um respeito ao Código Brasileiro de Trânsito por parte dos motoristas poderia evitar tragédias dessa natureza. O ciclismo não pode morrer no Brasil”. Depoimento de Fernando Cesar Costa, delegado e ciclista. 


Lei

 (foto: Sérgio Barata/Divulgação)
crédito: Sérgio Barata/Divulgação

Dia 19 de agosto tornou-se o Dia Nacional do Ciclista em 2017, quando foi sancionado o Projeto de Lei 76/2017. O texto foi uma iniciativa do então deputado federal Lúcio Vale e tem a intenção de promover a paz no trânsito, o uso da bicicleta, a cidadania e a mobilidade sustentável. A data foi escolhida para homenagear o ciclista Pedro Davison, que morreu em 2006.

Onde assistir

 (foto: Raruti/Divulgação)
crédito: Raruti/Divulgação

O documentário está disponível no link bit.ly/luluvaidebike

Para saber mais

Pedro Davison tinha 25 anos quando foi atropelado por um motorista bêbado, em 19 de agosto de 2006, enquanto pedalava no Eixão Sul, na altura da 213. O condutor do veículo era o contador Leonardo Luiz da Costa, que dirigia embriagado, acima da velocidade, com a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) vencida e fugiu sem prestar socorro. Passados quatro anos, ele foi condenado por homicídio doloso. No mesmo dia da tragédia, Pedro e a família comemoravam os 8 anos da filha dele, Luiza.

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