Um concurseiro nota 10

Aos 11 anos, o pequeno Otavio Ferreira tem uma meta: ser promotor de Justiça. Em meio às brincadeiras da infância, consegue tempo para fazer lives nas redes sociais sobre direito, principalmente o penal

Lorena Pacheco
postado em 18/08/2020 22:29
 (foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)

“O concurseiro mais novo do Brasil”! O título é bem propício, afinal, Otavio Ferreira de Brito, tem apenas 11 anos. O pequeno morador de Águas Claras tem líquido e certo na cabeça que será promotor de Justiça. Mas não fica só na vontade, não. Quem acompanha Otavio, em seu perfil no Instagram (@otavionapromotoria), sabe que ele estuda, e muito, direito. Melhor ainda: acaba ensinando o que aprende em suas lives nas redes sociais.

Otavio é arrojado. Entrevista, ao vivo, profissionais da área do direito para saber mais sobre suas carreiras e ajuda seus quase mil seguidores com dicas para concursos públicos. A lista de convidados é extensa e inclui cargos como delegada, professores, juiz, agente, defensora e promotora.

O desejo pela carreira jurídica veio do exemplo do pai, Miqueias Ferreira, soldado da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), que também faz graduação em direito e estuda para concursos públicos. “Meu filho começou com essa ideia frequentando minhas aulas na faculdade de vez em quando, via meus livros e se interessou pelo assunto. Daí, expliquei para ele o trabalho de um promotor e ele começou a ler textos sobre, até artigos jurídicos. Otavio fez buscas de perfis da carreira na internet e começou a seguir nas redes sociais promotores e juízes, especialmente o promotor e professor de direito penal Rogério Sanches Cunha, de São Paulo. A filha pequena do promotor, Sophia, também faz lives explicando direito, então ele (Otávio) se inspirou.”

A partir dos 8 anos, Otavio começou a se dedicar aos estudos para prestar concurso público e ser promotor de Justiça no futuro. Mas nem sempre teve esse sonho: o menino já pensou em ser youtuber, cantor, ator e médico, como sua irmã mais velha (ele ainda tem uma irmã mais nova, de três anos), mas que agora será promotor “para ajudar o Brasil a ser menos corrupto, fazer justiça, e prender criminosos”, destaca o menino.

“Eu espero incentivar outras crianças e adolescentes a sempre estudar, correr atrás dos seus sonhos e seguir carreiras profissionais como a promotoria, fazer concursos, não só querer ser jogador de futebol, como a maioria, as pessoas precisam ver outras possibilidades”, diz o aspirante a servidor público ao blog Papo de Concurseiro (https://blogs.correiobraziliense.com.br/papodeconcurseiro). Para além dos estudos e do interesse por direito penal, Otavio também posta vários outros aspectos da vida pessoal nas redes, como fotos no parque com a família, tocando violão, divertindo-se com a irmã na praia.

Otavio é fã de direito penal e a maioria de suas dicas são sobre o assunto. Ele demonstra domínio da “linguagem youtuber” de fazer vídeos, interage com os seguidores, sabe fazer aquele joguinho de cintura enquanto o convidado não entra na live, promove seus vídeos, mas não deixa de dar um alô especial quando, por exemplo, sua avó participa nos comentários.

Primeiro “concurso”
E se engana quem pensa que vai demorar para Otavio concorrer a seu primeiro concurso público. Na verdade, isso já aconteceu! No ano passado, ele passou no processo seletivo para ingresso ao Colégio Militar Tiradentes, em Brasília, o qual tem muito orgulho de cursar o sexto ano do Ensino Fundamental. Ele conseguiu ingressar após passar por prova objetiva (com conteúdos de língua portuguesa e matemática), redação, entrevista, teste psicopedagógico, entrega de atestado médico admissional e ficha de saúde.

Segundo ele, apenas alguns amigos sabem de sua vocação e que eles, e os professores, o apoiam. “Acho bem legal essas autoridades todas aceitarem meu convite para as conversas nas lives que faço, é uma super oportunidade de aprender sobre a carreira deles”, comenta orgulhoso.

Segundo sua mãe, Lorena, os estudos sobre direito e as lives no Instagram são um hobby, e que ele faz tudo sem pressão. “A obrigação dele é o estudo, ele faz uma live quando está com tempo livre — nessa quarentena conseguiu fazer mais. Sabemos que hoje a ideia dele é essa, mas, se ele mudar de opinião depois, não tem problema. A gente incentiva, mas a nossa prioridade é a formação do caráter, a criação, a escola e os princípios cristãos. A gente incentiva Otavio a ser promotor, o pai dele corre atrás do que ele precisa, mas começou toda essa história por conta própria. Temos muito orgulho!”

Estrela mirim

Sete horas após a publicação da reportagem de descoberta do aspirante mirim a promotor, no blog Papo de Concurseiro, do site de Concursos do Correio Braziliense, a tag “concurseiro de 11 anos” viralizou na internet, e Otavio passou de 910 seguidores para mais de 4.500! Nas redes sociais, muitas pessoas parabenizaram a iniciativa e desejaram ter tido o mesmo foco e perseverança desde tão cedo, outros acabaram criticando a atitude, argumentando que Otavio estaria “perdendo a infância” ao se dedicar para os estudos de direito e concurso para promotor.

Repercussão

Após a grande repercussão que a reportagem do blog teve com a história do jovem Otavio Brito, uma dúvida surgiu no mundo dos concurseiros: É possível fazer concurso ou assumir cargo público sendo menor de idade? O advogado especialista em concursos públicos Max Kolbe responde ao Correio. Segundo Kolbe, para concorrer a um concurso público de promotoria, Otavio teria de ser bacharel em direito e ter, no mínimo, após a conclusão da graduação, três anos de prática forense. “Ou seja, ele teria de primeiro conseguir entrar na faculdade sem ter concluído regularmente o ensino médio (o que é possível, já ganhamos ações assim); concluir o curso (que dura cinco anos); mais três anos de prática forense. Mas não existe idade mínima para isso. A própria lei que traz a idade mínima de 18 anos.”

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação