EDUCAÇÃO

Segue impasse na rede particular

Após adiamento da audiência de conciliação, Ministério Público do Trabalho e representantes das escolas particulares do DF terão mais tempo para decidir o retorno às aulas presenciais. Uma das datas discutidas para a retomada é 21 de setembro

Caroline Cintra
Thais Umbelino
postado em 20/08/2020 22:49
 (foto: Reprodução)
(foto: Reprodução)

Após mais de 5 horas de debate, representantes do Ministério Público do Trabalho (MPT) e dos sindicatos das escolas particulares do Distrito Federal estenderam a decisão de retomada gradual das aulas presenciais da rede privada para nova audiência, na próxima segunda-feira, às 16h. A intenção é dar mais tempo aos participantes para discutir as propostas apresentadas na reunião. Entre elas, um possível retorno dos alunos da educação infantil e do ensino fundamental 1, em 21 de setembro, e a criação de um comitê, composto pelo GDF e sindicatos, para fiscalização das medidas de segurança nos centros de ensino. As demais séries voltariam com o cronograma da rede pública de ensino, que está suspenso.

As sugestões foram apresentadas em audiência de conciliação on-line, mediada pelo desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região (TRT-10) Pedro Luis Vicentin Foltran. A determinação para a teleconferência veio do corregedor-geral da Justiça do Trabalho, ministro Aloysio Corrêa da Veiga, do Tribunal Superior do Trabalho (TST), após interposição de recurso do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe) na Corregedoria-Geral da Justiça do Trabalho.

Uma série de protocolos, que deve ser seguida pelas escolas, também foi apresentada. Entre eles estão o fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPI) descartáveis aos funcionários, limitação de 50% de contingente de alunos por sala, alternando semana presencial e a distância, garantir testagem PCR, afastamento imediatos de trabalhadores e estudantes com sintomas da covid-19, entre outros. Todos os pontos devem ser apreciados na próxima reunião virtual.

O calendário inicial proposto pelo MPT causou divergência entre o Sinepe e as demais entidades representadas. A data prevista para a retomada da educação infantil e o ensino fundamental 1 foi 28 de setembro. Durante o debate, no entanto, surgiram outras datas. O presidente do Sinepe, Álvaro Domingues, defendeu a necessidade de uma definição sobre o retorno das aulas. “A indecisão faz com que as escolas sofram ainda mais com a crise financeira e que as famílias desistam de manter os filhos matriculados”, alertou. Ele frisou que não defende o retorno total, mas, inicialmente, da educação infantil e do ensino fundamental 1.

Para o presidente do Sindicato dos Professores em Estabelecimentos Particulares de Ensino do DF (Sinproep), Rodrigo de Paula, antes da volta dos estudantes às salas de aula, é preciso assegurar a testagem de todos os funcionários das instituições. “Tenho certeza de que vamos encontrar o melhor caminho para a educação no Distrito Federal. Foram 6 horas de audiência produtivas”, avaliou.

Preparação
Diretor da Escola Pedacinho do Céu, Lúcio Weber defende a escolha dos pais de levarem os filhos à escola ou mantê-los no ensino remoto; por isso, ele é a favor da liberação das aulas presenciais. “Os filhos de profissionais que não podem trabalhar de casa estão ficando em lugares inadequados. Estão indo para shoppings, parques e, neles, existe o risco. As escolas são ambientes controlados, e queremos ser uma opção para as famílias que precisam”, explicou.

Para Fernanda Palma, 41, é possível pensar em um retorno às aulas com a adoção rigorosa das medidas de segurança. “Acho que a questão é particular para cada família, pois a gente não pode obrigar ninguém a ficar em casa ou a sair”, aponta. A bancária entende que a faixa etária das crianças influencia a decisão. “Eu não mandaria a minha filha de 5 anos para a escola, por exemplo, porque acho que ela não tem condições de seguir as regras sanitárias, mas o meu filho de 16 anos, sim”, argumenta. Para a moradora da Asa Sul, o isolamento social também é um fator que prejudica as crianças.

Apesar de defender a educação para o desenvolvimento das crianças, a professora da Secretaria de Saúde Ana Costa, 50 anos, acha precipitada a retomada. “A gente sabe que não é a hora, por uma questão de saúde. A curva de contaminados só cresce e há um aumento no número de mortes”, alegou. Mãe dos gêmeos João e Luis, 14, a educadora defende a necessidade de maior conhecimento da doença. “Não acredito que eles tenham a consciência necessária para a prevenção do vírus e acho que a escola é um ambiente difícil de garantir esse controle”, ressaltou.

Escolas públicas
O retorno das atividades presenciais na rede pública, porém, segue adiado. A decisão foi tomada durante reunião entre o governador Ibaneis Rocha (MDB), o secretário de Educação, Leandro Cruz, e o de Saúde, Francisco Araújo, na última quarta-feira. “Depois de levar em consideração que não abrimos mão do nosso rigor em cumprir todos os protocolos da segurança sanitária nas escolas, depois de avaliar cuidadosamente a curva da pandemia nos últimos dias, depois de ouvir os gestores e as comunidades escolares, decidimos adiar o calendário”, reforçou Leandro.

Assim como as escolas, as creches aguardam autorização para retomar as atividades presenciais. De acordo com a Secretaria de Educação, o atendimento no segmento segue suspenso, em cumprimento à decisão judicial. Diretora do Colégio Bambini, no Jardim Botânico, Renata Rebouças aguarda uma data para receber os alunos. Ela contou que todos os cuidados estão sendo tomados para a volta. Entre as principais medidas estão tarefas ao ar livre. Além disso, os professores passaram por treinamentos para orientar as crianças. “Todo mundo está com vontade de voltar. Os pais estão pressionando, porque precisam. As crianças estão muito tempo em casa e precisam de estímulo cognitivo correto”, disse.

DF tem 2,2 mil vítimas

Ontem, 1.997 pessoas testaram positivo para a covid-19 no Distrito Federal, com 52 óbitos. Com os novos registros, a capital chegou a 143.759 infectados e 2,2 mil vítimas. Apesar do avanço da doença, a taxa de ocupação de leitos de unidade de terapia intensiva (UTI) começa a diminuir, mas ainda há fila de espera por vaga.

Do total de mortes, 2.007 são de moradores do DF e 193, de pessoas que viviam em outras unidades da Federação, mas morreram em hospitais locais. Desde ontem, a Secretaria de Saúde adota uma nova metodologia para a divulgação dos dados. A pasta deixou de apresentar detalhes sobre os óbitos. Por isso, não há informações sobre as vítimas, como idade, cidade e se tinham comorbidades — outras doenças que agravam os sintomas da covid-19.

A pasta, entretanto, informou que, das 52 novas mortes computadas, oito ocorreram ontem. Quanto aos recuperados, 124.876 pacientes (86,9% do total) superaram o novo coronavírus; portanto, há 16.883 casos considerados ativos. Ceilândia, a região administrativa mais populosa do Distrito Federal, continua em primeiro lugar do ranking de incidência da covid-19 na capital. Ao todo, 17.090 pessoas testaram positivo para a doença na cidade. Em segundo lugar, estão Plano Piloto, com 11.601 notificações, e Taguatinga, com 11.030.

Desde o início da pandemia, que começou em março no Distrito Federal, uma das maiores preocupações do sistema de saúde é a taxa de ocupação dos leitos de UTI exclusivos para pacientes da covid-19. Entretanto, com a abertura de leitos, não houve sobrecarga. No sistema público, 70% das UTIs estão preenchidas. No total, são 500 internações para 739 vagas. Na rede privada, a taxa de ocupação chega a 92,5%: são 249 pacientes e 275 leitos disponíveis. Entretanto, há 13 pessoas, com suspeita ou confirmação da doença, na fila de espera. Dessas, quatro encontram-se em hospitais e nove aguardam entrada.

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