Crônica da Cidade

Para não enlouquecer

Severino Francisco
postado em 20/08/2020 22:58

Eu acho que, durante a pandemia, nós temos dois deveres essenciais: sermos solidários e mantermos a sanidade. E sem uma coisa não alcançaremos a outra. Ouço muitas histórias de gente que está deprimida, desequilibrada ou perturbada.
Cada um tem de saber o que lhe agrada e lhe espairece para manter a sanidade. Pode ser caminhada, tai chi, malhação em casa, meditação, prece ou leitura. Percebi que a situação de pandemia pode nos revelar o que há de melhor e o que há de pior em nós.

De minha parte, faço um esforço descomunal para que revele o que há de melhor em mim. Tenho o privilégio de morar em uma casa simples, mas ampla e agradável, próxima a uma mata cerrada. Só contemplar o quintal pela porta de vidro já enleva, acalma e descansa.
Falei isso para uma amiga, mas ela entende que quem mora no Plano Piloto em apartamento também é favorecido. Basta abrir a janela ou descer, pois estará permeado pela arborização e pelo arejamento de uma cidade-parque. É um bem público, ao alcance de todos.

Moro em um condomínio horizontal, próximo a uma mata. E uma atividade que tem me ajudado a atravessar esses dias difíceis é a de cuidar das plantas. Contratei um jardineiro, o Zé Vieira, para dar uma geral uma vez por mês. Ele me trouxe de presente e plantou uma muda da espécie chamada de Onze Horas, que me dá muitas pequenas alegrias.

Ela tem uma peculiaridade que se torna, a meus olhos, um pequeno milagre: durante a noite, fecha as pétalas com um recato de mulher. Porém, com o sol a pino, as flores esplendem com extraordinário fulgor. Nesse período de estio, estão ressecadas, encolhidas e desalentadas. Espero o inverno para que ela se renove e eu faça várias mudas que prometi a amigas e amigos.

Há um mês, Zé Viera observou uma azaléa castigada pelo sol a pino e alertou, com a linguagem sem rodeios e crua do povo: “É preciso aguar duas vezes por dia, senão ela morre.”

Tomei para mim a responsabilidade pela vida daquela planta e passei a regar a azaléa de maneira intensiva. Todos os dias, ao acordar, ia observá-la na tentativa de flagrar alguma mudança. No início, permaneceu ressequida, com aparência de quase morta. Mas, passadas algumas semanas, ela começou a apresentar os primeiros sinais de reverdecimento.

Lentamente, renasceu. Agora, está plena de viço, embora sempre sob a ameaça das formigas. Isso me deu uma fugaz alegria. É, assim, caros leitores, que, em meio à tragédia da pandemia e à irresponsabilidade dos governantes, graças às plantas, aparentemente, não enlouqueci.

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