Feminicídio

Barbárie no Sol Nascente

Crime aconteceu na madrugada de ontem. Sônia Miranda Luz, 35 anos, deixa dois filhos pequenos. Após degolar e matar a vítima, o companheiro dela postou imagens do corpo em rede social e tentou se matar

Tainá Seixas
Jéssica Eufrásio
postado em 20/08/2020 23:00
 (foto: Facebook/Reprodução)
(foto: Facebook/Reprodução)

O Distrito Federal registrou mais um feminicídio na madrugada de ontem, o oitavo neste ano. Sônia Miranda Luz, 35 anos, foi assassinada pelo companheiro, Izidio Neto Simão dos Santos, de 34 anos. Eles moravam juntos, no Sol Nascente, desde março, quando Izidio veio do Pará para o Distrito Federal. O agressor degolou Sônia com uma faca e tentou se matar em seguida. Após o crime, ele postou a imagem do corpo da vítima no Instagram e ligou para o sobrinho, informando que havia matado Sônia.

O familiar acionou a Polícia Militar, mas, ao chegar no local crime, os policiais encontraram a mulher sem vida, em um sofá da sala de estar. O agressor estava sentado, com a faca utilizada no crime em uma mão, e o telefone celular em outra. O Corpo de Bombeiros também foi mobilizado para prestar socorro a ele, que estava em estado grave, com duas perfurações no pescoço, uma no tórax e duas lesões na região abdominal. Ele foi encaminhado ao Hospital Regional de Ceilândia consciente, desorientado e estável, onde passou por cirurgia e segue internado.

Izidio Neto Simão dos Santos foi preso em flagrante pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) pelo crime de feminicídio. O agressor não tem passagens anteriores pela polícia. No hospital, ele recebeu atendimento médico sob escolta policial. A pena para feminicídio é de 12 a 30 anos de prisão.

Segundo a investigação, o casal havia voltado de uma confraternização familiar na noite do crime. À polícia, familiares relataram que Izidio havia mudado de comportamento na última semana, tornando-se depressivo e revelando ciúmes pela companheira. De acordo com a família, o assassino não fazia uso de drogas ilícitas e não consumia bebida alcoólica havia mais de três anos, devido a problemas no fígado.

Ciúmes
“Ele sinalizava estar enciumado, dizendo que a companheira o estaria traindo. Isso indica que ele teria praticado o crime motivado por ciúmes”, explica a delegada Karina Duarte, da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam), da 15ª Delegacia de Polícia de Ceilândia, que investiga o crime.

Natural de Conceição do Araguaia (PA), Sônia morava no Sol Nascente há sete meses. Ela era mãe de dois meninos, um de 13 e o outro de 5 anos. O mais velho morava com o pai, em Goiás, desde o início do ano. O mais novo morava com ela e Izidio no Sol Nascente. Na noite do crime, no entanto, ele havia ficado com familiares.

Sônia era comerciante e trabalhava com irmãos em uma banca de queijos e doces na Feira da Guariroba, em Ceilândia. Com o início da pandemia da covid-19 — e o fechamento de feiras e estabelecimentos comerciais —, ela retornou à cidade natal, a mesma do ex-companheiro, e o trouxe ao DF para morar com ela.

Na noite do crime, houve uma festa de aniversário na vizinhança. Com o som alto, a maior parte dos moradores não escutou nenhum barulho vindo da casa de Sônia. Vizinha da vítima, Margarida do Nascimento Ferreira, 46 anos, chegou em casa por volta das 22h. Uma hora depois, ela escutou gritos, mas acreditou que vinham da festa dos vizinhos. “Ela era uma pessoa trabalhadora. Estou abalada e muito triste, porque a gente não quer isso para ninguém”, desabafa Margarida.

Violência
Para a assessora técnica do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFemea) Masra de Abreu, o país passa por um momento o qual ela chama de “pandemia de violência contra a mulher”. “O combate a esse problema sistêmico necessita de uma gama de serviços públicos, desde a prevenção ao acolhimento, e temos percebido, há alguns anos, o definhamento deles. Com a pandemia da covid-19, isso se acentuou em velocidade mais rápida, e os casos explodiram”, afirma.

Masra defende o investimento em sistemas para atendimento adequado das vítimas, além da criação de programas com orçamento comprometido para o combate à violência doméstica. “Esse período de pandemia acentua essa questão de forma muito cruel. Quando o coronavírus enclausurou a maioria da população dentro de casa, fez com que grande parte das mulheres ficasse confinada com os agressores delas. E a falta de serviços públicos é gritante. Muitas vezes, só há uma ação quando o caso chegou a um nível que fez a própria comunidade denunciar”, completa.

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