Coronavírus

Sozinho contra o coronavírus: conheça quem teve que enfrentar a doença totalmente isolado

Conheça histórias de pessoas que tiveram de enfrentar a covid-19 totalmente isoladas, aprendendo a lidar com a saudade da rotina, dos familiares e dos amigos. Especialistas em saúde ajudam a lidar com os sintomas físicos e emocionais

Thalyta Guerra*
postado em 29/08/2020 06:00
 (foto:           Carlos Vieira/CB/D.A Press                          )
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press )

Angústia, medo, solidão e ansiedade. Esses são alguns dos sentimentos comuns para quem teve que enfrentar o diagnóstico positivo para o novo coronavírus sozinho em isolamento. A covid-19, para os infectados isolados em casa, torna-se mais complicada, pois, além de doentes, a ausência dos familiares e amigos deixa os pacientes fragilizados emocionalmente, fazendo com que o isolamento seja extremamente doloroso.

É o caso do fisioterapeuta intensivista Raphael Miguel, 36 anos. Para ele, ficar sozinho foi a pior parte do processo de tratamento. Pai de um bebê de 1 ano e 10 meses, Raphael viu a esposa e o filho saírem de casa para que ele pudesse se curar do vírus. O medo e a incerteza foram sentidos durante quase 15 dias trancado em um apartamento. “Eu fui o primeiro a contrair o novo coronavírus no hospital em que trabalho. Quando peguei, em abril, a doença ainda causava mais medo nas pessoas. O diagnóstico positivo era mais alarmante e preocupante por ser uma doença nova, achávamos que só existiam os casos passados na televisão”, conta.

A angústia e a solidão vieram à tona para um pai que faz questão de ser presente para o filho. Os primeiros dias de isolamento foram os mais devastadores. “Seis dias deitado numa cama. Muita dor no corpo e cansaço muscular grande”, relata. Mas, de acordo com Raphael, nada se compara com a dor mental causada pela incerteza sobre a evolução dos sintomas. “Eu chorava de medo, medo de a doença se complicar, será que vou viver? Eu não sabia o que poderia acontecer nos próximos dias”, lembra.

Acostumado a cuidar de outras pessoas, o fisioterapeuta viu-se solitário em uma situação que nunca vivenciou antes. “Quando estamos doentes, é normal ficarmos frágeis emocionalmente. E, nessa situação, eu não tinha alguém ali para segurar a minha mão, olhar no meu olho, me ajudar a fazer coisas simples, como tomar banho”, lembra.

Na tentativa de amenizar a saudade e a dor emocional, Raphael buscou as redes sociais para fazer chamadas de vídeo com a família, assistir a filmes e séries. Mas, ele conta que assistir a um noticiário o deixava mais apreensivo em relação à covid-19. “Ligava a tevê e só se falava sobre a doença, assim, eu ficava com mais medo ainda. Vencia, um, dois, três dias... Mas escutava nos noticiários que a piora viria no décimo dia, por exemplo. Era assustador.”

Ele conta que a dúvida sobre a evolução dos sintomas o deixava ainda mais apreensivo. Para Raphael, o medo esteve presente a todo momento. O de morrer era o pior deles. “Em 14 dias, muita água passa embaixo da ponte. Eu tive medo. Medo do meu filho não entender a minha ausência. Medo do futuro”, desabafa.

O pensamento positivo e a força de vontade de ficar bem fizeram Raphael acordar diferente no oitavo dia de quarentena. “Eu fui reagir dias depois, acordei e escolhi que tinha vontade de viver e que ficaria bem. Não queria mais saber se estava mal, coloquei na minha cabeça que só queria melhorar e comecei a me exercitar dentro do apartamento. Com esse pensamento de melhora, meu sistema imunológico começou a responder para a recuperação.”

A psicóloga Josiane Pelles, especialista em análise transacional e renascimento, alerta que o convívio social, mesmo que distante, é o que ajuda a amenizar a dor psicológica trazida pelo afastamento dos amigos e familiares. “O mais interessante é manter o contato social, explorar todas essas redes sociais e aproveitar os recursos que a tecnologia oferece para aproximar as pessoas”, aconselha.

Segundo ela, o ser humano tende a querer ficar isolado quando está doente. Assim, a pessoa fica mais quieta e vulnerável emocionalmente. “Nós, seres humanos, temos o registro primitivo de nos afastarmos do bando quando não estamos bem. Assim, achamos que corremos risco de morrer o que pode causar medo, ansiedade e depressão em alguns casos mais complicados”, explica.

Ela ressalta a importância do contato social para influenciar nas respostas imunológicas do corpo. “Também temos uma memória primitiva de, se estamos incluídos no bando, nos sentimos seguros e confortáveis. Por isso, o fortalecimento dos vínculos afetivos, neste momento, é muito importante. Assim, se um lado está sendo atendido, protegido, acolhido, o corpo também pode se manifestar positivamente”, compara. “O mais adequado é a pessoa não se retrair, mas forçar-se a fazer ligações, mandar mensagens. Isso vai trazer mais segurança e otimismo para o doente”, afirma Josiane.

Respeito

A dúvida sobre possíveis sintomas da covid-19 também deixou o administrador Luiz Gustavo, 35, assustado. Com a família morando em Anápolis (GO), Gustavo enfrentou 14 dias complicados. “Nos três primeiros dias, fiquei muito mal. Sentia febre de 39ºC, falta de ar e cansaço. No terceiro, não conseguia levantar da cama para ir à cozinha”, afirma. Além de todo esse sofrimento, a dor emocional resumia-se na dúvida. “Será que eu estou bem mesmo? O que tenho que fazer caso piore?” descreve o pensamento.

Segundo a responsável técnica distrital (RTD) de infectologia da Secretaria de Saúde, Lívia Vanessa Ribeiro, é fundamental que os pacientes que estão sozinhos fiquem atentos aos sintomas, como dor de garganta, tosse, coriza, obstrução nasal, perda do olfato e do paladar, diarreia e dores de cabeça. Além disso, ela aconselha a estar sempre atento aos níveis de oxigênio no sangue. “Quem tiver condições pode comprar um oxímetro digital. Se (o nível de oxigênio) estiver abaixo de 94, a pessoa deve procurar imediatamente uma unidade de saúde”, aconselha.

*Estagiária sob supervisão de José Carlos Vieira


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