ARTE

Artistas contam lições tiradas até agora do isolamento social

Confira depoimentos de artistas sobre as lições tiradas até agora do período de isolamento social por causa da covid-19

Irlam Rocha Lima
postado em 30/08/2020 07:00

Cotidiano, isolamento social, rotina, readequação, resiliência, natureza, planeta, ser humano e, claro, esperança são expressões contidas nos depoimentos de seis representantes das artes brasilienses em resposta à questão proposta pelo Correio, relacionada aos tempos de agora: que lições tirou com a pandemia até agora?

Veja como refletiram sobre o assunto o pianista e subprocurador da República Antonio Carlos Bigonha, a cineasta e professora Dácia Ibiapina, o ator e diretor de teatro Sérgio Sartório, a bailarina Giselle Rodrigues, o poeta e ecologista Nicolas Behr e a artista plástica Adriana Vignoli.

Sérgio Sartório

 (foto: Alexandre Magno/Divulgação)
crédito: Alexandre Magno/Divulgação

Ator e diretor de teatro — “A palavra quarentena nos remete diretamente ao período de 40 dias. Pelo menos foi o que veio à minha cabeça quando soube que precisaríamos viver esta que estamos vivendo. Lá se vão cinco meses. Quarenta dias parecia muito, soava difícil e até sofrido. O que fica marcado em mim de forma indelével é esse encontro com o tempo, com a paciência, com a resiliência, com os afetos, consigo mesmo.”

Antonio Carlos Bigonha

 (foto: Arquivo Pessoal)
crédito: Arquivo Pessoal

Pianista e subprocurador-geral da República — “A pandemia da covid-19 trouxe para mim, muitas reflexões. Inicialmente, me impôs, de forma dramática, a questão da finitude. Somos habituados à ilusão da imortalidade e à iminência do fim, pela ação de um minúsculo vírus, me fez, mais uma vez, constatar a pequenez da raça humana ante todas as coisas. Passado esse primeiro pânico, a pandemia me impôs uma vida exclusivamente doméstica, com restrição de todas as atividades pessoais e profissionais aos limites físicos de nossa casa. Isto foi, paradoxalmente, bom, porque comecei a ter um contato maior com meus filhos e minha mulher e passamos todos por uma readequação espacial dentro da casa. Passados quase seis meses de confinamento, os meninos voltaram às aulas na UnB, pelo computador, e temos a sensação de que algo voltou à antiga rotina. Eu e Márcia, minha esposa, assessora do TRF-1, continuamos nosso trabalho remotamente, em nossos escritórios virtuais e a vida vai seguindo na companhia dos quatro gatos resgatados da rua e ao som do piano, que se revelou, mais uma vez, um fiel companheiro. Fazemos, agora, todas as refeições conjuntamente e com mais tempo. Temos refletido muito sobre o futuro de nosso país e sobre a nossa incapacidade de formular um projeto nacional de combate à covid-19, o que nos coloca em posição de atraso em relação às nações mais desenvolvidas. E sofrendo a cada morte de cidadãos em decorrência da conduta errática de nossas autoridades sanitárias.”

Dácia Ibiapina

 (foto: Arquivo Pessoal)
crédito: Arquivo Pessoal

Cineasta e professora — “A epidemia da covid-19 me pegou com um filme pronto — Cadê Edson?, sobre os movimentos populares em defesa da moradia, apresentando o Estado contra os sem teto na capital do Brasil. O filme estreou na Mostra de Tiradentes em janeiro/2020. Seria o momento de divulgação e de inscrevê-lo em festivais e mostras de cinema nacionais e internacionais. Com a pandemia, essa etapa ficou bem mais difícil. Devido ao isolamento social, tenho ficado em casa. Cuido dos afazeres domésticos e sigo com meu trabalho de divulgação e de pesquisas com vistas a futuros filmes. Estou dividindo o cotidiano com meu filho Marcos, de 28 anos. Ainda bem! Como diz um amigo: “Sozinho ninguém aguenta”. Outra demanda do momento é a militância contra o desmonte das políticas públicas de incentivo e fomento ao cinema e ao audiovisual brasileiros, tanto no âmbito distrital quanto nacional. Localmente, nossa luta é pela continuidade dos editais do FAC. Além disso, tem o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de 2020, ainda cercado de incertezas. Como documentarista, sinto falta de interagir presencialmente com as pessoas. Sinto falta do olho no olho.”

Giselle Rodrigues

 (foto:               Carlos Vieira/CB/D.A Press                      )
crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press

Bailarina — “Tenho sentido que o momento agora é de escuta. De escuta em todos os sentidos: do outro, do corpo, do coletivo, dos movimentos do mundo, da natureza. Tem que parar para algum ar renovado entrar, se é que isso é possível. Sinto que é um momento de silenciar-se, de diminuir a velocidade das coisas para poder ter a capacidade de discernir o que vem acontecendo e nutrir forças para modificar nossa relação com o mundo. Esse furacão que estamos vivenciando, na verdade, já se pronunciava há muito tempo, solicitando a gente a olhar, e não só olhar, mas agir, de maneira a transformar nosso modo de vida, de existência nesse planeta. Já tive várias fases neste período, de tristeza extrema ao ver tanto sofrimento de quem mais precisa, que está completamente desamparado. De raiva desse quadro político brasileiro horroroso, com governantes inescrupulosos, descrença total na humanidade, até o desejo de aprender a amar e fazer muito bem a quem precisa, como forma de manter viva uma esperança na boa transformação das coisas, ou de, ao menos, me tornar um ser humano melhor.”

Nicolas Behr

 (foto: Bento Viana/Divulgacao)
crédito: Bento Viana/Divulgacao

Poeta e ecologista — “Antes da quarentena, dizia que não tinha tempo para nada. Agora, me pergunto, o que faço com todo esse tempo de sobra que tenho? Descobri, nesta fase de recolhimento, que participava de eventos, lançamentos de livros, abertura de exposições, por pura obrigação social. Quando, e se um dia, tudo voltar ao normal, vou pensar duas ou três vezes antes de sair de casa. Por outro lado, a pandemia mudou a cara do planeta. Desaceleramos e o planeta aproveitou para dar uma respirada. Vemos como a natureza voltou a florescer em tantos lugares sem o impacto da presença do ser humano. Já mudamos, não somos mais os mesmos. A pandemia já nos deu várias lições.”

Adriana Vignoli

 (foto: Jean Peixoto/Divulgação)
crédito: Jean Peixoto/Divulgação

Artista plástica — “O trabalho introspectivo e solitário do artista plástico que atua em ateliê, como o meu caso, facilitou o processo de adaptação da mudança do estilo de vida durante a quarentena. Por sorte, meu ateliê fica em casa, o que colaborou para o isolamento social. Casa, filho, escola, trabalho, afazeres domésticos... são muitas as relações afetivas e atividades a serem dedicadas durante o cotidiano e, quanto mais harmoniosas estiverem em momentos como este, melhor. Encaro como um período tenso e, a cada dia, uma notícia de morte próxima é anunciada. Vejo o quanto a política nacional não foi exemplar e colaborou para mortes desnecessárias. Apesar de me sentir acolhida em casa, vivemos um momento de muito desamparo.”

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