Crônica da Cidade

por Mariana Niederauer mariananiederauer.df@dabr.com.br (cartas: SIG, Quadra 2, Lote 340 / CEP 70.610-901)

Correio Braziliense
postado em 30/08/2020 21:57

O exemplo de um super-herói

Viver na presença de um apoio, ter uma fonte de inspiração, a certeza de um porto seguro. As representações que construímos e nas quais nos espelhamos para sustentar nossos dias e perseguir nossos sonhos têm pilares na ficção e no mundo real. São heróis dos filmes, dos livros que, de tanta grandeza, se transportam para seres humanos de carne e osso.

O mundo perdeu uma dessas referências. A morte precoce de Chadwick Boseman deixou um vazio do tamanho da transformação que seus personagens provocaram. Homem de beleza inebriante, interpretou outros icônicos negros no cinema, nomes do esporte e da música. Tudo para ele mesmo tornar-se um ídolo majestoso, que recusava o rótulo e a rotina de celebridade.

Pode parecer pouco — e é realmente uma gota no oceano de desigualdades, violência e preconceito diários —, mas a figura do homem negro, belo, forte e poderoso, rei de um país próspero e de preocupação humanitária, inspirou meninos e meninas no mundo inteiro. Aqueles que se identificam em razão da cor da pele emocionam-se quando veem na tela um espelho e vislumbram o sonho. Os demais começam a enxergar as coisas a partir de uma nova perspectiva, de diversidade e respeito, essencial a uma sociedade plural.

A representação é ainda mais emblemática por alçar o personagem ao grupo de super-heróis de uma das maiores editoras de história em quadrinho do mundo. Não é detalhe. É essência. Pantera Negra não só concorreu a Oscar de melhor filme como registrou bilheteria bilionária. Se as marcas culturais que a produção permitiu são indeléveis, o sucesso comercial também desmente falsas retóricas que funcionam como desculpas para priorizar valores e representações de uma hegemonia branca e heteronormativa.

A morte do agora eterno Pantera Negra coincidiu com o aniversário da Grande Marcha de Martin Luther King contra o racismo. Martin Luther King III, filho do pacifista, homenageou o ator. “Ele também foi um super-herói para muitos”, escreveu, em sua conta no Twitter. Lewis Hamilton, único negro na Fórmula 1, dedicou a pole position do dia — que o coloca próximo de mais uma vez fazer história no esporte — ao artista.

Todos nós precisamos de exemplos em busca de nossas Wakandas, liderados por reis e rainhas focados na defesa dos direitos humanos e que vislumbrem na tecnologia maneiras de se perseguir essa igualdade e não de agravá-las. Obrigada por contribuir na construção desse legado. Descanse em paz, Chadwick.

 

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