Coronavírus

Covid-19: Casos caem no DF em agosto em comparação com julho; especialistas veem cenário delicado

Especialistas alertam que, mesmo com a queda tímida no número de casos, o momento no Distrito Federal não é de tranquilidade.O descaso com os protocolos de segurança e a aglomeração de pessoas podem causar novo aumento da doença

Alexandre de Paula
Walder Galvão
postado em 02/09/2020 06:00 / atualizado em 02/09/2020 06:31
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Mesmo com a pequena queda no número de casos totais confirmados da covid-19 no Distrito Federal, em agosto com relação a julho, a situação da pandemia na capital é delicada, segundo especialistas ouvidos pelo Correio. O cenário atual indica que a curva deve começar a cair lentamente a partir de agora, mas o total de casos é alto e o afrouxamento nas medidas de contenção por parte da população e do governo podem provocar nova aceleração ou permanência dos números em patamar elevado por muito tempo, alertam.

Breno Adaid, professor do Centro Universitário Iesb, doutor em administração e especialista em análises de dados e quantitativos estatísticos, destaca que o declínio nos números de infecções pode gerar falsa sensação de tranquilidade na população. “Com certeza, ainda é momento de atenção. Se as pessoas não tomarem cuidado, podemos ter segunda onda de crescimento. Você tem muita gente que não pegou e o potencial de aceleração continua grande. Essa é uma batalha que só se ganha quando acaba de fato, porque o descuido pode levar a novo crescimento”, ressalta.

Segundo Adaid, a tendência é de que os números de casos em setembro devam ficar abaixo dos totais de julho e agosto, que tiveram 57.074 e 55.750, respectivamente. “Isso pode ser influenciado pelo retorno dos testes em drive-thru. Se, de fato, voltarem, o número de casos tende a subir.” No caso das mortes, a tendência é de pequena queda em relação a agosto, o pior mês até agora com 1.052 óbitos.

O epidemiologista e professor do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB) Jonas Brant explica que a avaliação da média móvel de casos do novo coronavírus está estável no DF. Além disso, a taxa de reprodução do vírus está próxima a um, ou seja, uma pessoa transmite apenas para outra. Entretanto, segundo o especialista, ainda há aspectos que não são possíveis de serem avaliados, como a capacidade de testagem do governo.

“Na região oeste (Brazlândia e Ceilândia), a letalidade é quase o dobro da região central (Plano Piloto, Sudoeste/Octogonal, Cruzeiro, lagos Sul e Norte, e Varjão). Possivelmente, isso acontece pela diferença na capacidade de testagem”, enfatiza. De acordo com o especialista, os pesquisadores não têm acesso a detalhes sobre a realização de exames, por isso, há dificuldade de tirar conclusões mais concretas. “Para que a gente possa entender esse platô e as suas nuances, ou se ele está caindo, é preciso ter acesso a dados sobre testagem”, frisa.

Em relação ao cenário atual, Jonas considera que o quadro ainda é muito grave. “A gente imaginava ver uma redução maior, porém, os números são alarmantes. Enquanto o Estado e a sociedade não se organizarem para lançar mão de esforços, a situação ficará dessa forma”, adverte. De acordo com ele, para que a quantidade de casos comece a cair de forma acentuada, é necessário fortalecer a atenção primária, identificar os casos confirmados e os contatos deles. “Sem essas ações, não vamos ter uma redução efetiva do número de diagnósticos. Vamos viver, continuamente, em um cenário de platô”, alerta. Além disso, ele destaca que a imunidade rebanho — quando o vírus atinge grande parte da população e não tem mais espaço para se propagar — é algo que talvez não seja atingido, pela possibilidade de reinfecção.

Incerteza

O Correio solicitou uma fonte à Secretaria de Saúde para falar sobre o cenário atual da pandemia no DF. A pasta, entretanto, respondeu por meio de nota oficial. Segundo a secretaria, o número de casos entre a segunda quinzena de julho e a primeira quinzena de agosto não apresentou aumento expressivo pela análise da média móvel de dados por data do início dos sintomas. A pasta informa, ainda, que os dados da segunda quinzena do mês passado são preliminares e, portanto, não é possível afirmar se o padrão de estabilidade permanece ou se houve redução. Segundo a pasta, medidas como ampliação de leitos, testagem em massa e fiscalização são realizadas desde o início da pandemia para controlar o avanço da covid no DF.

A secretaria, também, destaca que a recomendação é para que a população continue atenta aos cuidados e às orientações sanitárias para evitar o contágio. “O que os especialistas apontam como principais medidas para evitar o contágio é o uso de máscara, higienização frequente das mãos e o distanciamento social, evitando aglomerações”, diz o texto.

Cuidados

Brenda Silva, 24 anos, mora em Taguatinga e trabalha como ambulante na Rodoviária do Plano Piloto há 1 ano. Todos os dias ela enfrenta ônibus lotados para se deslocar ao local de trabalho. Em meio ao aglomerado de pessoas, Brenda tenta se prevenir da doença. “Em casa, só moramos eu e minha mãe. Temo muito pela saúde dela. É impossível não sentir medo, mas não tenho outra opção a não ser trabalhar”, diz.

Por outro lado, a doméstica aposentada Maria Clara Silva, 69, evita ao máximo sair da residência onde mora, em Ceilândia — cidade onde há o maior número de infectados e de mortos por covid-19. Para se proteger, só se desloca em casos essenciais, como ir ao mercado ou ao médico. “Eu me preocupo muito com essa doença que parece não ter fim. Quando tenho de ir a algum lugar, volto para casa e tomo banho, limpo o chão com água sanitária e passo álcool em gel. Estamos passando por um momento delicado, mas tenho fé de que isso (coronavírus) não demore muito”, ressalta.

Mesmo não sendo um profissional da saúde, Raimundo Nonato, 45, está na linha de frente no combate ao coronavírus. O cobrador e morador de Planaltina não deixou de trabalhar desde o início da pandemia, e enfrenta, todos os dias, os desafios do transporte público. “É preocupante. O medo é de contaminar minha esposa e meus dois filhos, de 17 e 19 anos. O bom é que a empresa fornece os equipamentos necessários de higienização, como o álcool em gel. Então, toda hora que eu recebo dinheiro, higienizo as mãos”, conta.

  • "Eu me preocupo muito com essa doença que parece não ter fim" - Maria Clara Silva, 69 anos, aposentada Foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press
  • "É impossível não sentir medo, mas não tenho outra opção a não ser trabalhar" - Brenda Silva, 24 anos, ambulante Foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press
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