Crônica da Cidade

Notícia dos ipês

Severino Francisco
postado em 03/09/2020 21:36

Não sei se vocês tiveram melhor sorte, mas, quanto a mim, a única notícia boa que consegui captar da Esplanada dos Ministérios é a da chegada dos ipês-amarelos. De resto, só detecto descaso com a saúde, destruição de direitos e decisões contra o interesse público. Mas, com a simples presença, os ipês trazem um sinal de felicidade.
Passei por lá de carro e os ipês esplendiam com todo o fulgor. É preciso armar-se de câmaras de celular, rapidamente, para registrar o flagrante, pois a beleza deles é fugaz. A floração só dura de 10 a 15 dias. É uma das experiências mais intensas de êxtase estético para os que habitam este pedaço.
Embora nome seja masculino, o ipê tem natureza feminina. Logo, as flores começam a cair com delicadeza. É como se a árvore se despisse, voluptuosamente, e deixasse um tapete floral na grama ressequida.
Clarice Lispector esteve em Brasília na década de 1970 e esnobou completamente as árvores da cidade. Escreveu que elas eram mirradinhas e pareciam ser de plástico. Eu gostaria que ela visitasse a cidade no tempo do estio para experimentar a visão do esplendor, que ela entreviu em outros aspectos de Brasília.
Quando vejo o fulgor dos ipês-amarelos, sempre me lembro de um poema de Manoel de Barros: “Um girassol se apropriou de Deus/Foi em Van Gogh”.
É um sinal de pertencimento inalienável, pois o ipê é um patrimônio coletivo, basta abrir os olhos para se deleitar. Seria possível até constituir um calendário floral com eles. A fugacidade da beleza é uma de suas marcas distintivas. Parece que, em um piscar de olhos, ela pode se perder.
Embora sejam nativos do cerrado, os ipês foram plantados no Plano Piloto pela Novacap, que faz pesquisas em um raio de 500km no Distrito Federal, em Goiás e em Minas Gerais, em busca de espécies. As sementes são recolhidas e plantadas em viveiro para germinação das mudas.
Se ocorresse em outro período, o esplendor dos ipês poderia passar despercebido, mas a floração ganha mais realce porque acontece no período da seca mais extrema, quando o planalto se crispa, a vegetação se eriça, se arma em riste e se impregna de uma natureza feroz de deserto.
Muda a nossa disposição, nem que seja por alguns segundos, mas com efeito que pode se estender pelo dia inteiro. Mais do que nunca, nós precisamos, também, da beleza para a nossa sanidade mental. Talvez porque, como disse Sthendal, a beleza é uma promessa de felicidade.

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