ESPECIAL

O cerrado resiste: produtores ressaltam importância da agricultura sustentável

Na primeira reportagem da série especial sobre o bioma em que vivemos, pequenos agricultores falam das possibilidades de produtividade sem causar fortes impactos à vegetação da região que, infelizmente, teve mais de 50% da área desmatada

Ana Maria da Silva*
postado em 06/09/2020 07:00 / atualizado em 06/09/2020 09:37
 (foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)

Conhecido como a savana mais rica do mundo e segundo maior bioma brasileiro em extensão, o cerrado ocupa, aproximadamente, 25% do território nacional. No Distrito Federal, o bioma domina: com uma área de 5.779 quilômetros quadrados, a capital do país está na região nuclear do cerrado. Os dados são do Plano Recupera Cerrado, avaliação realizada em 2017 pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente do DF (Sema-DF).

Mas tal diversidade corre sérios riscos em um futuro bem próximo. Segundo o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil, elaborado pelo MapBiomas, em 2019 o cerrado perdeu 408.646 hectares de vegetação nativa de janeiro a dezembro, ou 33,5% do total da área. Juntos, Amazônia e cerrado concentraram 96,7% das áreas desmatadas em todo o território nacional em 2019. No DF, o desmatamento equivale a 0,13% da área, ou 357,31 quilômetros quadrados. Os dados são do projeto Prodes Cerrado, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia.

Etimologicamente, a palavra cerrado faz referência a qualidades como fechado ou denso. No entanto, a realidade tem mostrado que o bioma está cada vez mais devastado. Segundo a 12ª edição do Relatório Planeta Vivo — um estudo bianual da rede World Wide Fund for Nature (WWF), que retrata o estado da vida em nosso planeta, o bioma já perdeu metade da vegetação nativa. Mas, em meio a 50% de área devastada, o cerrado resiste.

Com uma beleza diferenciada, importância, características e peculiaridades, o cerrado foi considerado, em 1998, um hotspot mundial de biodiversidade, conceito este que define áreas com grande variedade mas que apresentam alto grau de ameaça. A situação é tão alarmante que essa riqueza — quase — perdida ganhará espaço nas páginas do Correio Braziliense em nova série de reportagens, que visa apresentar aos cidadãos da capital federal um novo olhar que revela a exuberância e fragilidade do cerrado, além de propor soluções para a convivência harmônica entre o homem e a natureza.

Biodiversidade

“A primeira coisa que precisamos destacar no cerrado são suas características de biodiversidade. Dentre as formações savânicas no mundo, na África e no Brasil, principalmente, o cerrado tem uma diversidade biológica e ecológica mas rica, se comparado com outras áreas no mundo”, ressalta o professor de gestão ao agronegócio e ambiental da Universidade de Brasília (UnB) Antônio de Almeida Nobre Júnior.

De acordo com o professor, as áreas do cerrado são utilizadas, em sua maioria, para fins agropecuários. “A área de desenvolvimento da agricultura é plana, possui solos profundos e, de maneira geral, estão praticamente ocupados com as atividades agropecuárias, pastagens e produção de grãos”, ressalta. Antônio diz que a ocupação do cerrado em termos de agricultura de pastagem abrangeu uma grande área em curto espaço de tempo, modelo não recomendado. “O ritmo de ocupação do que ocorreu no cenário — nós estamos falando em menos de 50 anos — não tem precedentes. É um fenômeno que não se deve repetir na história”, afirma.

Apesar da aceleração da ocupação do solo, o especialista ressalta que o processo demonstra o potencial de produtividade do bioma para a agricultura. “A rapidez de ocupação do cerrado prova também a qualidade e o potencial de produzir grãos, principalmente para exportação, em especial a soja, que representa 50% das exportações brasileiras, além de demonstrar a importância econômica que tem o cerrado para o desenvolvimento da agricultura brasileira”, relata Antônio.

De acordo com o pesquisador, a solução é procurar medidas que causem menos impacto e devastação ao ambiente. “Precisamos ter uma perspectiva histórica. A agricultura vem se desenvolvendo no mundo há mais de 10 mil anos. E essa agricultura moderna, que dos últimos séculos tem seu apogeu na ocupação dos cerrados no século 20”, diz.

Apesar dos aspectos positivos e negativos do fenômeno ocupacional, as agriculturas alternativas se tornaram a saída, conforme explica o professor. “A agricultura tem buscado novos caminhos e eles estão surgindo agora, no século 21. Certamente, no final deste século, vamos perceber uma outra agricultura”, diz. “Hoje, se fala de agricultura sustentável. A solução não é parar de produzir, mas produzir de maneira mais sustentável, com maior rentabilidade e menor impacto negativo, tanto social quanto ambiental”, acrescenta.

Alternativas conscientes como meta

 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press                                    )
crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

“Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável.” Até 2030, essa será uma das 17 metas incluídas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU) para transformar o mundo. No Distrito Federal, essa também se tornou a meta de muitos produtores rurais. É o caso de Afonso Cortes Neto, 33 anos, que buscou novas alternativas sustentáveis para alcançar uma boa produtividade.

Produtor de grãos, entre elas soja, milho, feijão e trigo, Afonso explica que, para alcançar modelos que não agridam o ambiente, fez alterações no manejo da fazenda. Entre elas, optou pela retenção de água, reciclagem de nutrientes, manejo do solo — técnica em que o plantio é efetuado sem o revolvimento do solo, apenas com operações de abertura do sulco para a deposição de sementes e adubos. “No início, é um pouco complicado ajustar os manejos para conseguir fazer produção. Mas temos visto que, com essas práticas de melhoramento, conseguimos crescer as nossas produtividades a cada ano”, garante.

As tecnologias têm sido grandes auxiliadoras. Uma delas é a utilização de drones de mapeamento aéreo. “Por meio deles, coletamos imagens e lançamos em uma plataforma que nos ajuda a administrar os insumos na plantação. Com o mapa da colheita, conseguimos avaliar as correções que são necessárias nessas áreas”, afirma o produtor.

Para Afonso, as medidas adotadas são uma forma de respeito com o ambiente. “Nós sempre pensamos no equilíbrio. Quando trabalhamos com um ambiente mais equilibrado, tudo fica melhor”, acredita. “Sem o cerrado, não conseguimos produzir o que temos. As áreas são muito boas. Temos limitações, mas aprendemos a conviver com elas. A preservação para nós é muito importante, principalmente devido aos recursos hídricos. Se conseguimos respeitar as Áreas de Preservação Permanente (APPs), matas ciliares, rios e as próprias reservas bem conservadas, conseguimos ajudar na captação de água e interagir na agricultura. É extremamente viável integrar as duas coisas. Um ambiente mais equilibrado é bem mais fácil para controlar os fatores”, ressalta o produtor.

De acordo com ele, falta maior compreensão das pessoas com o sistema de sustentabilidade. “Se conseguimos entender a dinâmica do sistema, conseguimos vantagens na produção. Nós trabalhamos com o meio ambiente e não podemos querer controlá-lo. É muito difícil, a natureza está em equilíbrio.”

Reciprocidade

Estima-se que as primeiras formações do cerrado surgiram há 65 bilhões de anos e, devido a isso, é considerado o ecossistema mais antigo do país. Apesar das invasões e destruições, ainda há quem lute para que sua história permaneça viva, por meio de ações de proteção e de relações não agressivas. O produtor rural Joe Valle, 43, é prova viva disso.

Em meio às hortaliças distribuídas no percurso de 100 hectares de terra, uma paixão: a agricultura sustentável. “Eu estava na universidade quando tive contato com a agricultura alternativa — como era chamada na época. Depois que conheci, percebi o respeito às pessoas e ao meio ambiente que gira em torno desse tipo de produção”, afirma.

Adepto do modelo orgânico de alimentação, o produtor explica que a sustentabilidade se faz presente fortemente. “Isso acontece em todos os processos. Desde os consumidores, trabalhadores, e produtores que são desafiados constantemente na busca pela sustentabilidade”, afirma.

“Ser sustentável significa ser economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto. É disso que o mundo precisa, para que possamos perpetuar a nossa espécie. Nós estamos buscando fazer as coisas de forma equilibrada, economicamente, socialmente e ambientalmente”, ressalta Joe. Para ele, a tecnologia, hoje, dá o devido suporte que antes não havia. “Existia um pouco da falácia de que orgânico não consegue alimentar o mundo, mas isso é ultrapassado. Nós temos muita tecnologia, muitas outras formas de fazer. O conhecimento é o principal insumo da agricultura orgânica e da agricultura sustentável”, acredita.

Engenheira agrônoma da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do DF (Emater-DF), Gesinilde Radel Santos explica que, hoje, há uma série de ações que podem ser feitas e que caminham dentro do campo das boas práticas agrícolas. O agrotóxico pode ser utilizado de forma adequada, conhecendo os limites e prazos de carência. Dá para se trabalhar nesse sentido, respeitando a especificação de produto, o período de descanso do solo”, diz. “Há uma série de coisas que devem ser observadas no controle de pragas. Outra ação é o manejo do solo, o uso de terraço, cobertura de solo, plantio direto. Todas essas tecnologias, se empregadas, podem tornar a propriedade muito mais sustentável”, afirma.

Segundo a engenheira agrônoma, o cerrado tem uma riqueza de recursos freáticos e muitas tecnologias têm ajudado o desenvolvimento de certos plantios. “Antigamente mesmo, ninguém imaginava uva no cerrado. Hoje, nós temos a tecnologia para produzir esse alimento”, confirma.
Para Gesinilde, produzir sustentavelmente funciona como uma reação em cadeia. “Começa com o benefício local do produtor, que vai preservar seu solo, sua área, sua água, seu ambiente e, a partir disso, vai se expandindo. Quando o produtor preserva e cuida, o redor dele será impactado. Ele vai deixar um legado para gerações futuras e vai disseminar essas ações a seu redor”, acredita. “É possível ter produtividade sem agressão ao ambiente”, completa.

Integração de culturas

 (foto:        Marcelo Ferreira/CB/D.A Press                             )
crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

A pluralidade do campo possibilitou o produtor rural Alexandre Cenci, 43, a integrar várias culturas no segmento sustentável. Além da produção de grãos, ele explica que trabalha com suinocultura, bovinocultura e ovinocultura de tal forma que todas andem de mãos dadas. “Por exemplo, o resíduo da suinocultura produz uma energia renovada e limpa, uma energia elétrica. Além disso, essa matéria orgânica vai virar um biofertilizante após o tratamento dos biodigestores. Então ali já temos a receita da produção da energia elétrica, e de fertilização do solo para poder plantar os grãos”, explica.

Três pilares são importantes para a produção sustentável, conforme explica o produtor, sendo eles: ambiental, social e econômico. “Eles estão interligadas, um sustenta e integra a outro”, acredita. “Ambientalmente, o gás passa a virar energia. Economicamente, você reduz o seu custo de energia elétrica, de adubação orgânica, e tem um implemento na sua produtividade das lavouras. É possível também aproveitar a energia térmica do motor de geradores para fazer a limpeza dos barracões da suinocultura com água quente, gastando menos água”, ressalta. Por fim, Alexandre diz que socialmente, os funcionários podem trabalhar sobre um ambiente mais adequado.

“Essa integração entre as atividades dão uma condição para o produtor rural e empresário, além de ser mais sustentável a longo prazo. Você pode diversificar um pouco mais os seus negócios e integrá-los ao mesmo tempo”, acredita Alexandre. Uma das alternativas encontradas pelo produtor foi a agricultura de precisão — sistema de produção adotado por agricultores de países de tecnologia avançada, que surgiu como um sistema de gerenciamento de informações e faz uso de tecnologias de sensoriamento remoto.

“A tendência da agricultura monitorada é produzir mais usando menos. Então, resume-se a tudo que vai ao encontro da precisão para que não ocorra gasto desnecessário. Colocamos somente o necessário de água, de irrigação, de adubo. Tudo de maneira precisa para que a planta e o solo absorvam, atingindo o máximo de produtividade”, ressaltou Alexandre. “Essa preocupação do agricultor em preservar o solo, protegê-lo com palha e matéria orgânica veio ao encontro da sustentabilidade”, acrescenta.

Após a experiência de alguns anos, Alexandre afirma que a produção sustentável não prejudica a produtividade. “Quando você aplica uma prática sustentável de maneira racional na sua atividade, isso traz um benefício direto”, acredita. “As engrenagens ambiental, social e econômica precisam estar interligadas, dando combustão uma para a outra, principalmente a econômica”, acredita.

Incentivo

Com o intuito de promover a agricultura sustentável, a Emater oferece todo incentivo aos produtores rurais. Em nota, a empresa afirmou que o trabalho é focado em três pilares, justamente o econômico, o social e o ambiental. “Toda assistência técnica ofertada pela empresa sempre preza por esses três aspectos, independentemente da produção ser agroecológica ou convencional.” Entre os projetos de incentivo, está o programa de produção orgânica, em que o agricultor utiliza somente produtos naturais. “Desde a alimentação dos animais, passando pelos tipos de adubo, defensivos, tudo é natural. Hoje, no DF, cerca de 300 agricultores produzem alimentos dessa forma”, ressalta.

Segundo a Emater, na produção convencional, os técnicos orientam os agricultores sempre a partir do princípio das Boas Práticas Agrícolas (BPA). “Todas as etapas da produção, desde o plantio até a comercialização, são feitas seguindo rígidos critérios de higiene e segurança. Isso diminui potenciais danos ao meio ambiente e à saúde do trabalhador rural, sua família e, claro, o consumidor”, completa.

*Estagiária sob supervisão de José Carlos Vieira

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