Abusos sexuais

Estupros caem no DF, mas 216 crianças e 148 adultos foram vítimas este ano

Apesar da queda dos registros entre janeiro e agosto deste ano em relação ao mesmo período de 2019, 216 crianças e adolescentes e 148 adultos foram abusados sexualmente no DF. Maioria dos crimes aconteceu nas casas das vítimas

Sarah Peres
postado em 08/09/2020 06:00
 (foto: .)
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“Minha netinha, de apenas 5 anos, sofreu um estupro e não pudemos protegê-la.” Esse é o desabafo da avó de uma das 216 crianças e adolescentes abusadas sexualmente no Distrito Federal entre janeiro e agosto deste ano. Embora os casos tenham diminuído 23% em relação a igual período de 2019 (281), especialistas ouvidos pelo Correio analisam que a redução pode estar atrelada à subnotificação dos delitos. Foram registrados ainda outros 148 estupros de não vulneráveis.

“Um estupro destrói a vida da vítima, assim como de uma família. Precisamos lidar com essa ferida todos os dias. É devastador ver minha menina, que era tão cheia de luz e vida, de uma hora para outra, perder o brilho e a alegria”, completa a avó de Geovana*, que sofreu o último abuso em maio deste ano. O agressor era um vizinho da família, cuja casa fica no Paranoá. Nesta ocasião, câmeras de segurança chegaram a filmar o acusado atraindo a vítima à casa dele, sob o pretexto de assistir a televisão. Sem qualquer malícia, a pequena o acompanhou.

Após o crime, a menina relatou o caso à mãe e à avó, que denunciaram o estuprador, de 53 anos, à 6ª Delegacia de Polícia (Paranoá). Ele fugiu e foi capturado no município de Novo Gama (GO), em agosto. “A Geovana contou aos investigadores que não tinha sido o primeiro abuso, que o crime ocorria há um tempo. Descobrir que esse monstro tirou a inocência da minha neta partiu meu coração. Todos os dias tentamos entender como ele se aproximou e fez isso com ela”, confidencia.

“O perigo está onde menos esperamos. Infelizmente, eu e minha família aprendemos isso da pior forma. É um crime perverso, que modificou completamente a Geovana. Antes, ela era uma criança feliz, sempre animada e com bom apetite. Agora, mudou. Não tem vontade de comer, nem de brincar com as amigas e está muito amedrontada. Onde tem um homem adulto, não quer estar perto. Ela não consegue dormir e está extremamente sensível. Ao menor acontecimento, chora muito, se torna agressiva”, lamenta a avó.

Sinais
Os comportamentos apresentados pela menina são alguns dos sinais que podem ser percebidos em vítimas de estupro, afirma a psicóloga e subsecretária de Atividade Psicossocial da Defensoria Pública do DF, Roberta de Ávila. “É muito difícil determinar um quadro que essa criança ou adolescente pode apresentar após a violência. Mas há mudanças, como isolamento social, o silêncio como um mecanismo de defesa, estresse, ansiedade e até depressão”, analisa.

A especialista explica que cada vítima pode responder ao abuso de modos diferentes, e destaca fatores que pesam no impacto psicológico. “A duração, o grau de violência, a idade no início dos estupros e o grau de relacionamento entre vítima e abusador”, pontua. “A violência sexual, psicologicamente falando, pode ser compreendida como evento traumático e como fator de risco para o desenvolvimento saudável da vítima”, afirma Roberta de Ávila.

“Os estupros, incluindo de vulneráveis, são um problema grave de saúde pública. O tratamento psicológico é indispensável nesses casos, e não apenas à vítima, mas para a família. O atendimento especializado à criança e ao adolescente é importante para o desenvolvimento de estratégias adaptativas para que as vítimas lidem com o trauma”, acrescenta a subsecretária.

Perigo
O secretário de Segurança Pública, Anderson Torres, destaca a queda de 20,4% nos registros de estupro em relação ao mesmo período de 2019, o que representa 93 crimes a menos. “A secretaria produziu estudos que apontam que cerca de 80% desses casos acontecem no interior das residências e 60% são cometidos contra vulnerável, o que dificulta o trabalho da polícia. Além disso, boa parte dos autores são conhecidos da vítima ou da família”, observa o chefe da pasta.

Para coibir esse tipo de violência, Torres afirma que o governo tem aprimorado os canais de denúncia e o trabalho de investigação, identificação e prisão dos autores com o uso de tecnologia. “Fortalecemos, ainda, as ações conjuntas com outros órgãos de governo e da sociedade civil, como as secretarias da Mulher, de Justiça e com a Vara da Infância e da Juventude do DF. Esse esforço é importante não só para retirar os agressores das ruas, mas também para informar e conscientizar as famílias, bem como para garantir o suporte necessário às vítimas.”

* Nome fictício em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)

 


Estatísticas

Estupro de vulnerável
2019281
2020216

Não vulnerável
2019176
2020148

Total
2019457
2020364

Fonte: SSP/DF

Possibilidade de subnotificação

Apesar de a Secretaria de Segurança Pública (SSPDF) ter registrado 65 casos a menos de estupro de vulnerável, especialistas indicam a possibilidade de subnotificações. Isso porque, em decorrência da pandemia do novo coronavírus, parte dessas vítimas está convivendo com os agressores. Além disso, com as aulas on-line, crianças e adolescentes deixaram de ter contato com professores e outros adultos de confiança, que poderiam denunciar os casos à Polícia Civil.

“As crianças e adolescentes estão enclausuradas com os agressores. Em paralelo, perde-se o acesso a outras pessoas de confiança. É um momento inédito e muito delicado e sensível nestes casos, pois os crimes de estupro ferem a alma”, observa a delegada Adriana Romana, chefe da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher de Ceilândia (Deam 2).

“Em Ceilândia, nossa demanda dos crimes de abuso sexual são infantojuvenil, a maior parte, meninas. Percebemos nos atendimentos que, independentemente da intensidade do ato, a violência gera um trauma muito grande. Em casos em que são crianças pequenas, às vezes, elas sequer conseguem identificar a maldade. Falta orientação por parte de pais e dentro das escolas neste aspecto. Não é incentivo, é um modo de prevenção”, sinaliza a delegada.

O juiz Ben-Hur Viza, titular do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Núcleo Bandeirante, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), acredita ser plausível a hipótese de subnotificação, mas levanta outra possibilidade para o decréscimo das denúncias, que pode estar atrelado à maior proximidade das famílias, por conta do sistema de teletrabalho. “O abusador, normalmente, pratica o ato de forma oculta. Por exemplo, no momento em que a mãe sai para trabalhar, ou quando busca aquela vítima na escola e, no trajeto, comete o crime. Com a presença de mais pessoas nas residências, dificulta-se a prática do estupro no ambiente doméstico”, analisa.

Atenção
Por causa da diminuição do contato entre alunos e docentes, a delegada Ana Cristina Melo, adjunta da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), ressalta a importância de a sociedade estar atenta. “Muitas vezes, as pessoas têm desconfiança, mas não denunciam. Querem ter a certeza, mas isso não vai ocorrer, porque um abusador cometerá o crime escondido. Então, basta uma suspeita para acionar os órgãos competentes. Se de fato o abuso ocorreu, esse é o trabalho investigativo da Polícia Civil, não da população”, orienta.

Ana Cristina lista alguns sinais que podem ser um alerta para casos de estupro de vulnerável. “Uma mãe que sai para trabalhar e o responsável pela criança ou adolescente fecha as portas e as janelas, e ali ele fica trancado por horas, é algo suspeito. Essa vítima também pode apresentar alterações comportamentais. Portanto, friso a importância de vizinhos e familiares denunciarem os casos. Há um receio, mas é nossa obrigação salvar uma vida. Não é necessário se identificar, basta informar o nome da vítima, o local onde mora e quem seria o suspeito”, finaliza.

 


Denuncie

» Polícia Civil — 197, opção 3 ou (61) 98626-1197 (WhatsApp)
» Denúncia on-line — www.pcdf.df.gov.br/servicos/197
» Polícia Militar — 190
» Ministério dos Direitos Humanos — Ligue 180 ou Disque 100

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