Coronavírus

Sem vacina, isolamento social ainda é a melhor estratégia contra a covid-19 no DF

Especialistas rebatem argumentos de que a contaminação em massa, a chamada imunidade de rebanho, pode ser a solução para conter a pandemia. Neste momento, enquanto a vacina não chega, a forma mais segura de se proteger é com o distanciamento social

Alan Rios
postado em 11/09/2020 06:00 / atualizado em 11/09/2020 10:33
 (crédito: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(crédito: Ana Rayssa/CB/D.A Press)

O Distrito Federal encontra-se em um momento crucial para que a pandemia comece a demonstrar perspectivas de fim, pois há uma estabilização de casos e estão sendo realizados testes na capital com uma vacina contra a covid-19. Mas, especialistas alertam que os números da doença (contaminação e mortes) estabilizaram-se em um patamar alto e que a flexibilização do distanciamento social pode prolongar ainda mais as intercorrências do novo coronavírus. Com seis meses passados desde as primeiras infecções, e mais de 170 mil pessoas contaminadas no DF, surgiram argumentos sobre a possibilidade de encurtar a pandemia com a chamada imunização coletiva, ou imunização de rebanho, mas a estratégia é apontada com preocupação por pesquisadores. Eles reforçam que ficar em casa e só quando necessário ainda é a maior eficácia contra a doença.

“Estamos em uma fase que tem cerca de mil novos casos por dia de covid-19. Imagina ter mil infartos diariamente. Então, não podemos falar ‘ah, agora sim, o pior acabou’ e relaxar”, explica David Urbaez, diretor científico da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal e infectologista do Laboratório Exame. O especialista alerta que o grande número de pessoas que já tiveram a doença não significa que agora o controle fica mais fácil. “Temos muitas pessoas suscetíveis ao vírus. Vamos supor que o DF chegue a um milhão de infectados, nesse cenário, ainda temos dois milhões que podem contrair o vírus, com milhares de óbitos”. Por isso, a chamada imunidade de rebanho apresenta um perigo.

O termo imunidade coletiva é utilizado como uma estratégia de bloqueio da cadeia de uma infecção que passe de uma pessoa para outra, utilizando como base o entendimento de que, quando uma porcentagem significativa da população adquire o vírus, quem não teve contato com a doença fica protegido e ele para de se alastrar. Mas David afirma: “Imunidade coletiva é uma falácia gigantesca”. O infectologista pontua que ainda não há um tratamento cientificamente comprovado como eficaz para a covid-19. “Não tem como controlar uma infecção viral até ter uma vacina. A imunidade coletiva advém de estudos com doenças que já tinham vacina”, aponta.

As recomendações que começaram a ser ditas há seis meses continuam cada vez mais importantes para encurtar o período da pandemia na capital. “Temos que manter integralmente as orientações de combate, o distanciamento social, o uso de máscara e a higienização correta das mãos, principalmente. Tem muita gente hoje saindo e se aglomerando em igrejas, viagens, festas. Não podemos fazer isso se quisermos sair dessa situação”, explica David. O Correio entrou em contato com a Secretaria de Saúde para comentar o cenário atual da pandemia, mas a pasta informou que não conseguiu atender à demanda por falta de retorno da área técnica.

Voluntários


A melhor alternativa atual é o isolamento, mas o melhor caminho possível pode estar próximo da realidade. Atualmente, três vacinas estão em testes avançados no Brasil. O produto que vinha sendo observado com otimismo pelo Ministério da Saúde, a vacina de Oxford, do laboratório AstraZeneca, teve testes suspensos, na última terça-feira, após uma reação adversa em um voluntário. O governo federal havia feito uma parceria de cooperação para acesso da medicação no país, caso ficasse demonstrada eficácia. Com isso, o produto da farmacêutica chinesa Sinovac Biotech ganha ainda mais expectativa. Ele está sendo testado no Hospital Universitário de Brasília (HUB) e não houve nenhuma intercorrência até então.

“Nosso centro iniciou a aplicação do protocolo de participantes em agosto. Vários voluntários foram vacinados e estão em acompanhamento. Não temos interrupções ou problemas. Estamos tentando alcançar a meta do estudo, recrutando cerca de 850 participantes e demonstrando se ele é seguro e eficaz, para submeter a população ao uso”, detalhou Fernando Araújo, chefe do Setor de Gestão da Pesquisa e Inovação Tecnológica do HUB.

Ele lembra, porém, que nessa fase de testes alguns resultados que não são esperados podem ser comuns, como aconteceu com o produto de Oxford. “Atrasa um pouco, mas faz parte do processo de um ensaio clínico. Existe um comitê independente de acompanhamento de dados, que acompanha as questões de segurança. Qualquer reação que ocorra é investigada por ele”, diz.

Fernando também pontua que a corrida pela vacina eficaz e segura pode ter um produto que seja apontado primeiro como um sucesso, mas que isso não anula o trabalho de outros testes. “É possível que nenhuma vacina seja 100% para todos, mas a gente pode ter uma opção melhor para um grupo específico de pessoas em uma outra alternativa mais eficaz para outros. Eu gostaria que todos esses projetos tivessem sucesso, porque vai ser bom para todos”, explica. Quem se voluntariou para os testes do DF não se abalou com a suspensão dos ensaios de um produto semelhante, como Larissa Bragança, 33 anos, médica clínica.

“Fico até mais tranquila de saber que estão analisando em tempo real e, em qualquer momento, a vacina que eu posso ter tomado pode ser suspensa, para dar segurança. Fico tranquila em relação a isso. Tomei a segunda dose vai fazer um mês, não senti nada. Colhi sangue no último exame para analisar minha imunidade e fico esperançosa. Acho muito bom que estejam acontecendo vários estudos ao mesmo tempo”, avalia.

 

Três perguntas 

Wildo Navegantes, professor de epidemiologia da Universidade de Brasília (UnB)


1. Hoje, a população do DF flexibilizou o isolamento social de forma ainda mais intensa. Ter esse fluxo de pessoas cada vez maior pode ser um fator de risco que deixe o DF em um outro momento difícil no enfrentamento à covid-19?

Isso só agravará a situação, tanto do ponto de vista do sofrimento das pessoas e suas famílias, quanto do quadro econômico, pois faz "arrastar" a pandemia por mais tempo na nossa sociedade. A certeza da circulação viral nas ruas, no trabalho e nas escolas causa, além do risco de infecção com algum agravamento, óbitos e um sofrimento psíquico contínuo na sociedade. Tudo isso além do atraso da retomada definitiva da economia no país, mesmo que cada vez mais ainda estamos aprendendo como lidar com esta doença. Ou seja, se continuarmos a retomada com a "normalidade" anterior a pandemia, teremos aprendido muito pouco e o sofrimento social e econômico parece que só irá se postergar.


2. A chamada imunização de rebanho é vez ou outra citada nos debates da pandemia. Ela realmente pode ser um caminho para controle da doença ou representa um perigo, já que muitas pessoas teriam que ser contaminadas?

Apostar como ferramenta de gestão pública ou privada de saúde em imunidade coletiva (ou "rebanho"), da tradução literal de "herd immunity" é uma temeridade, pois há um sofrimento agregado às pessoas, seus familiares e também a sociedade como um todo, além do custo direto sanitário da doença, além dos custos indiretos. Isso deveria ser veemente evitado pelos governantes e acompanhado pela sociedade.


3. Por fim, temos algumas vacinas em fase avançada de testes no Brasil. Como o senhor enxerga esses testes? A população tem motivo para ter esperanças de uma vacina pronta no primeiro semestre de 2021 ou ainda é muito cedo para dar um panorama?

Esse é um passo importante da ciência mundial, que historicamente responde à altura dos desafios da humanidade. Neste caso, estou esperançoso que os resultados já apareçam no primeiro semestre de 2021 sim, o que não quer dizer que já teremos a quantidade de vacina necessária para vacinar todas as pessoas necessárias.

 

Vacinas em testes avançados no país

 (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)
crédito: Ed Alves/CB/D.A Press

Atualmente, três vacinas foram aprovadas pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) e despontam como as mais promissoras, em testes avançados no Brasil. Uma delas é a CoronaVac, da farmacêutica chinesa Sinovac Biotech, coordenada pelo Instituto Butantan e sendo pesquisada com ajuda da Universidade de Brasília (UnB) nos ensaios. Nas fases anteriores, houve produção de anticorpos em 90% dos participantes que receberam essa imunização. As duas outras estão em fase 3 de testes, mas não possuem centros no DF. Uma é a vacina de Oxford, que teve ensaios suspensos nesta semana. Outra é a chamada Ad26.COV2.S, da farmacêutica Johnson-Johnson.

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