Preservação

11 de setembro: dia de celebrar o cerrado, mas também de defesa da preservação

A velocidade do desmatamento das últimas décadas para a produção agropecuária extensiva, aliado à expansão urbana, reduziram a cobertura vegetal do bioma a pouco mais da metade do seu tamanho original nos arredores da capital

Ana Maria da Silva*
postado em 11/09/2020 06:00
 (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Se hoje é um dia para comemorar a grandiosidade do cerrado, também é momento ideal para denunciar a devastação de uma das áreas com maior diversidade do planeta. O bioma do cerrado, às vezes árido e seco, como nesta época do ano, compartilha espécies com a Amazônia, Caatinga e Mata Atlântica, devido a sua localização central. Neste dia, dedicado à reflexão e mobilização em torno da preservação do cerrado, ambientalistas denunciam a devastação do bioma no Distrito Federal.

A velocidade do desmatamento das últimas décadas para a produção agropecuária extensiva, aliado à expansão urbana, reduziram a cobertura vegetal do bioma a pouco mais da metade do seu tamanho original nos arredores da capital. De acordo com a Exposição Virtual Cerrado: Patrimônio do Brasileiros, a degradação da savana é similar, ou até maior, ao desflorestamento na Amazônia, o que faz alguns pesquisadores afirmarem que, se assim persistir, o bioma poderá desaparecer em grande parte até 2030.

É o que explica o doutor em ecologia e pesquisador do Centro de Estudos Avançados do Cerrado da Universidade de Brasília (UnB Cerrado) Reuber Albuquerque Brandão. “Nós não temos muita esperança de como estará o cerrado efetivamente. Mas, se continuar como é hoje, podemos esperar que as próximas gerações serão as últimas a verem o cerrado como ele é. A não ser as Unidades de Conservação de Proteção Integral (UC), como museus da biodiversidade, como testemunhos da decisão tomada no passado pela cidade, e que temos tomado também hoje”, acredita.

No caso do DF, Reuber explica que a situação ambiental é mais confortável em relação a outras unidades federativas dentro do bioma. “Isso ocorre basicamente pela presença de UCs no Distrito Federal, tais como o Parque Nacional de Brasília, a Estação Ecológica de Águas Emendadas, o conjunto de áreas protegidas compostas pelo Jardim Botânico de Brasília, Reserva do Córrego Roncador e Fazenda Água Limpa”, justifica.

Especulação

No entanto, isso não significa que a situação não seja preocupante, especialmente devido a uma série de problemas relacionados à especulação imobiliária. “Nós temos uma dificuldade de controlar uma pressão cada vez maior do crescimento da cidade. O DF (e região) acabou virando uma ilha de possibilidades econômicas, para uma grande parcela da sociedade brasileira que não tem muitas possibilidades, então atraiu muita gente. Isso acaba pressionando cada vez mais as áreas naturais para virar espaços de moradia, como condomínios e etc. São áreas que têm um valor ecológico alto”, lamenta.

Para solucionar o problema, é preciso gerenciamento e regramento quanto ao uso do solo. É o que explica o biólogo especialista em conservação de espécies ameaçadas Fabricio Escarlate Tavares. “O DF tem um plano diretor que organiza toda a ocupação de áreas, define as atribuições de uso e suas respectivas vocações. Isso é uma forma de diminuir esses impactos. No entanto, isso não vai eliminá-los. Essas ações vão continuar acontecendo, de tal maneira que precisaremos achar caminhos para atenuá-las”, acredita.

De acordo com Fabrício, atualmente as regiões com casos de degradação mais graves são aquelas com plano de expansão. “Ou seja, aquelas definidas para ocupação humana e produção agrícola. Especialmente as áreas mais periféricas, que têm recebido maior pressão, tanto pelo setor agropecuário quanto pela população”, ressalta. “Essas ocupações vão continuar acontecendo uma vez que a população se mantém em crescimento”, reconhece.

Entre as soluções, Fabrício ressalta a educação ambiental: “Precisamos ter áreas de expansão, mas isso necessita ser trabalhado de forma menos impactante ao ambiente. No momento que o cerrado é degradado, nós perderemos serviços ecossistêmicos e podemos comprometer nossa própria existência”, adverte. “Biodiversidade não se recupera. Uma vez perdida, é pra sempre. Quando entramos nesse quesito de perda de biodiversidade, começamos a entrar em perdas de recursos hídricos como água e provimento de alimentos”, completa.

“O lucro não pode estar à frente do bem-estar. Ele é válido, mas precisamos ter responsabilidade no uso dos recursos”, acredita. “A solução é investir em educação ambiental para as diferentes regiões do DF, expandir culturas menos impactantes, mostrar que existem outras formas de trabalhar a terra sem que isso gere prejuízos e que seja tão lucrativo quanto. A perda da biodiversidade compromete a todos nós”, afirma Fabrício.

Fauna sob risco

Todas essas ameaças acabam degradando ecossistemas e diminuindo biodiversidade de fauna, por exemplo. Registros apontam que o cerrado abriga uma grande pluralidade de animais. Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente, existem cerca de 320.000 espécies de animais na região, sendo apenas 0,6% formada por vertebrados. Entre esses, os insetos têm posição de destaque com cerca de 90.000 espécies, representando 28% de toda a biota do cerrado.

Apesar da diversidade, o cerrado é o segundo bioma brasileiro com maior número de espécies da fauna ameaçados de extinção. Segundo o Livro Vermelho da fauna brasileira ameaçada de extinção de 2018, o bioma perde somente para a Mata Atlântica. Foram apontadas 288 espécies ameaçadas de extinção no bioma, dentre elas, a arara-azul, o lobo-guará e o tamanduá-bandeira.

Segundo Estevão do Nascimento Fernandes de Souza, diretor de Gestão Integrada da Biodiversidade e Conscientização Pública do Jardim Botânico de Brasília, os principais motivos de extinção são a perda de habitat e desmatamento, atropelamentos e caça. “A perda de habitat é causada pela expansão das cidades e das fronteiras agrícolas de forma geral, e também por incêndios florestais. No caso dos incêndios (intencionais, muitas vezes), ocorrem não apenas a destruição do habitat, mas muitos casos de morte de diversos animais que não conseguem escapar”, explica.

O diretor afirma que os atropelamentos estão diretamente relacionados com a abertura de estradas e rodovias. “Muitas vezes (essas vias) cruzam locais que serviam de passagem para muitos animais, resultando no aumento dos casos de atropelamento, e a redução do ambiente natural que obriga a fauna a procurar por novas áreas, cruzando estradas com maior chance de atropelamentos”, lamenta. A caça ilegal é também um fator de ameaça às espécies do cerrado, principalmente àquelas vistas como “troféu”, como a onça-pintada e o tatu-canastra.

Estevão ressalta que a degradação do bioma pode impactar fortemente o ecossistema. “Retirar uma espécie de planta, por exemplo, pode significar diminuir a oferta de alimento para uma espécie de animal, causando prejuízos àquele ecossistema. A ausência dos animais em uma área pode resultar, também, em uma recuperação mais lenta de uma área degradada, e a ausência de plantas naquela área aumenta a chance de erosão e empobrecimento do solo”, afirma.

Com o intuito de apresentar a diversidade da fauna do DF, um grupo de biólogos criou o coletivo Brasília é o Bicho! Participante do projeto, o biólogo Fábio Hudson explica que os corredores ecológicos ajudam a evitar a extinção de mais espécies. “Os animais precisam de grandes territórios para sobreviver. Os corredores ajudam a formar locais para que eles se desloquem com segurança entres os seres humanos, de um parque para o outro”, explica.

Extinção

Com o avanço da cidade, a quantidade de corredores tem reduzido e a possibilidade de extinção para algumas espécies é maior. “Se não há corredores, com o tempo haverá cruzamento dos animais entre parentes, o que pode destruir a genética das espécies e causar a extinção. Eles precisam ter conexão com outras áreas e outros indivíduos para manter a genética estável”, explica.

No DF, há cada vez mais perda de áreas, e muitas espécies têm sido prejudicadas, como a onça-pintada. “É a extinção mais próxima de acontecer. Ela precisa de grandes áreas com qualidade de água e comida. O último registro de uma onça-pintada no quadradinho foi em 2017. Cremos que ela só não foi extinta, porque ao redor do DF há áreas protegidas. Então, de vez em quando, uma onça ou outra surge nesses locais”, informa Fábio.

Para melhorar o quadro de extinção, é preciso melhorar a gestão ambiental do DF, conforme explica o biólogo. “Uma gestão correta, que considere corredores ecológicos, a preservação de áreas-chaves para essas espécies e o licenciamento ambiental”, enumera. “Os empreendimentos instalados nessa região precisam considerar a presença dessas espécies. Todas as ações que geram custos para os empresários precisam evitar a extinção dos animais”, adverte.

*Estagiária sob a supervisão de José Carlos Vieira


Animais em extinção no DF

Onça-pintada

Onça-parda

Lobo-guará

Anta

Veado campeiro

Tamanduá bandeira

Porco queixada

Tatu canastra

*Dados: Brasília é o Bicho!


A fauna do cerrado

Mamíferos
199 espécies de mamíferos, sendo 20 endêmicas

Aves
registro de mais de 830 espécies, sendo 3,4% endêmicas


Répteis
registro de 180 espécies, sendo 17% endêmicas

Anfíbios
registro de 150 espécies, sendo 28% espécies endêmicas


*Dados: Exposição Virtual Cerrado: Patrimônio do Brasileiros

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