COFRES PÚBLICOS

Teletrabalho de servidores reduz custos do GDF

A pandemia provocada pelo novo coronavírus obrigou servidores públicos a trabalharem em regime de home office, reduzindo em R$ 36,4 milhões as despesas do governo com material de trabalho e manutenção administrativa

Thais Umbelino
postado em 12/09/2020 07:00
Trabalho remoto funciona melhor para determinados perfis e está atrelado à flexibilidade de cada emprego -  (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Trabalho remoto funciona melhor para determinados perfis e está atrelado à flexibilidade de cada emprego - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Economia de gastos e aumento da produtividade. Este é o resultado da experiência do teletrabalho nos setores público e privado no Distrito Federal durante a pandemia causada pelo novo coronavírus. O Governo do Distrito Federal (GDF) estima uma economia de R$ 36,4 milhões em despesas com material de consumo e prestação de serviços de manutenção administrativa (energia elétrica, água e combustível, por exemplo). No Judiciário, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) informou que, no período de março a julho deste ano, economizou R$ 10 milhões com a trabalho remoto (veja quadro). Empresas privadas do DF também apontaram uma redução de gastos com o formato. Porém, especialistas ouvidos pelo Correio alertam para a implementação do home office e recomendam maior debate e cautela.

Segundo a professora Débora Barem, do Departamento de Administração da Universidade de Brasília (UnB), o home office salientou ainda mais as desigualdades refletidas na capital federal. “A pandemia serviu como uma lupa para mostrar as diferenças na sociedade. O teletrabalho mostra essa questão do espaço e da infraestrutura em que uma pessoa vive. Muitas moram em apartamentos pequenos, têm que conviver com várias pessoas nesse espaço e não têm um local operacional específico”, ressaltou a professora da UnB.

Apesar de defender maior debate sobre o trabalho de casa, a especialista acredita que ele é uma tendência que veio para ficar. “A pandemia funcionou como um catalisador e adiantou esse processo, que acontece, atualmente, em vários locais do mundo”, apontou a especialista. Para ela, porém, refletir sobre os custos e a condição de vida dos funcionários é essencial. “Seria de bom tom que as empresas se responsabilizassem pelos custos adicionais dos trabalhadores, como gasto de luz, telefone, água, equipamentos e alimentação. Uma das soluções pode ser o pagamento de alguma taxa específica ou disponibilizar aparelhos necessários para o home office”, disse Débora.

A psicóloga Raquel Manzini observa que o trabalho remoto funciona melhor para determinados perfis de pessoas e está diretamente atrelado à flexibilidade de cada emprego. “O home office é enlouquecedor se o servidor ou o funcionário não tem estrutura familiar compatível com a proposta. Impossível não adoecer tendo que participar de uma reunião on-line na hora da aula da criança (cheia de dúvidas), ou ter que fazer almoço e lavar louça e na mesma hora mandar e-mails urgentes. A flexibilidade de horário deve estar aliada à rotina dentro de casa”, ressalta a especialista.

Manzini evidencia a necessidade ainda maior de um acompanhamento do gestor. “É importante conhecer minimamente a rotina de cada servidor e adequar horários e pedidos. Trabalhar sob pressão e sem controle sobre os processos de trabalho (rotina, ordem, prioridade), adoece o servidor”, observou Raquel. “Se não houver uma gestão bem treinada, as pessoas vão adoecer em casa e gerar outros custos, como acesso ao serviço de saúde e acúmulo de trabalho com atestados médicos. Indispensável avaliar caso a caso, setor a setor, como a rotina favorece o servidor e o serviço, como o trabalho pode ser melhor distribuído, como as reuniões podem ser otimizadas”, acrescentou Raquel.

Nova realidade

O GDF anunciou que, mesmo com o fim da pandemia, adotará definitivamente o home office para casos especiais. “A Secretaria de Economia estuda a adoção do teletrabalho no GDF desde o ano passado. A prática é uma das medidas para modernização da gestão”, informou a pasta, em nota. Segundo a secretaria, as normas para a adoção definitiva serão publicadas “em breve” e levarão em conta o perfil de cada área e a disponibilidade de cada trabalhador. Alguns setores de atendimento essencial, porém, vão continuar presencialmente, por não se encaixarem no perfil de teletrabalho, como é o caso da saúde, segurança, vigilância sanitária e assistência social.

Para o diretor-superintendente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-DF), Valdir Oliveira, uma das instituições do Sistema S, o formato de home office se encaixou com o modelo de negócio da instituição. “Deu muito certo. Nós crescemos em 5% com teletrabalho e obtivemos uma produtividade maior dos funcionários”, disse. Para ele, o setor que mais economizou foi o de capacitação. “Adequamos o sistema para o meio virtual e reduzimos os gastos com infraestrutura. Seguramente é um modelo que vamos implantar na instituição com os devidos treinamentos e auxílios aos trabalhadores”, completou Valdir.

Frederico Barros, 37 anos, CEO da empresa Fazendo +, responsável por produzir eventos, tomou a decisão de permanecer com teletrabalho, mesmo que a pandemia acabe. “A crise afetou bastante o meu setor, mas, mesmo assim, percebi que, com o teletrabalho, houve uma diminuição nos gastos em torno de 5%”. Para economizar, o empresário cortou os custos fixos ao máximo. “Entreguei o espaço físico da empresa e parei de pagar aluguel. Além disso, todos os funcionários começaram a trabalhar de casa”, disse.

A meta de Frederico, agora, é de se adaptar cada vez mais a essa realidade. “Eu pensava em fazer isso, mas não acreditava que seria possível devido à cultura que a gente tem aqui no Brasil. As pessoas não sabiam trabalhar em casa antes da pandemia e o meu cliente final também não estava adequado a esse tipo de mercado”, observou. “Porém, atualmente, estou adaptando meu sistema operacional para promover eventos virtuais”, concluiu.

Menos custos

Redução de gasto devido ao teletrabalho no Distrito Federal no setor público

R$ 36,4 milhões — economia do Executivo local, de abril a julho, com despesas de material de consumo e de prestação de serviços relacionados à manutenção administrativa. As maiores economias ocorreram em despesas referentes a serviços de energia elétrica e de água e esgoto, que totalizaram uma redução de R$ 24,1 milhões.

Outras economias durante o teletrabalho

» Combustíveis e lubrificantes automotivos (- R$ 395.112)
» Material de expediente (- R$ 868.793)
» Material de informática (- R$ 1.007.717)
» Serviço técnico, administrativo e operacional - Pessoa Física (- R$ 1.588.202)
» Apoio técnico, administrativo e operacional - Pessoa Jurídica (- R$ 6.400.440)
» Serviços de abastecimento da frota de veículos (- R$ 2.018.095)

R$ 10.628.103,55 economia no orçamento do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios no período de março a julho deste ano

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