Investigação

Professora denuncia racismo em escola pública de Taguatinga

A professora relata que a diretora começou a persegui-la e, em uma das vezes, chegou a dizer que ela teria que trabalhar em uma "senzala"

Darcianne Diogo
postado em 28/09/2020 22:24 / atualizado em 29/09/2020 21:57
 (crédito:  Amaro Júnior/CB/D.A Press)
(crédito: Amaro Júnior/CB/D.A Press)

“Ela disse que eu iria dar aula na senzala. Na hora, não consegui reagir e, até hoje, estou abalada e precisando de acompanhamento médico.” Essa é a declaração da professora Vera Lucia Gomes da Silva, de 38 anos, que acusa a diretora de uma escola pública de Taguatinga de racismo. A situação teria ocorrido no início do ano e ela denunciou o ataque à Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), que abriu inquérito para apurar o caso. A diretora se posicionou por meio do advogado de defesa. Ela nega as acusações.

Vera contou ao Correio que os atos racistas denunciados começaram assim que ela entrou na escola, onde lecionava em contrato temporário. “Eu trabalhava em uma outra instituição de ensino e, por motivos de dinâmica, mudei para essa escola, que fica a menos de 300 metros da minha casa”, disse.

Quando entrou na instituição, quem a recebeu foi a vice-diretora, segundo ela. “Era um ambiente muito agradável, onde fiz vários amigos e todos se davam bem. Até então, eu nunca tinha conhecido a diretora. Quando tive o primeiro contato com ela, me pareceu uma pessoa do bem, sem nenhum problema”, ressalta.

No entanto, a “perseguição” começou pouco tempo depois, denuncia. Como consta no boletim de ocorrência registrado na 17ª Delegacia de Polícia (Taguatinga Norte), a diretora teria começado a chamar a professora de “negrinha” e “nega”, sempre na ausência da comunidade escolar. “Como dava aulas para crianças com deficiências múltiplas, eu praticamente não tinha tempo para ir ao banheiro, lanchar ou beber água. Foi quando solicitei para ela um monitor para me ajudar, mas ele não fazia as tarefas básicas. Só depois percebi que a diretora o colocou para me vigiar”, relatou.

Consequências

Vera conta, ainda, que as perseguições não pararam por aí. “Uma vez, ela (diretora) chegou a falar para mim que eu iria dar aula em uma senzala. Tive uma crise de choro dentro da escola, a orientadora veio conversar comigo, mas eu estava abalada.”

Devido a isso, a docente chegou a faltar trabalho por uma semana pois, segundo ela, tinha medo da diretora e não conseguia sair de casa. Como Vera trabalha em contrato temporário, em 17 de junho, foi devolvida à Regional de Ensino. “O que fizeram comigo foi uma injustiça. Eu não sabia que essa mulher fosse capaz de destruir a minha vida dessa forma”, completou.

Na ocorrência policial, Vera afirmou que a diretora alegou que o motivo para o desligamento seria a “desqualificação para o cargo, com uma avaliação de desempenho negativa”. “Agora, estou aqui, com uma ordem de despejo, sem emprego e com medo, muito medo”, finalizou.

Corregedoria apura o caso

Por meio de nota oficial, a Secretaria de Educação informou que a Corregedoria abriu processo de apuração preliminar em relação à denúncia feita pela professora. “A pasta reafirma a sua missão educacional de assegurar o respeito à diversidade e à pluralidade na rede pública de ensino e, com isto, contribuir para que se propague em toda a sociedade”, disse no documento.

Ao Correio, o chefe da unidade regional de gestão de pessoas de Taguatinga, Sonildo Santos, disse que “nunca viu denúncia dessa natureza” na instituição de ensino. “Não podemos entrar nesse mérito, até porque nunca recebemos denúncia desse tipo dessa gestão em específico”, afirmou. A reportagem também procurou a diretora denunciada, mas não conseguiu contato até a mais recente atualização desta matéria. O espaço segue aberto para manifestação.

O Sindicato dos Professores do DF (Sinpro) também se posicionou, por meio de um dos diretores, Bernardo Távora, que esclareceu que foi procurado por Vera, que o questionou sobre a devolução à regional. “Quando se é reprovado na avaliação, você é devolvido para o banco. Fornecemos a ela a assessoria jurídica e tentamos manter um atendimento humanizado. De qualquer forma, esperaremos a apuração dos fatos para nos posicionar”, alegou.

Posicionamento

Por meio do advogado, a diretora se posicionou e negou as acusações. Segundo ele, "não ocorreu nenhuma nenhuma injúria racial ou racismo e os fatos relatados são manifestamente falsos." O advogado acrescentou, ainda, que todas as provas foram apresentadas na 17ª DP. "Essas falsas acusações não são inéditas, pois a Sra. Vera Lucia também registrou boletim de ocorrência em relação à mãe de uma aluna especial acusando-a dos crimes de injúria, desacato e difamação. A denúncia foi uma retaliação à reclamação formulada pela mãe da aluna junto à ouvidoria, por ter recebido tratamento desrespeitoso por parte da professora. Entretanto, o caso foi arquivado a pedido do próprio Ministério Público, com a concordância do Juiz, por inexistência de crime", alegou. 

O advogado comentou, ainda, sobre a devolução de Vera à Regional de Ensino, esclarecendo que, enquanto funcionária temporária, o procedimento tem previsão legal. Disse que nesse caso em específico, "ocorreu em razão da péssima relação profissional com demais professores; das reclamações de pais por inaptidão com o trato em relação às crianças especiais; e das faltas injustificadas, o que prejudicava a turma na qual lecionava." "Por fim, cumpre frisar que a diretora mencionada na reportagem tem 23 anos de serviço público no ensino do DF e sempre prezou pelo absoluto respeito em relação a todos com os quais convive, sendo certo que nunca se envolveu em nenhum relato semelhante ao que foi descrito", finalizou. 

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