Democracia

Primeira eleição para governador do DF completa 30 anos neste sábado

Primeira eleição com escolha popular para chefe do Executivo no Distrito Federal completa três décadas amanhã. Joaquim Roriz venceu em 1990 e o estilo de gestão e de fazer política segue influenciando homens públicos da capital até hoje

Alexandre de Paula
postado em 02/10/2020 06:00 / atualizado em 02/10/2020 06:38
 (crédito: Carlos Silva/CB/D.A Press)
(crédito: Carlos Silva/CB/D.A Press)

Somente há 30 anos, que se completam amanhã, o eleitor do Distrito Federal pôde escolher diretamente o governador da capital. O momento, lembram historiadores e cientistas políticos, foi marcado pela efervescência do período, nos primórdios da redemocratização brasileira. Em 3 de outubro de 1990, os brasilienses votaram pela primeira vez para a definição do cargo, e Joaquim Roriz foi eleito para comandar o Palácio do Buriti. Três décadas depois, o ex-governador, morto em 2018, continua a influenciar o estilo de políticos locais.

Fundada em 1960, Brasília só teve autonomia política oficialmente reconhecida em 1988 com a promulgação da Constituição Federal e após o fim da ditadura militar, cujo golpe ocorreu em 1964. Antes, os chefes do Executivo da nova capital eram nomeados pelo governo federal. Com isso, em 1990, os eleitores do DF puderem, pela primeira vez, eleger, além do governador, 24 deputados distritais. Para a Câmara dos Deputados e Senado, as primeiras eleições locais ocorreram em 1986.

“Estávamos nos primórdios da redemocratização. Em 1989, tivemos a primeira eleição direta para presidente depois de 29 anos. É muito interessante que, em meados da década de 1980, ganhou muita intensidade a campanha pela participação política de Brasília no cenário brasileiro”, explica Antonio José Barbosa, professor de história política da Universidade de Brasília (UnB). O cenário brasiliense, segundo o especialista, era de pressão para o voto direto, assim como nacionalmente ocorreu com as Diretas Já. “Vários segmentos (políticos, sociais, econômicos e intelectuais) engrossaram a campanha pela representação política do DF e isso culminou com a eleição de 1990”, acrescenta.

A votação ocorreu em uma quarta-feira. Dos 893.419 eleitores aptos, 776.739 comparecem às urnas. Distante da modernidade e dos recursos eletrônicos, a apuração dos votos, registrados em cédulas, demorou a sair. Roriz, no entanto, era tido como eleito desde o início pelos resultados das pesquisas de boca de urna. “O Tribunal Regional Eleitoral considerou encerrados os trabalhos de apuração e totalização de votos, cinco dias após a eleição”, destacava reportagem do Correio, publicada em 9 de outubro de 1990, recuperada pelos pesquisadores do Centro de Documentação (Cedoc) do jornal.

Roriz, que já tinha governado o DF de 1988 até parte de 1990 por indicação do então presidente José Sarney, foi eleito com 361.443 votos. Em segundo lugar, ficou Carlos Saraiva (PT), com 132.254 votos. Começou ali, afirma o historiador Antonio José Barbosa, a batalha entre vermelhos e azuis que marcou a política local por anos. “Naquele momento, estava ganhando força a polarização entre esquerda e direita nacionalmente. Esse cenário se repetia aqui em Brasília. Tanto que, a partir de 1990, Brasília passou a ser um campo de batalha ideológica entre os azuis e os vermelhos. Os azuis eram representados pelo grupo de Roriz e os vermelhos, pelos candidatos de esquerda (majoritariamente do PT).”

Para o historiador, essa polarização se dissipou. “As transformações que ocorreram no Brasil e no mundo foram muito profundas e rápidas demais. Hoje, quem tem interesse de continuar essa imagem de embate ideológico é a direita bolsonarista, que tenta manter viva uma chama para a qual não há mais espaço. Acho que esse embate não se repetirá aqui no DF pelo menos para as eleições locais”, avalia Antonio José Barbosa.

Consolidação

O primeiro mandato de Roriz como governador eleito foi essencial, segundo o professor, para que ele se consolidasse como uma das figuras políticas mais fortes da história do DF. À frente do Palácio do Buriti, Roriz deu seguimento a estratégias que já havia adotado na curta gestão anterior, como a doação de lotes e a criação de regiões administrativas.

“A família de Roriz tinha uma fazenda aqui, que foi expropriada. Ele era muito ligado a Brasília desde sempre. Fez política em Goiás. Depois foi governador nomeado e ministro da Agricultura e Reforma Agrária (ficou 14 dias no cargo e se licenciou para concorrer ao Buriti), então nessa eleição já estava bastante entrosado”, comenta o cientista político David Fleischer, professor emérito da UnB. “Interessante lembrar que a Constituinte negou a municipalização do DF. À época, muita gente de locais como Taguatinga e Ceilândia reclamou porque queria que existisse Câmara de Vereadores”, acrescenta.

Sem herdeiros

A influência de Roriz no estilo dos políticos locais é forte. Fleischer cita o atual governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), como um dos que se apropriaram de estratégias dele. “Há uma avaliação de que foi justamente o pessoal que votava no Roriz que elegeu Ibaneis (Rocha). A força desse jeito dele, sobretudo na periferia, ainda é razoavelmente grande.” Mas, de acordo com o cientista político, no entanto, os seguidores das técnicas de Roriz não têm a mesma habilidade que ele tinha para lidar com a população. “O Roriz em eventos de alto nível falava com um português muito correto, mas, quando estava com o povo, assumia uma linguagem cheia de erros, simples. Ele tinha essa dupla face, que Ibaneis, por exemplo, não tem.”

Barbosa avalia que, apesar de ter gerado discípulos, Roriz não deixou herdeiros políticos. “Ele não fez sucessores. Em 1994, quando lançou Valmir Campelo, que tinha sido administrador do Gama e senador, foi derrotado. A força estava presa à própria imagem dele. Isso explica porque as filhas não conseguiram manter o sucesso dele e porque o neto não foi eleito deputado”, analisa. “Os políticos hoje, como Ibaneis, não tentam se apegar à imagem dele, porque isso não geraria votos, mas usam métodos que tentam convergir o populismo que Roriz tinha à modernidade.”

Biônicos

Os governadores indicados após o período da ditadura militar eram popularmente chamados de biônicos. O termo foi cunhado pela oposição ao regime para nomear autoridades que eram escolhidas sem voto popular e faz referência à série de tevê O homem de seis milhões de dólares. O protagonista do programa tinha partes do corpo substituídas por implantes biônicos depois de passar por um acidente. Até 1969, o DF teve prefeitos, que, também, foram nomeados.

Nas urnas

Governadores eleitos diretamente pelo voto popular

1990 Joaquim Roriz (PTR)
1994 Cristovam Buarque (PT)
1998 Joaquim Roriz (MDB)
2002 Joaquim Roriz (MDB)
2006 Arruda (PL)
2010 Agnelo Queiroz (PT)
2014 Rodrigo Rollemberg (PSB)
2018 Ibaneis Rocha (MDB)

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