Crônica da Cidade

Severino Francisco
postado em 06/10/2020 22:41 / atualizado em 06/10/2020 22:42

O rei do futebol

Pelé comemora 80 anos neste mês de outubro, e a polêmica sobre quem foi o maior jogador de futebol de todos os tempos permanece acesa. Os hermanos argentinos defendem, desgrenhadamente, Maradona e Messi. Pois, eu queria dar um pequeno depoimento.

Quando eu tinha 14 anos, morava em São Paulo, queria ser jogador de futebol e disputava peladas o dia inteiro na rua da Vila Guarany, bairro Jabaquara, na vã esperança de me tornar um craque apenas pelo esforço. Comecei a torcer pelo Corinthians por causa de Rivellino, um rapaz que aplicava o drible do elástico e desferia bombas com a perna esquerda. Naquele tempo, o Santos ostentava um esquadrão de cobras, com Pelé, Carlos Alberto, Lima, Toninho, Clodoaldo e Edu, entre outros.

Eu tinha um amigo um pouco mais velho, parceiro das peladas, que era santista doente. Assistia aos jogos do Santos nos estádios e voltava alucinado, narrando as diabruras que Pelé fazia em campo. Sorria com a boca, os olhos, os braços e as mãos quando reconstituía o jogo, lance a lance. Sempre me convidava para ir aos estádios, mas o meu pai era pastor presbiteriano e não deixava. Futebol era uma festa pagã, coisa do diabo.

No entanto, sou insistente, aos poucos, consegui convencer meu pai a me autorizar a ver o clássico Santos e Corinthians, no Morumbi. De um lado Pelé, o rei do futebol, e de outro, Rivellino, o reizinho do Parque São Jorge. A semana anterior ao jogo foi de contagem regressiva dramática, tensa e angustiada. Finalmente, veio o grande dia.

Logo que chegamos ao Morumbi, tomei contato com a energia enlouquecedora da torcida corinthiana. Ela dava gritos de tremer o concreto do estádio: “Corinthians! Corinthians...” O jogo ao vivo é completamente diverso daquele transmitido pela televisão ou pelo videotape. Os preparativos aumentam a dramaticidade.

Mas, enfim, a bola rolou. Está valendo. Esperava, ansiosamente, as jogadas de Pelé. No entanto, nos primeiros minutos, ele não viu a cor da bola. O beque Luiz Carlos, do Corinthians, antecipava todas e não deixava Pelé jogar. Passaram-se 10 minutos, 20 minutos, e nada. Estava começando a ficar decepcionado. Era esse o rei do futebol?

Pelé era o grande ausente da partida. Mas, aos 25 minutos do primeiro tempo, Toninho cruzou da esquerda para Pelé, dentro da área do Corinthians. O camisa 10 do Santos ameaçou dar o bote, recuou e, na velocidade do instinto, aplicou um chapéu duplo em Ditão e Luiz Carlos, e fuzilou para as redes. É uma jogada tão rápida, com o ritmo de fugacidade da luz, que mesmo no videotape fica difícil acompanhar o que aconteceu.

Soube que era gol de Pelé porque vi a rede corinthiana balançar e a torcida do Timão xingar o camisa 10 santista com os mais cabeludos vocábulos da língua portuguesa. É um daqueles lances de futebol-arte para emoldurar e colocar na parede. Pelé ainda recebeu passe de Edu e fez outro gol. Ele fazia coisas tão fantásticas que só são possíveis nos joguinhos de videogame. Quem não acreditar, veja o documentário Isto é Pelé.

O jogo terminou 3 para o Santos e 1 para o Corinthians. Em apenas duas jogadas, Pelé acabou com a partida. Naquele dia, entendi porque Pelé era o rei do futebol. Que me desculpem os hermanos, Maradona e Messi podem ser condes, viscondes, barões, marqueses, duques ou arquiduques. Mas o rei do futebol é mesmo Pelé.



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