Brasília volta a ouvir canto das cigarras, que pode chegar a 120 decibéis

Os insetos típicos da fauna local sobem às árvores na primavera para o período de reprodução. Cantoria é sinônimo de chuva em Brasília e amplitude pode chegar a 120 decibéis

Jéssica Moura
postado em 11/10/2020 06:00
 (crédito: Ana Rayssa/CB/D.A)
(crédito: Ana Rayssa/CB/D.A)

Desde o início da semana, um som típico da primavera chama a atenção dos brasilienses. Nos locais onde há concentração de árvores, o canto das cigarras já pode ser ouvido com mais intensidade. Para muitos moradores do Distrito Federal, que, este ano, passaram mais de cem dias sem chuvas e enfrentaram uma onda de calor que elevou as temperaturas a recorde histórico, o barulho, que pode atingir os 120 decibéis, traz alívio e bom agouro: o período chuvoso aproxima-se. Na sexta-feira, a precipitação animou os brasilienses e, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a previsão é de que haja mais pancadas de chuva.

A amplitude do coral das cigarras pode chegar a 120 decibéis, taxas próximas às de um concerto de rock ou decolagem de avião, observa o biólogo Riuler Corrêa, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), especialista nos insetos.

Mas nem isso atrapalha a empolgação de quem mora na capital federal ao ouvir o canto. “O som não incomoda a gente, não, faz parte da época”, diz Rafael Dusi, 34 anos, morador da Asa sul. “A gente coloca uma música mais alta do que elas”, emenda o filho, João, 9. O menino afirma que gosta dos insetos. “Quando eu tava fazendo um passeio com a minha turma na Água Mineral, encontrei uma casca e serviu de broche”, relata.Depois de saírem da terra, as cigarras passam alguns dias imóveis nos troncos até que a pele, chamada pela biologia de exúvia, desprende-se, e elas chegam à fase adulta.

Todos os anos, ao perceber o canto dos insetos na Asa Norte, o jornalista e turismólogo Daniel Zukko, 40, publica uma ilustração sobre o fenômeno nas redes sociais. “Para mim, é um som da cidade, nunca me incomodou. Durante muito tempo nem percebia, era um ruído normal”, conta Zukko.

O som, muitas vezes intenso, não é unanimidade. O psicólogo Yuri Sebastian, 29, por exemplo, apesar de morar em Águas Claras, trabalha na Asa Sul e abomina as cigarras. “O barulho é muito alto, faz doer meus ouvidos.” Contudo, o zoólogo da Universidade de Brasília (UnB), Paulo César Motta Motta alerta: “Elas ainda cantam mais ou menos até dezembro”. Algumas espécies mantêm a cantoria até abril. É nesse período que se reproduzem e depositam os ovos nos ramos das árvores. Depois disso, morrem.

A professora aposentada, Jacimar Pinheiro, 60, também não simpatizou com o barulho das cigarras logo de cara. “Angustiava-me muito ficar ouvindo”, relata. No entanto, a relação com o som dos insetos mudou ao longo dos últimos 40 anos, desde que veio do Rio de Janeiro para morar no DF. Ela conta que a mudança ocorreu quando foi trabalhar como professora de artes na Escola Parque da 314 Sul, já que as cigarras faziam parte das atividades pedagógicas. “Os meninos pintavam, desenhavam e faziam peças de teatro sobre a cigarra”, recorda-se.

Naquela época, Jacimar explica que, com outros professores, ressignificou o célebre conto A Cigarra e a Formiga. Na fábula, La Fontaine narra que, durante o verão, enquanto as formigas trabalhavam para estocar comida para o inverno, as cigarras cantavam e, por isso, teriam ficado sem alimento. No entanto, nas aulas, ela dizia aos alunos: “A escola comum era a formiga, e a Parque, era a cigarra. Colocava assim a importância da arte, tirava essa culpa da cigarra, porque na vida a gente precisa de trabalho e precisa de arte”.

O que diz a ciência

Apesar de não haver uma correlação comprovada entre as cigarras e a temporada de chuvas, o zoólogo Paulo César Motta explica que algumas hipóteses são levantadas para o fato de as cigarras emergirem do solo nesse período de transição entre a seca e a chuva. Com as chuvas, solo fica mais maleável e é mais fácil para as ninfas (insetos jovens) saírem da terra e subirem aos troncos das árvores e passarem pela metamorfose. Motta ressalta que o ciclo de vida das cigarras é bastante longo. “Ficam de cinco a sete anos debaixo da terra. Todo ano emergem e se transformam em adultos, quando criam asas.” Após se libertarem da exúvia é que os órgãos reprodutivos amadurecem.Depois da metamorfose, as cigarras adultas emitem os sons para atrair os parceiros e se reproduzirem. Em seguida, depositam os ovos nos ramos das árvores. O biólogo Riuler Corrêa ressalta que as cigarras de habitats fechados costumam emitir sinais em coral, geralmente sincronizados com a alta incidência luminosa. Por isso, é possível ouvi-las durante todo o dia, ou enquanto houver luz. Ele destaca que o período reprodutivo das adultas pode ter até cerca de seis meses, sendo que algumas espécies alternam esses intervalos para reduzir a competição.

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  • Os alunos da professora aposentada Jacimar Pinheiro pintavam, desenhavam e faziam peças sobre o bicho
    Os alunos da professora aposentada Jacimar Pinheiro pintavam, desenhavam e faziam peças sobre o bicho Foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press
  • O morador da Asa Sul Rafael Dusi e os filhos João e Lucas: eles se divertem com os insetos
    O morador da Asa Sul Rafael Dusi e os filhos João e Lucas: eles se divertem com os insetos Foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press

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