SEGURANÇA

Fuga de presos na Papuda é a maior dos últimos 10 anos no DF; veja os foragidos

Dezessete presos do Centro de Detenção Provisória I, no Complexo Penitenciário da Papuda, fizeram um buraco no teto da cela e escaparam pelo telhado. Detentos escavaram por quatro dias. Onze foram recapturados ontem

Sarah Peres
Darcianne Diogo
postado em 15/10/2020 06:00 / atualizado em 15/10/2020 06:19
 (crédito: Fotos: Reprodução/Video )
(crédito: Fotos: Reprodução/Video )

A maior fuga de prisão da última década no Distrito Federal aconteceu ontem, no Complexo Penitenciário da Papuda. Durante a madrugada, escaparam 17 detentos lotados no Centro de Detenção Provisória I (CDP I). Os internos cavaram, por quatro dias, um buraco no telhado com o auxílio de uma espécie de faca artesanal, produzida pelo grupo. Até o fechamento desta edição, 11 presos haviam sido recapturados pelas forças de segurança e seis permaneciam foragidos. Para especialistas e entidades sindicais, baixo efetivo de policiais penais e estrutura antiga colaboraram para a ação dos encarcerados. Há possibilidade de desativação da instalação prisional.

“As equipes de segurança estão empenhadas para recuperar os detentos que fugiram. Acreditamos que a fuga é um caso isolado, e que, nas próximas horas, poderemos recuperar todos os internos e dar uma resposta à população de Brasília”, disse o secretário de Administração Penitenciária, Agnaldo Curado, ontem.

O CDP I é um dos presídios mais velhos da Papuda. Fundado em 1973, a unidade abriga 3.409 detentos, mas tem capacidade para 1.679, segundo a Secretaria de Administração Penitenciária do DF (Seape). Os internos que fugiram do presídio estavam lotados na Cela 4 da Ala C do Bloco 1. Em janeiro deste ano, as Alas “A” e “B” do espaço passaram por reforma, após três detentos cavarem um buraco no teto (leia Memória). A obra foi realizada após interdição da Vara de Execuções Penais (VEP), a pedido da juíza Leila Cury.

Fontes policiais informaram ao Correio que a estrutura do teto teria facilitado a fuga, pois, segundo eles, é fraca e “podre”. Secretário de Administração Penitenciária, Agnaldo Curado destaca que a recuperação estrutural não contemplou os demais espaços do Centro de Detenção Provisória. “As alas ‘C’ e ‘D’ não passaram por reforma, e contam com uma estrutura ainda da década de 1960. Os internos que estavam na mesma ala dos fugitivos foram realocados dentro do complexo para uma obra de recuperação do local, com aprovação da VEP”, explica. Não foi informado o local para onde os encarcerados foram encaminhados.

Ontem, a juíza Leila Cury esteve no CDP I com representantes do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). As autoridades fizeram uma vistoria no espaço e entrevistaram presos e policiais penais. A magistrada determinou, ainda, a interdição da Ala C do Bloco 1. Hoje, a juiza se reunirá com o secretário, na VEP, para tratar do funcionamento do Centro de Detenção.

De acordo com o secretário, o encontro será para tratar da desativação do CDP I. “Toda pessoa que vai presa, vai para lá (CDP I) primeiro. São detentos que ainda não receberam a condenação. As instalações da unidade são muito ruins, e eles já entram querendo fugir. A ideia é transferirmos todos os presos dessa cadeia para o CDP II e III, que são estruturas novas que dispõem de tecnologias. Então, iremos propor isso à juíza. Caso ela aceite, faremos a mudança. O plano B é a reforma da unidade”, ressalta o secretário Agnaldo Curado.

Plano

Os 17 internos fugiram pelo teto do CDP, pela madrugada. Câmeras do circuito interno de segurança gravaram o momento em que os detentos saíram por um buraco e desceram o prédio com o auxílio de uma corda formada por panos, conhecida pelos custodiados como “tereza”. As buscas iniciaram pela madrugada, e são realizadas pela Diretoria Penitenciária de Operações Especiais (DPOE), além das polícias Militar, Civil e Rodoviária.A Secretaria de Administração Penitenciária abriu um procedimento interno para apuração da fuga e da origem da faca artesanal utilizada pelos detentos para cavar o teto. Falhas

O presidente do Sindicato dos Policiais Penais do DF (Sindpen), Paulo Rogério da Silva, trata a fuga como uma falha na segurança do complexo. Segundo ele, no momento em que os internos escaparam, havia cerca de um policial para cada 100 presos. O Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária sugere a proporção de um servidor para cada cinco detentos por turno de serviço.

“Se providências não forem tomadas, se não realizarem concurso público para aumentar o número de funcionários ou não chamarem aqueles que aguardam a convocação, não conseguiremos resolver o problema. Não é a primeira vez que isso acontece e, se nada for feito, não será a última”, critica.

Segundo Paulo Rogério, o Sindpen formalizou denúncias acerca da má estrutura do CDP I e encaminhou às autoridades. “O complexo foi construído na década de 1970 e é formado por tijolos furados. O preso foge hoje, você isola a ala, reboca o buraco, passa uma tinta na parede e coloca o detento novamente lá. Não vai adiantar. O prédio tinha que ser demolido, pois não tem a menor capacidade de abrigar pessoas privativas de liberdade”, questionou.

Na avaliação do especialista em segurança pública Leonardo Sant’Anna, o caso pode ser comparado a uma bomba relógio. “Todos sabiam que, em algum momento, isso aconteceria, porque era notório o volume de internos no espaço, a falta de modernização dentro do sistema e o baixo investimento na estrutura”, afirma.

» Procurados até a noite de ontem

Paulo Henrique Silva de Castro
Responde por homicídio qualificado e tentado; roubo qualificado; e corrupção de menores.
Sem sinais.

Wanderson da Silva Santos
Responde por homicídio, receptação e uso de documento falso.
Sem sinais.

Erison Vieira de Moraes
Responde por roubo qualificado e adulteração de sinal identificador de veículo.
Sinais: corte no dorso inferior; palhaço no dorso direito; duende e letras no braço direito; indígena na batata da perna direita; e águia no dorso esquerdo.

Gabriel Nathan da Rocha Bessio, vulgo “Frajola”
Responde por tráfico de drogas, corrupção de menores e posse de drogas.
Sinais: tatuagens de “Murilo Henrique” no antebraço esquerdo e uma letra na mão direita.

Carlos Cauan da Silva Campos
Responde por furto qualificado e resistência.
Sinais: sem informações.

Lucas Caldeira da Silva
Responde por causar incêndio e furto qualificado.
Sinais: tatuagem da letra “L” no braço direito.

» Recapturados

Antônio Marcos da Silva de Souza, vulgo “Bebê”
Responde por roubo qualificado. Sem sinais.

Márcio Vinícius de Souza Andrade
Responde por homicídio qualificado.
Sinais: cicatriz de círculos por queda de moto no abdômen e no joelho direito.

Anderson Ferreira Abade
Responde por homicídio consumado e tentado qualificados e por roubo qualificado.
Sinais: tatuagem tribal no antebraço esquerdo.

Thiago Henrique Souza Silva
Responde por roubo qualificado.
Sinais: tatuagens de “diabo” no abdômen, de “santa” no ombro esquerdo; e sinal de cirurgia no abdômen.

Ismauro Gonçalves de Oliveira
Responde por roubo e furto qualificado.
Sinais: tatuagens de “3M” no antebraço esquerdo, “1S” na mão direita e águia no braço esquerdo; cortes na canela direita.

Francisco Hebert Aragão Moura
Responde por homicídio qualificado.
Sinais: sem informação.

Mádeson Ferreira Abade
Responde por homicídio qualificado e ocultação de cadáver.
Sinais: tatuagem de punhal no antebraço direito.

Jonas dos Santos de Sousa
Responde por homicídio qualificado, roubo e furto qualificado, e receptação.
Sinais: tatuagens de pantera no antebraço esquerdo e carpa na mão esquerda.

Romildo Santos da Silva
Responde por tráfico de drogas.
Sinais: sem informação.

Bruno Pereira Barbosa de Souza
Responde por roubo qualificado.
Sinais: sem informações.

Abraão Zadoque da Silva Melo
Responde por roubo.
Sinais: sem informação.

Ilustração
Ilustração (foto: -)

ILustração
ILustração (foto: -)

» Memória

28 de janeiro de 2020
Três presos fugiram no Complexo Penitenciário da Papuda após cavarem um buraco na cela onde estavam detidos, localizada no Bloco 1 da Ala A do Centro de Detenção Provisória (CDP). Roberto Barbosa dos Santos, Carlos Augusto Mota de Oliveira e André Candido Aparecido da Silva subiram pelo telhado e pularam dois muros. O prédio que recebe internos provisórios é uma das construções mais antigas do espaço, com paredes feitas de tijolos e uma fina camada de cimento. Ainda em janeiro, Carlos se entregou no Fórum de Brasília. Em fevereiro, Valdir foi preso Setor de Autarquias Norte, após uma suspeita de roubo de celular. Roberto foi o último a ser capturado, em abril, na QNM 20/22, em Ceilândia. Ele estava em um carro clonado.

21 de fevereiro de 2016
Dez detentos fugiram do complexo pela madrugada. Todos os internos estavam em regime fechado, sendo que três deles foram recapturados em uma área de matagal, próximo à Papuda. A fuga foi arquitetada e realizada por Michael da Mata Silva, Marcos Antônio Moreira dos Santos, Laiuço de Brito Santos, Cleiton da Silva Liberato, Levino Pereira de Brito, Gerson Inácio Ferreira, Jefferson Alves Faria Carvalho, Francisco Elton de Lima Sousa, Gedeone Montalvão Bento e Valdeir Alves de Brito.

10 de junho de 2012
Três internos conseguiram escapar da Papuda após serrarem as grades das celas onde estavam encarcerados, no Centro de Detenção Provisória. Júlio César Abel Trovão, Cláudio de Melo Lima e Eduardo Pereira estavam detidos preventivamente na ala para presos provisórios pelos crimes de roubo e furto. O trio aguardava julgamento.

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