Crônica da Cidade

Severino Francisco
postado em 15/10/2020 23:07 / atualizado em 15/10/2020 23:07

Soldado amarelo

O nosso escritor gaúcho-brasiliense Lourenço Cazarré é um contador de histórias de mão cheia. Ele já ganhou 12 prêmios nacionais de literatura. A ponto de alguns escribas ameaçarem entrar com recurso contra ele no STF. Como diria o Paulo Francis, atenção, massas, riam, isso é uma piada. Pois bem, Cazarré acaba de lançar o primeiro romance diretamente na rede Amazon, com o título de O soldado amarelo (O inferno não tem arremate).
O nome do livro é inspirado, obviamente, no célebre personagem do romance Vidas secas, de Graciliano Ramos, o soldado amarelo que aplica uma surra humilhante e traumática no vaqueiro Fabiano.
O Fabiano da ficção de Cazarré o personagem chamado Professor Só-aos-sábados. O narrador deO soldado amareloé um policial militar acusado de ter batido em um professor que, vinte anos antes, foi professor do governador do estado. Para safar-se da acusação, o sargento entrelaça essa agressão ao professor com uma tocaia sofrida, na mesma data, pelo prefeito da cidadezinha do interior onde mora.
Em uma longa conversa com o governador do Estado, esse sargento da Força Pública usará do seu domínio retórico da língua portuguesa (obtido quando policiava as galerias da Assembleia Legislativa) para se salvar de uma provável punição.
O ponto de partida de Cazarré foi um depoimento de Graciliano a seu filho Ricardo, publicado com o títuloGraciliano – Retrato fragmentado. Ele baseou-se em fato verídico de um atentado sofrido por Graciliano, nos tempos em que era prefeito de Palmeira dos Índios. Vale a pena evocar a história pouco conhecida do cabra alagoano.
Certo domingo, depois do almoço, numa tarde bonita, Graciliano foi com a mulher, Heloísa, ao cinema. Ela estava grávida. Pegaram o automóvel e ganharam a estrada. No melhor momento, quando o tempo ficou fresco, no pôr do sol, abruptamente, atiraram em Graciliano. O para-brisa do Ford se estilhaçou com seis tiros: “Gente ruim, uma peste de pontaria”, comentou Graciliano. “Não acertaram ninguém”.
O chofer do prefeito Graciliano respondeu com uma descarga de revólver para todos os lados. Depois do susto, Graciliano percebeu que eram dois sujeitos de tocaia. Um fugiu, o outro se escondeu embaixo de uma ponte. Graciliano caiu para cima dele, o agarrou e trouxe preso. Deixou a mulher em casa e levou o atirador para a delegacia.
Lá, o sujeito apanhou muito, mas não disse nada sobre os mandantes. Graciliano passou por lá e intimou: “Fale ou não fala nunca mais”. O filho Ricardo perguntou: “Estavam batendo nele?”. Graciliano replicou: “Não, estavam lhe passando a mão na cabeça. Que é que você queria? Ele tinha vindo me assassinar. Podia ter matado sua mãe com você dentro. Eu ia conversar com ele em francês?”

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