Crônica da Cidade

Mariana Niederauer
postado em 18/10/2020 23:54 / atualizado em 18/10/2020 23:54

Ser quem eu sou

Ser completamente. Sem tirar nem por. Quem, nesta vida, tem a oportunidade de alcançar tal privilégio? Mesmo em condições que me dariam uma vantagem extrema de cruzar a linha de chegada e encontrar a plenitude, enxergar a solidão desse posto é mergulhar num vazio existencial.
Quando o óbvio precisa ser dito sobre situações de violência ou de preconceito, a sensação aflora. Os corpos violentados, a alma ferida. A distância até a luz no fim do túnel se agiganta. O que poucos percebem é como a exclusão nos deixa sozinhos e, aí, o limite entre a liberdade e o aprisionamento torna-se tênue.
Ser por completo, e primeiro, antes de tudo mesmo, é o que nos transforma em pessoas capazes de termos o outro em nossas vidas. Mas pressupõe também descobertas e aceitação, essenciais para respeitar a alteridade. Tanto aquela que existe, circula e vive dentro de nossos lares quanto a que cruzamos nas ruas, esquinas, bares, escolas ou supermercados.
Um belo dia resolvi mudar. E fazer tudo o que eu queria fazer. Os versos não são meus, evidentemente. Em uma revolução pessoal e nacional, Rita Lee ajuda a decifrar e traduzir todo esse furacão de existências femininas. Em tudo o que eu faço. Existe um porquê. Eu sei que eu nasci. Sei que eu nasci pra saber.
E fui andando sem pensar em voltar. E sem ligar pro que me aconteceu. Um belo dia vou lhe telefonar. Pra lhe dizer que aquele sonho cresceu. E não parou de crescer.
Sob um viés contemporâneo, a questão ganhou outros contornos. Universais. E é necessário reconhecer as engrenagens que contribuem para sermos mais pasteurizados, menos nós mesmos. Viver o sonho americano, ou mesmo o brasileiro distante dos subúrbios, é o risco de igualar a todos na busca de um patamar quase sempre inalcançável.
Um dos entraves mais claros está na expectativa criada a partir do “quem eu sou” e “nasci pra quê?”. Em Sejamos todos feministas, a premiada escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie resume parte do enigma. “O problema da questão de gênero é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos. Seríamos bem mais felizes, mais livres para sermos quem realmente somos, se não tivéssemos o peso das expectativas do gênero”, escreve.
No ar que eu respiro. Eu sinto prazer. De ser quem eu sou. De estar onde estou.
Os versos repetidos em refrão concretizam justamente a quebra da lógica perversa que pune a todos com a posição cada vez mais distante da tão sonhada felicidade. O fim da letra pode ser o desfecho de uma carta de amor. Ou um convite para se entregar à transformação. Agora só falta você.

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