Sonho monumental

Documentário Brasília e seus pioneiros promete emocionar, em sessão especial, hoje, no Cine Drive-in

Ricardo Daehn
postado em 19/10/2020 00:12 / atualizado em 19/10/2020 00:13
 (crédito: Iano Andrade/Divulgação)
(crédito: Iano Andrade/Divulgação)

“Era cada um por si, e Deus por todos.” É assim que o empreendedor e pioneiro Enildo Veríssimo Gomes lembra dos idos de uma era na capital em que “o dinheiro era pouco”, como ele ressalta. Foi na onda de batizar uma pizzaria com o nome corrente, à época, de Dom Bosco, usado por lojas de material de construção e padarias, entre outras, que Enildo, hoje aos 75 anos, viu sua dedicação vertida em prosperidade. “Na cara e na coragem”, como sublinha, ele viu a marca criada desdobrada em cinco estabelecimentos, alguns gerenciados pelos filhos Rodrigo e Romero. Hoje à noite, Enildo tem encontro marcado com uma gama de episódios do passado, dada a pré-estreia do longa Brasília e seus Pioneiros, no Cine Drive-in, em sessão reservada para convidados e para a imprensa.
O Drive-in — que, em Enildo, nem de longe desperta memórias de namoros passados: “para namorar, a gente ia à Torre de TV, na fonte luminosa, e no Núcleo Bandeirante, para dançar” — apresentará tramas de sucesso de 20 pioneiros da capital. “Todos eles são um exemplo para a meninada. São empreendedores que vieram de baixo, e venceram”, comenta o fundador da Pizzaria Dom Bosco. Brasília acolheu o pioneiro (nascido em Bangui, Minas Gerais, em dois momentos: 1960 e, num regresso, em 1968. Entre muita poeira, visualizou o Eldorado, ainda experimentando de uma “vida danada”, em Taguatinga, com direito à “rua sem asfalto e nem nada”. Desde a chegada, na qual encerrava enorme alegria, o pioneiro guarda a certeza de ser “candango na vida toda”. Como ele diz: Brasília foi mãe e pai para quem quis trabalhar.

Histórias sem fim

Em 80 minutos, o documentário Brasília e seus pioneiros abarca parte das realidades mentais e econômicas que refletem em personalidades da cidade com idades entre 80 e 90 anos. Hely Valter Couto (da Pioneira da Borracha), Gilberto Salomão (do centro comercial) e Osório Adriano (notório pela construtora e pela política) dividem atenções com guerreiras como Janete Vaz e Sandra Costa (de famoso laboratório de exames).
Jovem empresário do ramo imobiliário, Phelipe Matias, 38 anos, foi quem idealizou a produção audiovisual (que futuramente estará na plataforma Now e nas redes sociais do projeto BSB60). Filho de Antônio Matias, 81 anos, Phelipe juntou-se ao produtor Tiago Falqueiro para recontar, no filme (que traz imagens do Sia, de Sobradinho e do Guará), do legado de 20 pessoas que geraram emprego para cerca de 8 mil trabalhadores. “Queremos mostrar que Brasília não é uma cidade administrativa à mercê de renda do governo”, demarca o idealizador do longa dirigido por Danilo Borges.
Foi na celebração dos 59 anos da capital que, por meio de entrevistas mais rudimentares (a princípio) que Phelipe e Falqueiro afirmaram-se pelas mídias sociais. “A demanda foi muito grande. As pessoas gostam de resgatar e conhecer aqueles que praticamente colocaram a mão na massa, ainda como operários da cidade”, observa Phelipe. Da experiência précia derivou a vontade de deixar tudo registrado “para a história, e com mais profissionalismo”. Na jornada do novo filme, esmiuçaram vidas como as de Eustáquio Rezende, que, inicialmente, engraxava sapato e vendia docinhos pela capital. O pai do idealizador do projeto, aliás, veio para a cidade com o dinheiro contado, e ainda no pau-de-arara (vindo do Nordeste), viu-se sem nem ter o que comer. Batalhador, foi operário, frentista e guarda-noturno, até estabelecer melhorias. “Brasília oferecia muita oportunidade”, sintetiza Phelipe.

Ponte multicultural

No banquete de emoções proposto pelo filme, há lugar de honra para o belga Simon Pitel que, movido “pelos 21 anos e pela aventura”, nos anos de 1960, se tornou “um rei dos restaurantes”, à frente do Roma (na W3 Sul). “Quem estava em Brasília, e não veio ao Roma, em 1967, não viveu a noite da cidade. Era lotado, sempre numa perspectiva de se manter com patamar de duas, três estrelas. Houve noite em que recebemos seis ministros de estado e quatro embaixadores. Mas, nunca me deixei impressionar. O restaurante era muito popular, e com clientela firme”, conta Pitel.
Hoje, aos 84 anos, Pitel recorda não só dos idos de 1958, quando viu “a cidade nascer” e não conseguia fechar o Roma antes das quatro horas da manhã: pesam ainda as recentes memórias chacoalhadas pelo documentário Brasília e seus pioneiros. “Participei de outros documentários, mas este foi o mais elaborado e o mais estudado”, opina.
Parte do cardápio italiano, mantido no Roma; a presença de 27 funcionários, no império hoje administrado pela filha Ângela, e, em especial, os companheiros vistos no documentário — e que, nos anos 1970 e 1980 eram todos seus fregueses — fervilham na mente do belga adotado pela capital do Brasil.

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