Crônica da Cidade

Dialeto

Alexandre de Paula
postado em 23/10/2020 22:33

Quando me mudei para Brasília, no longínquo 2010, trouxe comigo um dialeto quase particular. Vindo dos rincões do interior mineiro, estranhei o excesso de “véi”, os erres límpidos e sem nenhuma aspereza e o “boto fé” que meus colegas de faculdade usavam o tempo todo. Foi nesse tempo que percebi que algumas palavras só sobrevivem dentro de redomas próprias e que muito do que eu dizia e guardava no ouvido só tinha sentido nos meus pequenos quintais.

Foi assim com o verbo danar. “O pai danou com a filha.” Jamais disse frase como essa para algum brasiliense sem que precisasse passar minutos explicando o que quis dizer e sem observar o espanto com que me olhava o interlocutor. Por lá, a gente usava danar como sinônimo de algo como bronca ou sermão. Alguém com certeza vai danar comigo ao ler essa crônica.

Mais interessante do que notar isso foi tentar descobrir de onde vinham algumas palavras que eu conhecia. Assim, percebi algo que me deixou espantado. Eu morava em um distrito de menos de 3 mil habitantes (Cisco) que ficava a 37km do município sede (Frutal). Minha cabeça explodiu quando confirmei, a partir de pesquisa extensa e complexa (leia ligações telefônicas para pais e amigos) que palavras ditas no Cisco eram completamente desconhecidas em Frutal, o que me levou a crer que tínhamos mesmo um dialeto próprio.

Muito da culpa pela criação dessa quase língua é de um senhor chamado Aguinaldo Cecílio. Pelo nome de verdade ninguém o conhece por lá. Para que o identifiquem, é preciso usar um dos 478 apelidos, como Bórsina, Europa, Cherles e Tiele (o mais famoso). Como um Guimarães Rosa em estado bruto, ele inventa palavras o tempo todo.

Arçada, moagem, indaca: três palavras para designar situações ruins que vieram, assim acreditamos, da lavra de Tiele. Arçada, por exemplo, virou verbo: “Arcei”, dizem alguns em momentos de erro. O Riobaldo cisquense é um sujeito claro, de meia altura, forte e de aparência mais jovem do que os 60 e poucos anos que tem. Sobretudo, é engraçadíssimo. “Eu invento essas arçadas naturalmente. Vem na cabeça, eu mando”, diz com o vocabulário que construiu nos anos de lavoura de abacaxi em que matutou neologismos. Como bom mineiro, Tiele gosta de uma cachacinha, mas a forma como se refere a ela é singular, muito além dos batidos caninha ou água que passarinho não bebe. “Vou bater um corrosivo.”

Tiele é poeta, mesmo que nunca tenha escrito um verso. Namorado da minha avó, ele veio me visitar no ano passado. Fomos ao lançamento da excelente exposição Despertar para o sonho, do fotógrafo Mateus Vidigal. “Fotos de ventania”, cravou Tiele ao observar atentamente as fotos que usavam o movimento como um recurso impressionante. Quando contei ao Mateus, que é meu amigo também desde o saudoso 2010, ele se emocionou.

A verdade é que 10 anos depois sigo usando as mesmas palavras. Hora ou outra, vai sair um danar. Porque é o seguinte: não troco a minha arçada pelo “tá ok?” de ninguém.

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