Quarentene-se

Há mais de 200 dias isolados, moradores de Brasília contam sobre adaptação e dificuldades

Distanciamento social é adotado pela segurança

Thais Umbelino
postado em 25/10/2020 07:00 / atualizado em 25/10/2020 17:21
 (crédito: Arquivo Pessoal)
(crédito: Arquivo Pessoal)

Março foi um mês atípico na capital federal, assim como no mundo inteiro, devido à pandemia do novo coronavírus, e a população do Distrito Federal foi obrigada a se isolar em casa para tentar conter a disseminação da doença. Porém, a partir de maio, as medidas de sanitárias passaram a ser flexibilizadas. Hoje, as pessoas começaram a sair de casa para trabalhar ou encontrar com amigos e familiares. Outras se mantêm em isolamento e guardam as saudades de quem ama para poder encontrá-los em um momento seguro

O casal Taís Meireles, 31 anos, e Felipe Duarte, 31, marcam em um calendário o tempo sem sair de casa, na Asa Norte. “Até agora, foram 222 dias de quarentena. A última vez que saímos, foi em 13 de março, para visitar meus pais”, conta a jornalista. Com a reclusão, a rotina dos dois em casa mudou completamente. “No início, a gente achava que a pandemia não duraria tanto tempo. Mas, com o passar dos dias, vimos que as coisas estavam mais sérias, então decidimos cancelar nossa viagem para o Chile, marcada para abril, e a mudar a nossa rotina”, relata Taís.

Hábitos mais saudáveis e novas práticas foram adotadas no dia a dia. “Começamos a fazer ioga, algo que eu nunca tinha feito antes, e a meditar. Essa, sem dúvida, tem sido a fase que mais fiz exercícios físicos na vida. Além disso, adotamos um movimento próximo ao vegetarianismo, no qual estamos consumindo pouca carne e deixando de comer alimentos condimentados e industrializados”, ressalta Felipe. O estudante emagreceu 26 quilos, desde o início dos primeiros decretos de isolamento. “Foi uma bênção para a gente. Estou mais saudável, mental e psicologicamente”, avalia o rapaz.

Recursos como aplicativos de entrega de compras e atendimento pela telemedicina facilitaram o isolamento do casal. “Teve uma fase em que eu tive um incômodo no ouvido e consegui ser atendido sem sair de casa”, lembra Felipe. O mesmo cuidado foi adotado com o animal de estimação do casal. “No início de abril, o Peralta passou mal e precisamos levá-lo ao pet shop. Nós o deixamos na clínica, sem entrar, e ficamos do lado de fora até nos entregarem ele”, complementa.

Com sete anos de namoro, sendo três morando juntos, Taís e Felipe se viram mais unidos e resilientes no relacionamento. “A gente vai se adaptando, porque a convivência é 24 horas por dia. Foram muitos aprendizados, de muita conversa e compartilhamento”, descreve Taís. Apesar de evitarem pensar no futuro, o plano, assim que a pandemia acabar, é rever os amigos e familiares e viajar. “São muitas saudades”, conclui o casal.

 

Aprendizado

A rotina tem ajudado a estudante de medicina Luiza Alves, 22, a manter-se em isolamento social desde março. “Todas as minhas aulas do cursinho continuam on-line e por isso não precisei sair de casa”, explica. Mesmo com saudade dos amigos e familiares, ela segue determinada em evitar contato físico com as pessoas. “Falo com quem amo pelas redes sociais ou por ligações de vídeo. Precisei sair algumas vezes para ir ao mercado e costumo descer do prédio onde moro para fazer algumas caminhadas durante a semana, mas sem encontros ou convivência”, afirma a jovem.

O distanciamento se mantém dentro de casa, em Águas Claras. Com o retorno das atividades, os pais de Luiza, que atuam com delivery de empadas, precisaram trabalhar presencialmente. “Eles buscam se cuidar ao máximo, e, como eu posso ficar em casa, decidi não sair para não expô-los mais ainda”, ressalta Luiza. A falta de consciência sobre a seriedade da covid-19 incomoda a estudante. “A impressão que eu tenho é de que muitos não levam a sério a doença. A flexibilização é inevitável, mas, com certeza, dá uma desanimada ver aglomerações por aí. O que me conforta é que estou fazendo minha parte”, protesta.

O isolamento social também afetou a rotina de Magali Nicolau, 58, e Ana Carolina Nicolau, 25, moradoras do Grande Colorado. “Somos privilegiadas em viver em uma casa e conseguir adaptar nossa rotina durante a pandemia”, aponta Magali. No início da crise sanitária, mãe e filha pensaram que seria algo breve. “Não achei que fosse durar tanto tempo. No começo, a gente fica meio apavorada, bate aquele pânico e tristeza por ver a perda de muitas vidas humanas. Vivi uma coisa que nunca imaginei. Durante essa pausa, aproveitei para colocar a casa em ordem: arrumar fotografias, roupas e separar livros”, revela a aposentada.

“Mas, o tempo foi passando. Antes, fazia muito curso on-line, assistia a lives e arrumava as coisas. Hoje, a gente fica mais cansada”, observa Magali. A partir daí, as duas decidiram enfrentar a nova realidade de forma diferente, porém juntas. “Adaptamos nossa rotina para não atrapalhar uma a outra”, completa. Ela arriscou-se a aprender desenho e pintura. Também, deu continuidade às aulas de flauta transversal e de inglês e o ensino de libras para um grupo de iniciantes. “Estou há quatro anos aposentada, mas nunca parei, de fato, porque sempre estava trabalhando na igreja. Dessa vez, porém, a vida me obrigou a parar”, conta Magali.

A filha seguiu com o trabalho de produtora, começou a escrever um livro e a aprender a tocar violino. “Eu vi que podia fazer disso um momento para ser mais produtiva do que eu sou, principalmente por não ter mais aquela obrigação social”, avalia. O período ainda trouxe reflexões e crescimento. “A quarentena me fez sonhar mais com um futuro que a gente não pode fazer agora. Temos que lidar com isso: é um momento de ficar em casa”, finaliza. 

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