Trânsito

Pandemia reduz em 49% a quantidade de mortes nas pistas do Distrito Federal

Neste ano, o DF apresenta menor índice de acidentes com óbitos. Comparado a 2019, houve queda de 47%. Segundo o Detran e o DER, até setembro de 2020, foram registradas 132 fatalidades nas vias da capital. No ano passado, as ocorrências somaram 253

Thais Umbelino
postado em 07/11/2020 07:00
 (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

A pandemia do novo coronavírus impactou o trânsito do Distrito Federal. Este ano, a capital registrou o menor índice de acidentes com mortes desde 2000. Até setembro, de acordo com o Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) e com o Departamento de Estradas e Rodagem (DER-DF), houve 132 ocorrências desse tipo nas vias distritais, até setembro. Comparando com todo o acumulado de 2019 (253), a capital teve queda de 47%.

A taxa menor, segundo com o diretor de Educação de Trânsito do Detran-DF, Marcelo Granja, também está atrelada às campanhas promovidas pelo órgão. “Durante a pandemia, o Detran não parou, e o nosso objetivo, mesmo com a queda de movimento, era continuar a conscientizar motoristas e pedestres sobre as responsabilidades no trânsito”, explica.

Doutor em transportes e professor de engenharia civil da Universidade de Brasília (UnB), Pastor Willy Gonzales Taco avalia que o cenário do trânsito durante a crise sanitária, principalmente nos meses em que o índice de isolamento social estava alto, foi marcado pelo aumento de motocicletas e de ciclistas nas principais pistas do DF. “O crescimento de deliveries trouxe maior concentração desses veículos nas estradas”, afirma. A análise reforça os dados do Detran, em que os motociclistas aparecem como as principais vítimas de acidentes de trânsito este ano (veja Vítimas em 2020).

Para o professor, apesar da queda, o número de ocorrências com mortes é um reflexo do comportamento dos condutores do DF. “Mostra que a cultura ainda é de velocidade alta e desrespeito às regras de trânsito”, argumenta. As regiões que somam mais casos de óbitos são Plano Piloto (9), Ceilândia (6) e Taguatinga (4). “É um dado esperado, pois esses são os locais mais populosos da capital e, por isso, onde há mais fluxo de carros e pessoas”, destaca Pastor.

A professora Cristiane Teixeira, 49 anos, levou um susto em maio, quando um veículo, em alta velocidade, entrou bruscamente na faixa onde ela estava, na L4 Norte. “Eu tentei desviar, mas a pista estava molhada, e eu acabei batendo com o carro no meio fio”, lembra. Além do susto e do medo, a motorista teve um prejuízo de quase R$ 2 mil. “Tinha acabado de trocar todos os pneus do carro, e, no momento da batida, dois deles rasgaram. A sorte foi que eu não tive nenhuma lesão e estava sozinha”, completa a moradora do Jardim Botânico.

A família de Francisco Sales Ferreira de Araújo, 56, não teve a mesma sorte. O ciclista foi atingido, em setembro, por um micro-ônibus, também na L4 Norte, sentido Vila Planalto, e morreu. O motorista fugiu do local. “Ele ficou cinco horas abandonado. Nem o motorista nem outros veículos pararam para prestar socorro. Uma total falta de empatia”, protesta a filha Audeyse Alves, 32. A morte do zelador da Federação Brasiliense de Tiro mudou a vida dos seis filhos e da esposa. “Meu pai era uma pessoa iluminada, vivia cantando, sorrindo, alegrando amigos, abraçando, sempre foi assim. Já chegava naquela energia e vibração. A falta dele, no dia a dia, é imensa”, lamenta Audeyse. “Ele deixou muita falta aqui, todas as vezes quando eu vejo um ônibus passar eu sinto uma agonia, um sentimento ruim que vou levar comigo durante anos. A sensação que tenho é que parece que tanto faz. A morte dele não abalou o motorista que o atingiu”, acusa.

Para Marcelo Granja, do Detran, o fim de ano traz a necessidade de planejamento. “Nós estamos com um projeto para dar maior visibilidade nos cuidados no trânsito. Vamos atuar com um grupo de teatro para trabalhar com a contação de histórias em vias públicas e conscientizar motoristas e pedestres. Além disso, vamos continuar a alertar a população para os riscos que a chuva provoca no trânsito, visto que nesse período há várias ocorrências e manter a fiscalização do uso de celular ao volante, da ingestão de álcool e do excesso de velocidade”, destaca o diretor.

Perigo

De acordo com o Departamento de Estradas de Rodagem do DF (DER-DF), desde 2019, as rodovias distritais com maior registro de acidentes com mortes são: a Estrada Parque Contorno (EPCT /DF-001), com 23 óbitos; a Estrada Parque Indústria e Abastecimento (EPIA /DF-003), com 20 vítimas; o Eixo Rodoviário (DF-002), onde cinco pessoas perderam a vida; e a DF-180, com quatro. Os dados foram coletados entre 1º janeiro de 2019 e 25 de outubro de 2020.

Professor de Engenharia de Tráfego da UnB, Paulo Cesar Marques ressalta que existem dois tipos de trânsito na capital federal: o de passagem e o local. “Ambos são relacionados com o comportamento do público. No primeiro, normalmente, a pessoa está se deslocando para algum local e precisa pegar as rodovias. Com isso, a tendência nessas vias é de uma velocidade mais alta e de maior perigo. No último, a movimentação acontece dentro das regiões e bairros, onde a pessoa mora, o que faz com que a velocidade seja menor”, explica Paulo.

As rodovias federais apresentam um número significativo de mortes e, segundo o professor, são mais propensas a ocorrências graves. De acordo com dados da Polícia Rodoviária Federal do Distrito Federal (PRF-DF), o número de acidentes as principais rodovias federais que cortam a capital, de janeiro a 20 de outubro, foi de 368. Os trechos com maior tava de fatalidades estão na BR-040, do km 0 ao km 10 (Santa Maria-Valparaíso); e na BR-060, também do km 0 ao km 10 (Samambaia-Recanto das Emas).

  • Homenagem ao ciclista Francisco Sales Ferreira de Araújo, morto aos 56 anos, em setembro, depois de ser atingido por um micro-ônibus, na L4 Norte
    Homenagem ao ciclista Francisco Sales Ferreira de Araújo, morto aos 56 anos, em setembro, depois de ser atingido por um micro-ônibus, na L4 Norte Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • Cristiane Teixeira, 49 anos, sofreu um acidente na L4 Norte, em maio
    Cristiane Teixeira, 49 anos, sofreu um acidente na L4 Norte, em maio Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Carro atinge seis motos

Ontem, um acidente na Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia), próximo à Floricultura Núcleo Bandeirante, causou a morte de uma pessoa e deixou seis feridas. A motorista de um Fiat Sena de cor prata perdeu o controle do carro e atingiu seis motociclistas que aguardavam a chuva passar embaixo de um viaduto. Um deles morreu no local. A condutora e um dos feridos foram encaminhados para o Hospital de Base. As demais vítimas sofreram ferimentos leves e não precisaram de atendimento médico.

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