Coronavírus

Secretaria de Saúde vai mapear covid para evitar segunda onda no DF

Plano da Secretaria de Saúde é controlar a doença a partir do serviço de Atenção Primária à Saúde nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), com o monitoramento dos pacientes. Para isso, serão disponibilizados 150 mil testes e 600 oxímetros (medidor de saturação de oxigênio)

Thais Umbelino
postado em 11/11/2020 06:00
 (crédito:  Renato Alves / Agência Brasília)
(crédito: Renato Alves / Agência Brasília)

A Secretaria de Saúde do Distrito Federal vai começar a elaborar um inquérito epidemiológico, na segunda quinzena de novembro, para traçar a situação da pandemia do novo coronavírus no Distrito Federal. O anúncio foi feito ontem, em coletiva de imprensa, no Salão Nobre do Palácio do Buriti. A previsão é de que o documento traga informações detalhadas sobre a característica do vírus no DF e como ele se prolifera nas 34 Regiões Administrativas (RAs), além do perfil sociodemográfico dos infectados. Também compõe o Plano de Ações Estratégicas de Combate ao Coronavírus um Plano de Contingência com ações específicas em relação à probabilidade de uma segunda onda da doença na capital federal.

O plano, segundo a SES-DF, é controlar a doença a partir do serviço de Atenção Primária à Saúde nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), com o monitoramento dos pacientes. Para isso, serão disponibilizados 150 mil testes e 600 oxímetros (medidor de saturação de oxigênio). “A gente está saindo na frente, nos precavendo de haver uma possível transmissão mais acentuada, para, dessa forma, a Secretaria de Saúde poder dar as respostas de imediato, quer seja em um trabalho que a gente faz de desmobilização em um momento ou também remobilizar todo o nosso sistema de saúde para o atendimento de pacientes graves e pacientes que necessitam de internação”, declarou o secretário Osnei Okumoto.

A ideia é de que, a partir de agora, não haja mais uma unidade central de referência para atendimento de pacientes com covid-19. “Cada região terá equipes treinadas para atendimento nas unidades de saúde, além de ala covid-19”, explicou o subsecretário de Atenção Integral da Saúde, Alexandre Garcia. “Na unidade, os profissionais de saúde vão classificar o paciente. De acordo com a gravidade da doença (covid-19), a pessoa fica na unidade ou vai para casa cumprir isolamento domiciliar”. Nas residências, os pacientes serão monitorados por telefone ou por mídia (pessoas do grupo de risco terão atenção de 24h em 24h horas e quem não for do grupo de risco, de 48h em 48h). Além dos testes, as unidades também serão abastecidas com equipamentos de proteção individual (EPIs).

Uma amostragem nas 34 Regiões Administrativas do Distrito Federal, chamada de 30 por 7, será responsável por apresentar como o vírus é transmitido na capital, no inquérito epidemiológico. “A gente subdivide uma RA em conglomerados, ou seja, junções de casas, quadras ou conjuntos, e realiza o sorteio de 30 deles. Dentro de cada um dos quadrantes, sorteamos uma casa. Em cada um desses polígonos, faremos sete testes em sete pessoas”, explicou o diretor de vigilância epidemiológica Cássio Peterka. Os entrevistados devem ser maiores de 18 anos e a média é de que serão utilizados 10 mil testes — doados pelos Serviço Social do Comércio (Sesc-DF). A estimativa é de que a conclusão dos trabalhos de campos seja feita de 15 a 20 dias, com mais 10 dias para análise de dados. Cada RA terá uma equipe realizando as atividades simultâneas. “(São) dados consistentes para determinar quais medidas necessárias que o GDF têm de tomar em relação a pandemia existente no mundo”, pontuou o secretário de Saúde.

Cirurgias eletivas

Diante do cenário de diminuição da transmissão do índice do vírus no Distrito Federal, registrado em 0,79 (menor que 1 representa que a epidemia tende a acabar), a pasta decidiu retomar, gradativamente, as cirurgias eletivas na rede pública de saúde. Elas estavam suspensas, em função da pandemia, desde 29 de junho. “A gente imagina que voltará a acontecer de uma a duas semanas, momento em que há a previsão da chegada de insumos importantes”, explicou o secretário adjunto de Assistência à Saúde, Petrus Sanches.

Outra mudança será na destinação do Hospital de Campanha de Ceilândia, previsto para inaugurar daqui a 35 dias. “Em um primeiro momento, vai ficar pronto e equipado, ainda aguardando para uma possível segunda onda”, completou Sanches.

Mais de 217 mil casos e 3.775 mortes

Com 509 casos registrados nas últimas 24 horas, o Distrito Federal soma 217.370 pessoas infectadas pelo coronavírus. Destas, 209.251 estão recuperadas, o equivalente a 96,3% do total. Foram notificados 16 óbitos em decorrência da doença, totalizando 3.775 mortes até o momento. Os dados foram divulgados, ontem, no boletim da Diretoria de Vigilância Epidemiológica do Distrito Federal.

Os óbitos informados ocorreram entre os dias 4 e 10 de novembro. Apenas um deles aconteceu em 13 de setembro, sendo notificado pela Secretaria de Saúde (SES) neste último boletim. A maioria era do sexo masculino e tinha idade entre 50 a 59 anos.

Cinco dos óbitos não apresentavam comorbidades e os outros tinham histórico de algum problema de saúde, como doenças cardiovasculares e distúrbios metabólicos.

A Ceilândia permanece como a região administrativa com o maior número de casos, tendo registrado 26.589 infectados. Em seguida, aparecem as regiões de Taguatinga (17.997) e do Plano Piloto (17.675). Ainda de acordo com o boletim, a faixa etária com maior número de infectados é a de 30 a 49 anos.

Os óbitos são registrados na maioria das vezes entre pessoas de 80 anos ou mais. A letalidade da doença está em 1,8%, e a taxa de mortalidade é de, em média, 113,6 para cada 100 mil habitantes.

* Estagiária sob a supervisão de Adson Boaventura

22% da população infectada

Um estudo feito em conjunto por professores da Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ), e Universidade do Estado da Bahia (Uneb) adiantou que cerca de 22% da população do Distrito Federal contraiu a doença — a imunidade de rebanho só é adquirida quando a taxa de infecção da população está entre 60% e 70%. A pesquisa foi divulgada ontem. O DF lidera o ranking de maior porcentagem de infectados e está empatado com os estados do Rio de Janeiro e Pernambuco. Todos os demais alcançaram índices de 20% ou menos.

Com a análise, Tarcísio Rocha Filho, físico do Núcleo de Altos Estudos Estratégicos para o Desenvolvimento da UnB, explica que há um risco de uma segunda onda de casos para todo o Brasil. “O número de reprodução R0 ainda está muito próximo de 1, na maioria dos locais. Isso significa que é muito fácil voltar a ter crescimento, se não houver cuidados.” O fator R0 determina o potencial de propagação de um vírus. Se ele é igual a 1, significa que cada paciente infectado contamina mais uma pessoa. No DF, o R0 está abaixo de 1, o que ajuda a explicar a diminuição de casos e mortes.

Por isso, o especialista reforça que não é hora de descuidar. “Aqui os números estão diminuindo, mas podem retomar. Estamos vendo muitas promessas de vacinas chegando, mas existe uma logística complicada. É difícil saber quando teremos uma segunda onda, porque depende de como a população vai se comportar”.

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