EDUCAÇÃO

Parabéns! Pioneira, Escola Parque da 308 Sul completa 60 anos

Para marcar a data, a direção da escola resolveu produzir vídeos com depoimentos de quem estudou e trabalhou no local nos últimos anos

Jéssica Moura
postado em 20/11/2020 06:00
 (crédito: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(crédito: Ana Rayssa/CB/D.A Press)

A primeira impressão de Alzira Silva, 59 anos, ao visitar a Escola Parque da 308 Sul, ainda em 1969, foi de euforia. “Na minha cabeça, era como se fosse um clube”, lembra. A unidade, que foi o primeiro colégio inaugurado na nova capital, em 1960, completa, hoje, 60 anos. Ao longo desse período, passou por muitas mudanças em relação ao projeto original, concebido pelo célebre educador Anísio Teixeira. Contudo, ainda desperta paixões entre professores, ex-alunos e estudantes. “Aquilo que aprendi na escola parque empreguei na vida”, diz a ex-aluna da instituição.

A tradicional festa de aniversário, em que pedaços de um grande bolo eram distribuídos à comunidade escolar, não vai acontecer este ano por causa da pandemia do novo coronavírus. No entanto, para marcar a data, a direção da escola resolveu produzir vídeos com depoimentos de quem estudou e trabalhou no local nos últimos anos. Alzira lembra que, quando era criança, a festa era uma grande celebração. “A apoteose acontecia no teatro. Faziam apresentações de peças, era uma grande confraternização”, recorda.

A primeira aula no colégio ocorreu em 16 de maio de 1960, mas foi só em 20 de novembro que a escola passou a integrar o 1º Centro de Educação Elementar. Por isso, a data foi escolhida para o aniversário. Na unidade, foi construído, também, o primeiro teatro de Brasília, onde foram encenadas as primeiras peças da capital.

“Tinha artes plásticas e artes industriais. A gente aprendia a trabalhar pintura em porcelana, trabalhar com couro e com cerâmica. Tínhamos literatura, educação musical e o festival da canção da escola parque. Sempre gostei muito de música. Minha turma ganhou o prêmio, que era um berimbau de ouro. Se a gente ganhasse, ele ficava na casa de cada um, e depois devolvia para o ano seguinte”, lembra Alzira. “Quando eu tive a última aula, passei uns três dias chorando”, complementa. Hoje, a produção dos alunos nas aulas de artes está exposta nos murais da escola.

Alzira Silva prestou concurso para Secretaria de Educação em 2001. Ao ser aprovada, deram-lhe uma lista com as unidades que poderia optar para dar aulas de artes. “Quando vi Escola Parque da 308 Sul na lista, nem olhei para as demais”, lembra.

Estrutura

A arquitetura do espaço, tombado em 2004, segue a inspiração modernista da década de 1960, presente, também, no desenho de Brasília. O vão livre e os pilotis, que são marca da cidade, compõem a edificação da escola. Os colégios não estavam previstos no Plano Piloto de Lucio Costa, mas, um dos pioneiros da capital e padrinho da escola na 308 Sul, Ernesto Silva, o convenceu a alterar o projeto e incluir as escolas pensadas por Anísio Teixeira.

“Originalmente, não tinha cerca. Os alunos podiam chegar à Igrejinha a pé”, recorda Paulo Valença, diretor da instituição. “É uma escola bem bolada. Ela foi pensada em uma descida, sem obstáculo impeditivo. Aqui, você sobe, tem um platô. A escola tem outra perspectiva”, ressalta.

Projeto

Coube a Anísio Teixeira, diretor do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), na época da construção da nova capital, elaborar o Plano Educacional de Brasília. Com isso, ele propôs a implementação das escolas parque, que, a princípio, seriam 28. A ideia era que os estudantes matriculados na rede pública frequentassem as unidades quatro vezes por semana no contraturno, para desenvolver atividades artísticas e de educação física ao longo de quatro horas. O projeto de Anísio pretendia democratizar o acesso ao ensino, de modo que as construções escolares de Brasília servissem de modelo para todo o país.

A disposição das escolas parque nas quadras residenciais foi pensada para que as crianças andassem a pé, e pudessem ir e voltar do colégio sem a interferência dos carros. Para o então presidente, Juscelino Kubitschek, a escola parque deveria propiciar que “um filho de ministro de Estado estudasse, lado a lado, de um filho de operário”. No primeiro ano de funcionamento, foram 270 alunos atendidos. O ex-governador Rodrigo Rollemberg e o jogador de basquete Pipoca foram alunos da unidade. Até a rainha da Inglaterra, Elizabeth II, visitou a instituição em 1968.

Contudo, apesar do modelo preconizado por Anísio Teixeira, em 1962, só podia estudar na unidade quem morasse no Plano Piloto. Com isso, os filhos dos candangos que participaram da construção de Brasília e que viviam nas satélites ficaram de fora. “Houve uma elitização nesse período”, pondera Paulo Valença. Isso mudou nos anos 1990, quando as matrículas também foram autorizadas aos filhos de pessoas que trabalhavam no Plano. Até hoje, a ideia de construir 28 unidades não saiu no papel. Cinco escolas estão localizadas no Plano Piloto e outras duas, em Ceilândia e Brazlândia.

Para os próximos 60 anos, Paulo Valença defende que a escola seja adaptada para viabilizar o acesso a estudantes com deficiência, além da expansão do modelo de escola parque. “É uma escola que tem força própria, mas que tem orgulho de fazer parte do sistema, porque ela, sozinha, seria só mais uma escola de excelência, e não traria benefícios”.

 

 

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